10
Ago
06

Sonetos de Shakespeare.

Após a leitura dos Sonetos de Shakespeare houve alguns, que pelo conteúdo me despertaram especial interesse. Mas também importa dizer que o livro é excelente, pela maneira como os sentimentos expressos naqueles sonetos nos tocam ainda hoje, longos anos após a sua publicação original. Da leitura de obras anteriores de Shakespeare, sobretudo o “Hamlet”, apercebi-me que os temas abordados pelo autor – o amor, o ódio, a morte, a vingança, a luta pelo poder, a raiva, a tristeza, a loucura e o suicídio, são de tal maneira ligados à condição humana que são transversais a todas as gerações, portanto sempre actuais e universais.

Também gostaria de salientar a edição da caixa de DVD´s de Akira Kurosawa, que contém o filme “Trono de sangue”, que é uma adaptação da peça “Macbeth” ao estilo japonês feudal, uma história cujo universo de loucura e intriga é demonstrativo que Shakespeare era capaz de nos mostrar o melhor e o pior do ser humano.

Quanto aos “Sonetos” aqui fica uma pequena selecção de alguns que, na minha opinião, nos dão uma pequena amostra do universo temático abordado por Shakespeare neste livro em particular. Espero que gostem…

Soneto n.8

És musica e a música ouves triste?
Doçura atrai doçura e alegria:
porque amas o que a teu prazer resiste,
ou tens prazer só na melancolia?
se a concórdia dos sons bem afinados,
por casados, ofende o teu ouvido,
são-te branda censura, em ti calcados,
porque de ti deviam ter nascido.
Vê que uma corda a outra casa bem
e ambas se fazem mútuo ordenamento,
como marido e filho e feliz mãe
que, todos num, cantam de encantamento:
É canção sem palavras, vária e em
uníssono:”só não serás ninguém”.

Soneto n.22

Não diga o meu espelho que envelheço,
se a juventude e tu têm igual data,
mas se os sulcos do tempo em ti conheço
então devo expiar no que me mata.
Tanta beleza te recobre e deu
tais galas a vestir a meu coração,
que vive no teu peito e o teu no meu.
Mais velho do que tu serei então?
Portanto, meu amor, cuida de ti
como eu, não por mim, por ti somente
te cuido o coração, que guardo aqui
como à criança a ama diligente.
Não contes com o teu se o meu morrer.
Deste-me o teu e o não vou devolver.

Soneto n.43
Meus olhos vêem melhor se os vou fechando.
Viram coisas de dia e foi em vão,
mas quando durmo, em sonhos te fitando,
são escura luz que luz na escuridão.
Tu cuja sombra faz a sombra clara,
como em forma de sombras assombravas
ledo o claro dia em luz mais rara,
se em sombra a olhos sem visão brilhavas!
Que benção a meus olhos fora feita
vendo-te à viva luz do dia bem,
se a tua sombra em trevas imperfeita
a olhos sem visão no sono vem!
Vejo os dias quais noites não te vendo,
e as noites dias claros sonhos tendo.

Soneto n.66
À morte peço a paz farto de tudo,
de ver talento a mendigar o pão,
e o oco abonitado e farfalhudo,
e a pura fé rasgada na traição,
e galas de ouro es despejados bustos,
e a virgindade à bruta rebentada,
e em justa perfeição tratos injustos,
e o valor da inépcia valer nada,
e autoridade na arte pôr mordaça,
e pedantes a engenho dando lei,
e a verdade por lorpa como passa,
e no cativo bem o mal ser rei.
Farto disto, não deixo o meu caminho,
pois se eu morrer, é o meu amor sozinho.

Soneto n.81

Ou pra fazer-te o epitáfio vivo,
ou vives mais e a terra me apodrece.
Tua memória a morte deste arquivo
não tira, mas de mim o resto esquece.
Aqui terá o teu nome imortal gala,
indo eu, hei-de ficar do mundo oculto,
só pode dar-me a terra comum vala,
no olhar dos homens tu serás sepulto.
Meus versos monumento te serão
que hão-de ler e reler olhos a vir
e as línguas a haver repetirão
o que és, quando já ninguém respire.
Viverás, que da pena a força mana,
onde o sopro mais sopra, em boca humana.

Soneto n.87
Adeus! caro de mais te possuía,
sabes a estimativa em que te trazem;
carta de teu valor dá-te franquia,
meus vínculos a ti já se desfazem.
Como reter-te sem consentimento
e onde mereço essa riqueza grada?
Falece a causa em mim de tal provento
e a patente que tenho é revogada.
Deste-me, sem saber do teu valor,
ou quanto a mim, a quem o deste, errando,
e a dávida que em base errada for
volta a casa, melhor se ponderando.
Tive-te assim qual sonho de embalar,
um rei no sono e nada ao acordar.

Soneto n.148

Ah, que olhos pôs Amor na minha cara
mas sem correspondência a fiel vista?
Ou se a têm, meu juízo onde é que pára
que em tão falsas censuras inda insista?
Se é belo o que meus olhos falso adoram
que quer dizer o mundo em negação?
E se não é, amor mostra se goram
seus olhos, menos fiéis que os homens: não,
como pode? Como pode, se pranto
e espera o afectam, ser fiel no olhar?
De erros da minha vista não me espanto,
o sol não vê até o céu limpar.
Manhoso amor, com choros pões-me cego,
mas vendo bem, a tuas faltas chego.

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3 Responses to “Sonetos de Shakespeare.”


  1. 1 Daniela
    Fevereiro 17, 2008 às 7:18 pm

    LINDO! Simplesmente magnífico! Adorei mesmo! Idolatro Shakespeare!

  2. Fevereiro 18, 2008 às 9:57 pm

    Eu sou um grande admirador de Shakespeare, sobretudo do Hamlet.

    Obrigado por passar por aqui.

  3. 3 fredson gomes dias
    Junho 23, 2010 às 5:32 pm

    sem tirar nem por.sem duvida shakespeare, é a magnifica perfeiçao de dramaturgia. uma das quais q procuro frizar é: romeu e julieta. seu vocabulario.seu lirismo. sua maestria. resumindo tudo, e dando o som d apenas uma palavra, seria: a mais PERFEITA das artes


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