06
Jan
07

Cinco perguntas a bricolage.108.

Depois da entrevista com Mauricio Matos, regresso às entrevistas com uma troca de opiniões com um dos utilizadores do Flickr que mais me chamou a atenção nos últimos tempos, bricolage.108. O seu trabalho contemporâneo e urbano, retrata sobretudo o abandono e a decadência na zona do Porto. Dotada de uma visão muito particular sobre o caos urbano, a sua fotografia oscila entre os espaços urbanos exteriores e interiores, muito ao estilo de Candida Höfer, vazios de pessoas, degradados e muitas vezes, abandonados; frequentemente os edíficios aparecem descontextualizados dos seus espaços envolventes o que torna difícil o seu imediato reconhecimento. Distingue-se também pela técnica muito particular de utilizar câmaras fotográficas antigas ou de brincar, carregadas com rolos já expirados. O resultado final é, no mínimo, original e remete-nos para os trabalhos pioneiros de Niepce, para um ambiente de sonho e abstração, transmite-nos uma sensação de solidão e caos.
bricolage.108 nas palavras do próprio: tenho 33 anos, vivo no Porto e frequentei os cursos de electrónica industrial e de informática no ISEP . Há muito que me dedico ao design de interfaces web e programação (scripting languages), sou ex-empresário do periodo .com. Ocasionalmente trabalho como DJ em pequenos bares.
Desde adolescente que estive rodeado de amigos próximos que se dedicavam à fotografia, pelo que sempre foi uma linguagem muito familiar. Durante o meu serviço militar obrigatório, tive formação na especialidade de TV & Vídeo, onde tive acesso a alguns conhecimentos teóricos e experiência prática.
Contudo, só entendi realmente o encanto de fotografar, depois de ter adquirido uma câmara digital e de me ter tornado utilizador do flickr. Este processo, curiosamente, levou-me de volta ao analógico, redescobri o filme, procurei no ebay e vasculhei os baús da família as máquinas antigas e de baixa qualidade que hoje utilizo.

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“How it’s done” © bricolage.108 (retirada do Flickr, com autorização do autor).

Como define a sua fotografia e como se define como fotógrafo?
Entendo as minhas fotografias como experiências. Possiveis conquistas sobre uma determinada técnica ou exploração de um determinado assunto. Como homem por trás da câmara considero-me um aprendiz, melhor ainda, um curioso.

É obvio o carácter experimental e conceptual da sua fotografia, embora na sua galeria existam alguns trabalhos de recorte mais “clássico”, porquê esta opção e é deliberada ou é fruto do acaso?
Gosto de imprimir ao meu trabalho um certo distanciamento do real, contornar a noção de que a fotografia serve para retratar uma realidade. Isto sem (pelo menos para já) deixar que a abstração seja dominante.
Como experimentador e tendo em conta o meu ainda curto percurso no campo, não posso deixar de tentar também o óbvio ou mesmo o clichê. De futuro, talvez opte apenas por uma abordagem, mais enquadrada na visão que tenho do belo e do mundo. Agora são ainda muitas as perspectivas que me interessam explorar.

O que pretende transmitir nas suas fotografias?
Não tenho uma resposta concreta para isso. Tenho algumas regras que sigo e sei que estas influenciam o resultado, não só estético como emocional.
Estes parametros, por exemplo na escolha dos assuntos, apesar de condicionadores, permitem (espero eu) atingir alguma harmonia no que faço. No momento interessa-me abordar a intemporalidade, desafiar as convenções do que é capturar o momento presente. Fascina-me o erro controlado, a vivência do espaço arquitectónico, a decadência.

A escolha do suporte em que se exprime influencia como se exprime?
Acredito que algumas ferramentas se adequam melhor a alguns trabalhos, e que ao escolher um suporte estamos à partida a condicionar o resultado, mesmo escolhendo ferramentas que deixam em aberto espaço para o acaso. A mim a técnica interessa-me e faz parte de uma forma de ver o mundo em que a aprendizagem é em si só um fim.
É, no entanto, impossível negar a importância de algo mais fundamental e menos inteligível, que é o desejo de comunicar. O resultado é a meu ver tanto mais satisfatório quanto maior for a diferença entre o total e a soma destas partes.
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“Facing that void II” © bricolage.108 (retirada do Flickr, com autorização do autor).

Por fim, como vê o estado da fotografia actualmente, com o nascimento de novas tecnologias e a democratização que o digital trouxe, será a morte da fotografia como arte?
Não me parece que o aparecimento de uma nova tecnologia seja razão para o desaparecimento de uma arte. Os leitores de mp3 não mataram a música, o video não matou o cinema, a fotografia não matou a pintura. Acredito sim, que o que acontece quando se dão estes desenvolvimentos, é a abertura de novos espaços para as técnicas ou formatos pré existentes.
Contudo impossivel negar o impacto que o digital tem na forma de fotografar. O encanto da imediatez, a possibilidade de sem custos acrescidos repetir um determinado estudo fotográfico, são sem dúvida atributos deslumbrantes mas que trazem consigo uma certa nostalgia dos tempos em que essas facilidades não existiam.
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“Optical phenomenon” © bricolage.108 (retirada do Flickr, com autorização do autor).


1 Response to “Cinco perguntas a bricolage.108.”



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