05
Jan
07

A cultura e cidade.

Neste dias tenho aproveitado o facto de sair um pouco mais cedo e tenho visitado algumas galerias da cidade. Visitei a Lab65 e numa conversa muito interessante com a responsável pela programação do espaço fiquei a par da dificuldade em colocar este projecto a funcionar numa cidade com poucos hábitos culturais e onde a fotografia ainda é vista como uma arte menor. Entretanto encontrei duas pessoas ligadas ao meio artístico, o artista Hugo Paquete e Pedro Pontes, responsável pela Galeria Alvarez Sala Um (na R. da Alegria) e que está em risco de fechar.
Infelizmente pude constatar nestas deambulações pelos espaços expositivos do Porto que a cultura nesta cidade está a atravessar um mau período; em Miguel Bombarda (que a Câmara Municipal queria transformar no Soho portuense) as galerias estão desertas, algumas já encerraram e outras com as portas fechadas onde só se entra tocando à campaínha. Conforme afirmei, a Galeria Alvarez Sala Um, a mais antiga galeria da cidade, corre o risco iminente de fechar porque lhe é impossível manter a aposta num conjunto de jovens artistas que depois não vendem, apesar da qualidade das propostas que têm sido apresentadas neste espaço. A aposta contínua em novos talentos não tem resultado visível quer em termos de visitas quer em termos de vendas, mas se por um lado é uma situação que me espanta porque penso que não é possível constituir uma verdadeira cultura nacional sem apostar em novos talentos, com novas ideias, por outro lado não me espanta assim tanto num país que vive das glórias passadas e que constantemente apoia artistas com carreira firmada e com rendimentos sólidos. A solução pode passar, como Hugo Paquete me expôs, pela criação de residências artisticas, onde os artistas podem viver sem as preocupações habituais de obter dormida e alimentação, o que contorna a minha principal objecção ao subsídio: o pagamento monetário aos artistas para que estes produzam. Esta situação cria dependências e contamina a relação subsidiador/artista duma maneira que, no extremo, pode condicionar a criação livre da obra, função máxima do artista. De salientar que estas residências já existem pela Europa fora e são um sucesso na Alemanha, na Dinamarca e em Itália a Benetton criou a Fabrica que funciona nesses moldes. A relação de proximidade com o público e artistas também é essencial, a criação de uma rede de espaços para exposições, espaços vocacionados para esses fins e não simples salas que por vezes cumprem essa função, a nível autárquico era a maneira de aproximar os residentes dos artistas e assim criar um hábito de consumir cultura e apoiar artistas locais. Ao mesmo tempo que criava essa relação estreita criava hábitos culturais tão essenciais ao desenvolvimento salutar de uma população, com o consequente aumento da sua cultura geral.
Sem uma base cultural sólida é impossível construir uma sociedade responsável, geradora de grandes ideias, unida e com o objectivo de melhorar este país. A falta de cultura é um mal deste país que importa combater, sob pena de não conseguirmos vencer os desafios que se nos colocam e atingir melhores níveis de educação e civícos.
Em relação à recente polémica em volta da privatização da gestão do Rivoli o consenso parece ser dominante: poucos se opõem à privatização mas à maneira como a mesma foi conduzida; aliás é opinião de alguns artistas de que a manifestação de uma companhia de teatro, que se encerrou no teatro com meia dúzia de espectadores apenas veio fornecer a Rui Rio a última arma necessária para avançar com a privatização: a demonstração da falta de público e consequente prejuízo financeiro para a cidade. Para mim chocou-me muito mais ver a falta de união entre as companhias de teatro da cidade, grande parte assistiu ao facto sem intervir e pior sem comparecer no local, apenas se limitando a expressar pontos de vista em alguns programas de informação televisiva. A ideia atrás mencionada de criar espaços próprios para a apresentação de propostas culturais iria proporcionar a estas pequenas companhias locais para apresentação das suas peças sem a exigência de um local com as caracteristícas do Rivoli, mais apropriado a grandes produções e com uma exigência orçamental muito mais elevada. Com a criação da SRU e reabilitação de quarteirões inteiros na Baixa, a cidade tem nas mão a oportunidade de criar, de raíz, estruturas capazes de albergar espaços culturais multi-facetados e atraentes, para assim chamar novos públicos e turistas ao Porto, devolvendo um protagonismo cultural à cidade que esta, infelizmente, tem vindo a perder neste últimos anos.

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