13
Abr
07

Pearls before breakfast.

Since i read the article in the Washington Post, ‘Pearls before breakfast’, i can’t get it out of my head. I think that the conclusions that were withdraw from the ´test’ can be used in every kind of art, so read the article and watch the videos.

~pt~

Desde que li, no último domingo, o artigo do Washington Post, ‘Pearls before breakfast’, o mesmo não me tem saído da cabeça. O artigo em questão, uns dos mais interessantes ensaios que tenho lido nos últimos tempos, propõe-nos uma experiência inusitada: pegar num dos melhores violinistas da actualidade e colocá-lo a tocar numa estação de Metro, a tocar a troco de uns trocos. As conclusões a que chegaram foram surpreendentes…

Joshua Bell é um dos virtuosos do violino e aceitou entrar nesta experiência sobre a capacidade de uma multidão ser capaz de reconher o performer mas também a sua capacidade de tocar e de nos maravilhar com a sua interpretação. Bell só colocou uma condição: tocar com o seu violino, um Stradivarius de 1712, avaliado em 3,5 milhões de dólares.
Às 7:50 de segunda feira, 12 de Janeiro a experiência começou, tendo terminado ao fim de 43 minutos. Durante este período, Joshua só foi reconhecido por uma pessoa, mesmo no final do seu ‘teste’, que tinha assistido recentemente a um concerto seu. Dos cerca de 1.000 transeuntes que passaram pouco mais de 4 pararam para ouvir e grande parte dos que deixaram dinheiro nem abrandaram o passo. No final contou-se o dinheiro: $32,17(excluiram-se os $20 oferecidos da senhora que o reconheceu, por essa razão).

Mas há outro aspecto interessante no artigo: as novas tecnologias. Grande parte das pessoas nem sequer notaram que naquele dia havia alguém a tocar na estação. Porquê? Porque algumas iam a usar o telemóvel e outras porque simplesmente levavam um leitor de MP3. Deixamos de contactar o mundo que nos rodeia, fechados num mundo só nosso que está dentro de um telemóvel, ou de receber estímulos da música que nos chega porque agora podemos construir a nossa própria tabela de êxitos, sem ser surpreendidos por algo novo ou diferente do habitual. As pessoas ignoraram Joshua Bell porque simplesmente não quiseram sair desse seu mundo, perderam a curiosidade que lhes permite investigar, averiguar e construir uma opinião sobre o que se passa à sua volta. Não é por isso surpreendente que as crianças tenham sido aquelas que demonstraram mais curiosidade em relação ao músico, logo rapidamente arrastadas pelos país para mais uma interminável viagem de metro a caminho da escola ou infantário.

Mas o que isto tem a ver com fotografia? Se ler com atenção este artigo verfica-se que esta experiência estende-se mais além da música e é transversal a toda a arte. No artigo um curador de um museu de Washington afirma que se tirar a moldura a um quadro de um pintor famoso e o colocar no restaurante em frente, que apoia jovens pintores permitindo-lhes expor as suas obras, ninguém irá reconhecer a obra-prima no meio das outras obras.
Num mundo inundado de imagens, não estaremos a ficar cada vez menos sensíveis ao que é bom, nivelando toda a fotografia no mesmo patamar? Quem são os 7 milhões de utilizadores do Flickr, os milhares do Zoomar, do novo Eyeka, do Vazaar, da JPG, do 1000 imagens e do Olhares? Somos todos nós…e seremos todos nós fotógrafos, como propõe o Museu de L’Elyseé? Sem contexto, sem critica séria e reflectida, como conseguimos progredir? Como vamos contornar a questão cada vez mais premente de a net se estar a transformar num espaço sociável e socializante, em que os comentários são cada vez mais breves e mais uniformizados? Como construir uma identidade fotográfica no Flickr, ou noutro espaço idêntico, se os comentários que eu escrevo ou que me são dirigidos são cada vez uniformes, sem crítica construtiva e conhecedora?

Outra maneira de encarar o lado fotográfico do artigo é verificar como todos nós, os que tentamos ser fotógrafos, deixamos escapar todos os dias dezenas de oportunidades para fazer fotografia. Quantos é que pararam hoje a caminho do emprego para captar ‘aquela’ fotografia? Quantos aproveitam a pausa para o almoço para fotografar? Quantas vezes passamos por excelentes fotografias sem dar por isso, porque não temos tempo, porque vamos a pensar, porque estamos distraídos ou porque nos limitamos a olhar sem ver? Num mundo cada vez mais rápido, temos cada vez menos tempo para apreciar o que nos rodeia e assim deixamos escapar todos os dias, dezenas de fotografias; o trágico é que cada vez temos menos tempo e mais informação visual disponível.

É um debate interessante, de facto. A tecnologia permite-nos criar cada vez mais imagens, a um custo reduzido, o que aumenta cada vez mais o número de imagens a circular. Mas haverá melhores imagens ou apenas acesso a mais imagens? Com este ruído todo, com o aumento crescente de blogues, onde cada um constroi o seu ‘mundo’ virtual, com a barra de links a apontar para a sua playlist constituída por blogues, sites e afins, como vamos ter tempo para parar e ver os nossos fotógrafos virtuosos? Sobretudo interessa saber se temos capacidades para os reconhecer ou vontade de os conhecer, porque são esses os desafios que temos todos, os ligados à fotografia de uma maneira ou de outra, de enfrentar.

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2 Responses to “Pearls before breakfast.”


  1. Abril 13, 2007 às 8:27 am

    É interessante pensar na questão da contextualização versus descontextualização para que a experiência do Washington Post e o texto do Mário nos remetem.
    A interacção social é poderosamente influenciada pelo contexto.
    Retirada a mensagem do seu contexto reconhecido e reconhecível, a informação perde-se.
    Porque mesmo descontando o crescente e efectivo isolamento de cada um dos nós, potenciado em parte pelas novas tecnologias, certo é, por outro lado, não nos é humamente possível estarmos atentos a tudo o que nos rodeia e principalmente apreender-lhe a essência.

    De qualquer forma, o alheamento geral ao violinista não deixa de surpreender …

  2. Abril 16, 2007 às 1:17 pm

    De facto a questão da descontextualização na percepção da obra de arte é importante. Mas não podemos descurar o fenómeno “cauda longa” que a internet está a gerar, para cada blogue/fotografia/texto/obra de arte por muito obscuro que seja o seu tema e/ou propósito haverá sempre um leitor/espectador. Isto é sem dúvida consequência de um melhor acesso a essa informação mas também de um aumento exponencial da informação a circular. Mas com esta inundação não estaremos a relaxar os nossos critérios de qualidade? Penso que seja esta a questão crucial por trás desta experiência.


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