29
Ago
07

Fotografia – uma opinião sobre a partilha online.

Stephen Shore é um consagrado fotógrafo, autor e ensaísta; não admira portanto que a suas opiniões sejam respeitadas, sobretudo pela sua carreira como fotógrafo, tendo sido o responsável pela introdução da cor na fotografia artística e sobretudo por ser considerado o pai da fotografia contemporânea.

No decorrer de uma entrevista com Elisabeth Brown, em Dezembro do ano passado (que pode ser decarregada no iTunes, procurem por “HenryArts Gallery”), Stephen Shore fez a seguinte afirmação:

“I went on to Flickr and it was just thousands of pieces of shit, and I just couldn’t believe it. And it’s just all conventional, it’s all cliches, it’s just one visual convention after another.”

Foi esta afirmação, publicada no blogue do Alec Soth (reconhecido fotógrafo da Magnum) que despoletou uma onda de protestos e troca acesa de argumentos, pós e contra o Flickr. A discussão centrou-se quase inteiramente no ataque a Stephen Shore e na defesa do Flickr, depois os argumentos apresentados procuram defender o site como a melhor coisa que aconteceu à e na fotografia desde a invenção da máquina fotográfica.

Acredito que Stephen Shore não tenha despendido muito tempo no referido site e que portanto o que viu foi apenas um mero deslumbre do que realmente se passa lá, e que tenha generalizado a sua experiência e indeferido se tudo o que viu foi mau então tudo o que lá está é mau. Stephen Shore poderia ter procurado melhor, pelo menos como professor era o que deveria ter feito. Mas provalvemente chegaria à conclusão a que cheguei: que grande parte daquilo tem pouco a ver com fotografia, tem tudo a ver com a experiência de comunidade online, é um tipo de ‘Second Life’ mas à volta da imagem, onde interessa mais o sentimento de pertencer a uma comunidade (nem que seja virtual) do que a procura de mais e melhor conhecimento. Há lá bons fotógrafos mas a grande maioria são pessoas que apenas querem partilhar com a comunidade algumas imagens sem pretensão maior do que a de mostrar pequenas parcelas da sua vida. Mesmo com a ajuda da página “Explore”, que mais não é do que as 500 imagens mais populares do dia, é dificil encontrar boa fotografia porque mais uma vez o que conta é a quantidade (de visitas, de comentários e de grupos) e não a qualidade. Serão os comentários dos amigos e/ou contactos suficientes para um fotógrafo evoluir?

“Como é possível que um jovem fotógrafo progrida no seu labor sem uma crítica que o aconselhe, advirta ou reprove? Nada disto impede que exista um site de fotografia portuguesa na internet que, em Setembro de 2001, contava 2600 fotógrafos e mais de 40.000 imagens!” Gérard Castello-Lopes (fotógrafo português).

“It’s a shame to see Shore flailing on the upper end of the “art vs. the masses” see-saw, but so be it, there’s a lot of digital fear from the old guard, even from those who use Macs.” Michael David Murphy (autor do blogue 2point8).

“However, the unabashed shaming of sites like istockphoto.com and flickr.com in the name of the cheapening of photography is a defensive reaction of those photographic elite who feel the market slipping away beneath them. The market has changed. The masses create the images we see now. Grasping onto a time gone by will not bring it back.” Laurie McGinley (autora do blogue web two point oh!).

E que tal um exemplo concreto para vermos por onde caminhamos? André Rabelo é um fotógrafo brasileiro que teve uma ideia genial: pegou numa fotografia de Henri Cartier-Bresson e colocou-a no grupo flickr Deleteme. As regras do grupo são simples, coloca-se lá uma fotografia e espera-se pelos comentários críticos, ao décimo comentário ‘delete’ a fotografia tem que ser automaticamente apagada do grupo. É absolutamente hilariante ler os comentários antes da fotografia ser apagada e o esquema revelado: “a foto está desfocada”, “o contraste deve ser ajustado”, “péssima fotografia, tudo está tremido e se tudo está tremido não é possível mostrar o movimento”, e podia continuar a citar mas acho que já consegui transmitir a ideia.
O problema não está na questão das massas estarem a produzir as imagens que agora vemos mas a impor as imagens que vemos, cuja selecção é efectuada num ambiente de ‘massaja-o-meu-ego-que-eu-massajo-o-teu’. Se para Laurie McGinley isto é bom, para mim isto apenas afunila a fotografia limitando a criatividade e a possibilidade de fazer fotografia diferente da que é ali considerada ‘boa fotografia’. E a triagem do que é publicado em determinados sítios web, baseando-se num conceito de qualidade levanta um sem número de questões sobre o que é a qualidade e como escolhê-la. Isto se conseguirmos perceber quais são os critérios de selecção, claro. Mas talvez a maior ‘armadilha’ que se coloca a quem usa este tipo de ferramentas é a percepção de como o jogo funciona e passar a jogar segundo as regras deste. O resultado, mais uma vez, só pode ser uma uniformização que em nada favorece a fotografia.

