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Fev
07

Fotografia e arte contemporânea.

Sexta-feira, o programa Câmara clara discutiu a internacionalização da arte portuguesa. Para este debate contou com o pianista Artur Pizarro e a escritora Inês Pedrosa e a peça introdutória falou de cinema, música, literatura, teatro, pintura, instalação, vídeo, etc mas faltou a fotografia. Estranho a amnésia, sobretudo por parte de Inês Pedrosa (que muito prezo como escritora), que tem dois livros em colaboração com outros tantos fotógrafos: Jorge Colombo (que por coincidência reside em Nova Iorque) e Maria Irene Crespo. Durante todo o debate nem uma palavra para a fotografia, ignorando assim Eduardo Gageiro, Edgar Martins, Luis Quinta, Paulo Nozolino, João Nunes da Silva e tantos, tantos outros.
A clara sensação com que fico é que em Portugal o reconhecimento da fotografia como Arte ainda tarda, ao contrário do se passa noutros países. E talvez tarde pelo tipo de “lapso” acima descrito, talvez porque há falta de espaços a expor fotografia e porque para existir um público para a fotografia o mesmo deve ter acesso à maior variedade de artistas e tipos de fotografia. E talvez pelo facto de se ver em exposição quase exclusivamente a vanguarda mais arrojada, se esteja a fazer pouco para criar um público atento e conhecedor. Começo a notar algum anti-conformismo apenas para ser anti-conformista, na nova vaga de fotógrafos contemporâneos e ao nível do discurso estético começa-se a desgastar um pouco a novidade.

Com artistas novos a surgirem todos os dias, a sairem das escolas de arte, a sua capacidade de afirmação passa pela surpresa e novidade. Surgem novas abordagens à fotografia e com elas é natural que surjam resistências. Como em qualquer arte, torna-se necessário distinguir entre aquilo que é verdadeiramente arte e o que é apenas um aproveitamento sem consistência nem consequência. Num mercado em constante mutação e que cria modas a uma velocidade vertiginosa é necessário ter em atenção a máxima de um gestor de fundos de investimentos alemão: “às vezes torna-se difícil distinguir o génio que teve azar do idiota que teve sorte”. Muitas vezes aquilo que trespassa nas exposições é a falta de alma, de entrega (independentemente de gostarmos ou não do resultado) e, consequentemente, as fotografias parecem ser feitas todas pelo mesmo fotógrafo. A aposta em linguagens contemporâneas está a ser feita em detrimento de linguagens mais clássicas, sem equilíbrio nem escolha que não seja apenas a de mostrar aquilo que está em voga.
A alternativa pode muito bem ser a adopção de abordagens novas a linguagens clássicas. Um exemplo: Jonas Bendiksen. Com apenas 29 anos, Jonas Bendiksen é o mais jovem fotógrafo da agência Magnum Photos e tem livro editado pela Aperture. Ao ver o seu livro é impossível deixar de reparar que a sua abordagem à foto-reportagem é tudo menos tradicional, é inovadora e que existe ali um “olhar” e empenhamento que transcende o habitual. O que ali está estampado é o resultado de cinco anos de viagens pelas franjas mais esquecidas do antigo império soviético, em condições precárias e sem concessões nem facilitismos. Isto aos 20 anos de idade…

Como disse Charlotte Cotton, na introdução do seu livro “The photography as contemporary art” (Thames&Hudson, 2004): “Do uso conceptual de instantâneos banais e sem arte até às construções cuidadosas de Jeff Wall, este poderá ser o reflexo abrangente da maneira como os artistas actuais se ligam com a fotografia para fazer arte”. Ora esta afirmação levanta, no meu entender, duas questões: se será necessário ser fotógrafo para fazer fotografia e se o uso de fotografias banais por um artista as transforma em obras de arte.
Se entendermos como fotógrafo quem tira fotografias então temos que responder que sim, independentemente da finalidade com que o faz, por outro lado se entendermos que fotógrafo aquele que tira fotografias com a finalidade de se expressar através da fotografia, então isto exclui todos que usam a fotografia como suporte, seja para colar numa tela ou usar numa instalação, para ilustrar uma performance ou para colocar no álbum de familia.
O uso de fotografias banais, instantâneos sem técnica, pode transformar as mesmas em obras de arte mas certamente não como arte fotográfica, e esta técnica de descontextualização das peças usadas numa obra é utilizada por artistas como Damien Hirst que, por exemplo, utiliza os mais diversos materiais para fazer obras de arte. Recentemente a sua peça The Physical Impossibility Of Death In the Mind Of Someone Living (um tubarão dentro de um aquário cheio de um líquido de conservação) foi vendida por uns espantosos 8,3 milhões de dólares. Ainda ninguém disse que o tubarão era uma obra de arte per si

É o olhar do fotógrafo que transforma uma fotografia numa obra de arte e não a sua utilização; será talvez por isso que as fotografias de Ansel Adams, feitas à 50 anos, têm ainda hoje uma força incrível que lhes advém da entrega nelas colocada pelo seu autor. Ansel Adams foi sempre conhecido pelo seu virtuosismo técnico mas também pelo seu rigor e dedicação, para ele uma fotografia era algo único e que deveria retratar toda a alma de um local. Nunca poupou esforços para procurar o melhor ângulo e a melhor luz, e se por alguma razão ele sentia que não conseguiria fazer a fotografia que levava na ideia, voltava noutro dia. A mensagem que passa da “leitura” da sua obra é que não basta o talento, é preciso trabalhá-lo. E muito, completaria eu.

Quando nasceu a fotografia a pintura pode finalmente libertar-se dos contragimentos inerentes ao retrato fiel da realidade e pode avançar até à mais pura abstracção. Hoje convivem, nas galerias e nos museus, artistas clássicos e contemporâneos. Uns sem os outros são apenas artistas sem passado ou futuro, deslocados, sem contexto e sem referências.

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1 Response to “Fotografia e arte contemporânea.”


  1. 1 sem-se-ver
    Fevereiro 6, 2007 às 2:56 pm

    concordo em absoluto consigo.
    lamentável, estranho e injusto esquecimento.


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