23
Fev
07

Uma viagem de metro…

Travis Ruse vive em Brooklin. Todos os dias faz a viagem de metro de Brooklin até ao coração de Manhattan, cerca de 8 quilómetros em linha recta mas de metro são 45 minutos de viagem. Levantou a questão: o que fazer? Resposta: documentar a viagem.
Depois do 9/11 não é de ânimo fácil que alguém decide levar uma câmara para o metro de Nova Iorque e começar a fazer fotografias. Para contornar esta situação Travis Ruse pediu autorização às entidades competentes, que lhe emitiram uma licença para o efeito. E que tem usado quando é abordado pelos polícias à paisana que detectam ou recebem a denúncia de que anda alguém a fotografar onde tal não era suposto acontecer. Pelo mesmo facto, o fotógrafo decidiu abandonar a câmara compacta que utilizava e passou a utilizar meios mais capazes e que demonstrassem que estava ali para fotografar, abertamente e sem parecer que estava a “roubar” instantâneos.
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Travis Ruse passou a capturar pequenos momentos fugazes, expressões e a atmosfera tão peculiar dos metros em hora de ponta, tão longe do glamour da Big Apple mas tão próxima das pessoas que realmente fazem a cidade acontecer sem darmos conta de tal: a gente normal de todos os dias. Como eu. Como tantos outros. Ao fazê-lo, Travis Ruse glorifica e dignifica toda uma multidão anónima e sem rosto que dia após dia enfrenta uma rotina cinzenta, mas com a certeza que amanhã será um novo dia…igual ao de hoje. Mas há esperança e alegria, desconfiança, reconhecimento e redenção, nestes retratos de gente anónima. Travis Ruse nunca pergunta se pode fotografar, fotografa simplesmente. Os olhos de quem fotografa dizem-lhe se pode ou não fazê-lo, e Travis respeita esse olhar, essa recusa de sair do anonimato. Estas fotografias são a expressão do “working class hero” norte-americano, a classe trabalhadora que John Lennon glorificou mas também os sem-abrigo que dormem nas estações, sobretudo todos aqueles que penosamente se levantam todos os dias muito cedo para enfrentar o metro cheio e uma viagem interminável até ao destino, onde as aguarda um dia de trabalho e no final uma outra viagem de regresso. A todos eles Travis dá um rosto, um olhar e uma saída do anonimato, para além da multidão e a caminho, via web, de países tão distantes e lugares com os quais apenas sonham, durante as suas viagens de metro.
Ao chegar a casa Travis procura seleccionar, editar e publicar a foto do dia em 30 minutos. Tarefa hérculea mas conseguida plenamente conforme se pode apreciar no seu foto-blogue.

As soon as your born they make you feel small,
By giving you no time instead of it all,
Till the pain is so big you feel nothing at all,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
They hurt you at home and they hit you at school,
They hate you if you’re clever and they despise a fool,
Till you’re so fucking crazy you can’t follow their rules,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
When they’ve tortured and scared you for twenty odd years,
Then they expect you to pick a career,
When you can’t really function you’re so full of fear,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
Keep you doped with religion and sex and TV,
And you think you’re so clever and classless and free,
But you’re still fucking peasents as far as I can see,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
There’s room at the top they are telling you still,
But first you must learn how to smile as you kill,
If you want to be like the folks on the hill,
A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.
If you want to be a hero well just follow me,
If you want to be a hero well just follow me.

Working class hero – John Lennon


2 Responses to “Uma viagem de metro…”


  1. Fevereiro 23, 2007 às 10:09 pm

    Adorei a sucessão de imagens obtidas pelo Travis Ruse.
    Transmitem na perfeição o anonimato dos viajantes do metro, bem como a sua solidão.
    É curioso e de certa forma paradoxal a reunião desta solidão e deste anonimato com um registo fotográfico deste tipo, inevitavelmente intrusivo.

    Já guardei o link para o foto blog. Deve ser de facto interessante ver todos os dias uma foto destas. Obrigado.

  2. Fevereiro 24, 2007 às 10:25 am

    É admirável o trabalho deste fotógrafo. Todos os dias vou verificar a foto que lá está e todos os dias me surpreendo. Simples, eficaz e comunicativo são os adjectivos que encontro para este foto-blogue. Talvez sejam essas as qualidades que levaram o New York Times a entrevistar Travis Ruse…


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