A crítica é uma poderosa ferramenta de aprendizagem e não deve ser evitada se queremos evoluir e avançar criativamente. Mas também é necessário ter algum tipo de conhecimento sobre a história do meio em que nos expressamos, sobre os aspectos técnicos e uma aposta naquilo que fazemos, porque e como o fazemos. A qualidade sendo um conceito subjectivo que depende sempre dos olhos de que vê e não pode ser só avaliada pela componente técnica mas por um conjunto de elementos que estão subjacentes à nossa percepção da imagem. Prazer, memória, beleza, tranquilidade, angústia, medo, conforto, são algumas das emoções que uma fotografia nos pode fazer sentir e transmitir. A crítica para funcionar tem que ser coerente, incisiva e verdadeira. Nem poderia ser de outra maneira. Nem poderá funcionar como um fim mas como um meio para melhorar, para evoluir. Comentários como “boa foto”, “excelentes cores” “uau!” não são obviamente crítica mas são os mais utilizados nestes sites e que passam por critica a sério. E claro, quantos mais melhores. E já agora se uma fotografia recebe duzentos comentários perfeitamente inócuos é melhor do que uma foto que não tem nenhum só pela única razão de ter mais comentários?

Nada disto interessa se a única utilização que fazemos deste tipo de sítios web é para publicar a meia dúzia de fotografias das férias ou dos animais de estimação. Interessa se analisarmos a sua utilização para construir uma carreira como fotógrafo, profissional ou não.
A chegada destas ferramentas veio trazer uma divulgação da fotografia que não existia antes, permitindo publicar trabalhos que de outra forma teriam uma divulgação menor, com menos esforço e resultados mais imediatos. Mas isto não pode justificar a sua defesa cega, sem critérios. E a utilização que é dada a este tipo de ferramentas, levam-me a questionar a sua validade como propostas válidas de publicar com algum cuidado um determinado trabalho ou para construir um percurso. Recentemente numa troca acesa de argumentos a propósito deste tema em que eu esgrimia o argumento de que as fotografias iniciais do Jim Brandenburg estavam muito aquém das actuais e que portanto todos nós temos que começar por algum lado, foi confrontado com uma resposta que eu acho fenomenal: “pois mas o Jim Brandenburg fez o percurso no National Geographic, não no flickr”. Fiquei sem argumentos, sobretudo se imaginarmos que num universo de milhões de utilizadores, os que realmente deram o salto para o reconhecimento externo ao site são muito poucos. E esses poucos são os que mostraram trabalho, que se aplicaram, que foram além do habitual ‘tenho-uma-conta-no-flickr-sou-fotógrafo’, que se esforçaram por fazer cada vez melhores fotografias, que souberam escolher as suas melhores fotografias. Mostraram empenho. E acabam, quase sempre, por apostar depois em sítios web pessoais, onde publicam os seus melhores trabalhos.
Talvez o problema dos ‘velhos’ fotógrafos seja o ruído gerado pelas ‘massas’ que numa procura desenfreada pela popularidade se esquecem do mais importante: a fotografia. E esquecem-se de quem a melhor faz: os fotógrafos. Mas esses, habitualmente, não participam em concursos de popularidade, apenas fazem o seu trabalho, publicam livros, expõem nas melhores galerias. Não estranho por isso a maneira como olham para estas ferramentas.

Alguns links úteis:
A deleted Cartier-Bresson picture. Could anyone believe that?
blogue web two point oh!
blogue 2point8
OnExposure
Flickr
Vazaar
Zoomr
Jim Brandenburg


4 Responses to “Fotografia – uma opinião sobre a partilha online.”


  1. Agosto 30, 2007 às 9:19 pm

    Muito interessante este teu post!
    Sobretudo a última questão da foto de Cartier Bresson “apagada” no Flickr.

