11
Out
07

A picture of the past.

oeds9© Mel Melcon – LA Times.

Recentemente, o LA Times publicou um artigo em que relata como arqueólogos e historiadores estão a usar fotografias antigas da cidade, tiradas por um pioneiro da fotografia, para fazer escavações e estudar a tipologia da cidade. É um uso interessante de fotografias antigas, embora não seja único, e demonstra bem o poder da fotografia no estudo da história, arquitectura e sociologia. Este artigo demonstra também o poder da fotografia como documento em oposição à fotografia como arte, e aproveito para fazer a ligação deste artigo com uma entrada que Gordon Lewis escreveu no blogue ‘The online photographer’, onde mostra alguma preocupação com o destino das suas fotografias depois da sua morte e questiona a razão pela qual continua a fazer fotografia.

É um facto que alguns de nós iremos conseguir fazer algumas dezenas de boas imagens, e os mais criativos conseguirão fazer algumas imagens absolutamente inesquecíveis, mas qual será a sua utilidade para as gerações futuras? E o que vai acontecer às milhares de imagens espalhadas em sítios web, blogues e afins? Estas são de facto questões pertinentes, sobretudo no momento actual em que se vive inundado por imagens, se vive da imagem e para a imagem, que não têm resposta fácil nem directa; se reflectirmos sobre o facto de que grande parte do espólio fotográfico produzido pela grande maioria de nós irá acabar no esquecimento, numa qualquer unidade de disco rígido, ou então num servidor e simplesmente apagadas por falta de pagamento do domínio ou do alojamento digital. Então para que poderão servir às gerações futuras, os milhares de fotografias que se produzem nos dias de hoje? Partindo do principio de as gerações futuras terão acesso às referidas imagens, o seu valor como documentos será incalculável. As gerações que nos sucederem vão poder descobrir como são as nossas vidas na actualidade, saber os nossos hábitos de leitura, conhecer as nossas preferências sexuais, etc., de uma maneira que não era possível há décadas atrás. Imaginem o impacto que esta revolução digital irá ter no estudo da antropologia, sociologia, filosofia e história.

Todos os serviços de partilha online de fotografia poderão ter no futuro a mesma utilidade dos baús dos nossos avós e pais: para guardar as nossa memórias. Claro que não pretendo generalizar o uso destes seviços apenas a esta função mas pensem na utilidade de sítios como o Flickr ou o Zooomr para antopólogos, sociólogos e outras disciplinas que estudam o comportamento humano. Levanta-se a questão de quantos destes serviços irão sobreviver no futuro ou de como poderemos aceder dentro de alguns anos às fotografias dentro dos sítios ainda em actividade mas de utilizadores que já tenham falecido, não é fácil de imaginar um meio simples de poder aceder a essas fotos. E depois de aceder a essas fotos o que fazer às que não estão licenciadas para uso, necessitando de autorização prévia dos autores das mesmas? Questões interessantes para o futuro mas e o presente?

A redução da fotografia a um meio documental não é necessariamente algo de terrível nem reduz o seu valor artístico, mas é necessário perceber que hoje se produz um infindável número de fotografias por dia, a um ritmo alucinante e isso tem um impacto profundo na maneira como encaramos a fotografia e o seu mérito artístico. A história da fotografia mostra-nos que alguns trabalhos que na altura da sua realização eram catalogados como documentos e reproduções do quotidiano foram, com o passar dos anos, classificadas como obras de arte. Por exemplo Dorothea Lange realizou a série pela qual ficou mundialmente famosa (e onde se inclui a sua ‘migrant mother’ de 1936) para satisfazer uma encomenda governamental da FSA e que se destinava a ser um documento de arquivo. Hoje produzem-se obras na fotografia que poderão vir a realizar o mesmo percurso, e o nome que me vem à memória é o do fotógrafo James Natchey.
Não nego que o meu interesse pela fotografia é mais do que a criação de documentos mas mais a recriação do mundo que me rodeia através do meu olhar. A maneira como vejo o mundo é, necessariamente, expressa de maneira diferente dependendo do meio utilizado: a pintura ou a fotografia. Procuro que cada um deles seja estanque em relação ao outro, não sofrendo interferências directas mas que sejam permeáveis ao mundo que me rodeia. A minha pintura é muito abstracta, faz uso de uma violência psicológica muito forte enquanto a minha fotografia expressa o meu gosto pela natureza e pela vida selvagem. Através da fotografia sou capaz de me libertar da violência diária, do stress acumulado e estar em contacto com a natureza, algo a que me habituei desde muito cedo. Posso documentar viagens e locais e permite-me expressar a visão que mantenho dos lugares que visito, muitas vezes de propósito para os fotografar. Procuro desenvolver um olhar próprio onde arte e documento se encontrem e que seja minimamente original, tarefa nada fácil. Mas a possibilidade de num futuro distante alguém poder usar as minhas fotografias como um documento para saber como era a flora portuguesa na zona do Gerês, por exemplo, nos dias de hoje, agrada-me profundamente. É um uso diferente do que lhe quero dar mas se esse for o seu destino, que assim seja. E um dia talvez, alguém possa saber quem foi o Mário Venda Nova porque teve a possibildade de descobrir como era a natureza em Portugal no início do século XXI. Para mim é razão suficiente para continuar, e para vós caros leitores? Quais são as motivações que vos levam a continuar a fotografar?

oeds1

Links: A picture of the past (página de arquivo paga).
What’s your photographic legacy? (I).
What’s your photographic legacy? (II).

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