    No entanto, penso que muito mais do que fazer parte de uma “comunidade online”, muitas das pessoas que por ali “passeiam” no Flickr, não sendo fotógrafos profissionais (nem sequer tendo pretensões a tal), apenas se limitam a ir “jogando” com as suas máquinas digitais, captando momentos diários das suas vidas para os quais antigamente nem sequer ligavam… e que agora, dadas todas as infindáveis possibilidades do “digital”, simplesmente, vêem de oura forma.

    Seria também interessante verificar que, para algumas pessoas que utilizam o Flickr, não se trata de serem “gabadas” ou “engraxadas” online pelas fotos que tiram… mas, simplesmente, terem um site online (com alguma qualidade) onde podem ir “armazenando” as suas fotos de uma forma sistemática e ordenada.

    Penso que seria mesmo muito interessante analisar também estas 2 vertentes que aqui deixei para o debate de ideias… apesar de ser uma das pessoas que utiliza o Flickr para colocar as fotos dos seus animais de estimação ;))

    Um abraço

  2. Agosto 30, 2007 às 9:39 pm

    Nada disto interessa se a única utilização que fazemos deste tipo de sítios web é para publicar a meia dúzia de fotografias das férias ou dos animais de estimação. Interessa se analisarmos a sua utilização para construir uma carreira como fotógrafo, profissional ou não.

    Alexa, gostei do seu comentário. Nada tenho contra a utilização do flickr (ou outro site do género) por pessoas que apenas querem partilhar as suas experiências de férias e/ou fotos dos seus animais de estimação. Não tenho nada contra quem tem outras pretensões e utiliza estas ferramentas. É necessário colocar as coisas em perspectiva e assumir que grande parte das pessoas que pretende utilizar o flickr como base da sua carreia/percurso, faz um uso extensivo da graxa, como lhe chama (apesar de não concordar com a palavra). É a esses que eu pretendo chegar, se calhar os que têm mais ilusões e acham que é ali que vão ascender ao estrelato. E para isso utilizam estratégias que em nada têm a ver com a fotografia, seja através da referida massagem do ego uns dos outros, através de comentários inócuos. Eu recebo desses comentários e gosto de os receber mas reconheço que pouco ou nada adiantam ao meu trabalho, aliás aquilo que realmente gostaria de receber era uma crítica inteligente e motivadora mas ao mesmo tempo que fosse capaz de me fazer pensar e reconhecer os meus erros. Infelizmente esta crítica não existe no flickr e para ser sincero acho que não existe nestas ferramentas. Quem quer boa critica vai ao Radiant Vista, por exemplo, e qualquer um pode submeter as suas fotos e esperar pela crítica, que em alguns casos pode demorar meses. Mas depois são seis ou sete minutos de explicações que nos enchem de vontade de fazer mais e melhor. Recomendo-lhe uma visita.

    Reconheço, por exemplo, que visito o seu photostream no flickr frequentemente (apesar de não comentar) e acho a sua abordagem sincera, ou seja não tenta ser pretensiosa. Continue. Num futuro artigo (já em preparação) vai descobrir que poderá existir uma boa razão para a existência destes sítios web e que acho que lhe vai interessar.

    Um abraço.

  3. Agosto 31, 2007 às 2:13 pm

    Mário, muito obrigada pela clarificação quanto a este assunto.
    Possivelmente, tal como o Prof. Shore, também, eu generalizei um pouco e pensei que se referia a todos os utilizadores do Flickr.
    Agora compreendi melhor o alcance do que quis dizer com este seu post. E sim, penso que tem toda a razão, seja na fotografia ou em qualquer outra área das nossas vidas, quando as coisas são feitas com pretensiosismos, normalmente, nunca soam a verdadeiras e pecam muito!

    Muito obrigada pelo link… já me “perdi” bastante no Radiant Vista, que achei bem interessante! :)

    Fico a aguardar esse futuro artigo onde falará da razão para a existência destes sítios web… pois penso que existem ainda outras vertentes mais interessantes de analisar do que apenas o pretensiosismo de alguns.

    Um abraço e bom fds

  4. Agosto 31, 2007 às 9:28 pm

    Alexa, ainda bem que gostou do Radiant Vista. Como se apercebeu ali há crítica e bem feita, sem faz-de-conta. Quanto ao resto, está tudo explicado.

    Penso que o post lhe vai agradar porque tem um pouquinho a ver com a sua área…

    Um grande abraço e bom fim-de-semana!


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