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Nov
07

Qual o limite para a edição de fotos?

Hoje a tecnologia digital coloca à disposição dos fotógrafos ferramentas que nos permitem um controlo criativo sem precedentes, no entanto estas mesmas ferramentas permitem também a alteração significativa dos elementos que compõem uma imagem, de tal forma que a imagem final está muitas vezes longe da imagem que foi captada. O limite para estas alterações é a capacidade individual para lidar com a tecnologia e os limites éticos de cada um, porém onde está a fronteira entre o que é aceitável e o que é reprovável?

O limite tem que ser forçosamente traçado por cada um porque depois da imagem alterada é difícil percebê-lo imediatamente sem confrontar a imagem inicial e a final. Mas a alteração, ou não, de uma imagem pode levantar questões mais controversas no campo ético do que à primeira vista pode parecer, isto conforme o tema da imagem e o seu destino. Não é a mesma coisa, alterar uma paisagem ou alterar um retrato; em ambos os casos o fim é atingir uma imagem sem falhas nem imperfeições estéticas, mas se a natureza não foi capaz de produzir a perfeição porque é que uma imagem tem que ser perfeita? Os nossos padrões estéticos mudaram nas últimas décadas, é um facto, mas hoje a pressão para a perfeição é enorme e que nos leva a perseguir algo que na realidade não é atingível.
Nada no mundo natural é perfeito, a natureza não é perfeita e o corpo humano é cheio de imperfeições e assimetrias, portanto a procura incessante pela perfeição arrisca-se a ser um empreendimento sem fim.

A nossa sociedade pauta-se pela procura desesperada da beleza perfeita, do peso ideal e da juventude eterna e a indústria da moda tem procurado impor padrões de beleza através da divulgação de imagens de modelos com corpos ideiais e imaculados. Mas uma coisa são as imagens, outra são os corpos que servem de modelo nessas imagens. E estes corpos estão longe de serem perfeitos, mas têm que o parecer e aqui começam os problemas éticos: ou os corpos são alterados pela medicina ou são manipulados digitalmente. A primeira precisa da aceitação e conhecimento dos modelos, a segunda nem por isso. E é precisamente neste ponto que a coisa começa a ficar feia e a assumir contornos de ficção: modelos a descobrir que as suas proporções foram alteradas, entrevistadas que ficam a saber pelas fotos de capa que afinal usam o tamanho acima de lingerie, modelos que de repente emagrecem uns quilos, isto tudo depois das reportagens serem publicadas. Casos como estes têm acontecido frequentemente nos últimos meses, alguns exemplos: Shania Twain foi magistralmente retocada numa reportagem para uma grande publicação norte-americana, Keira Knightly recebeu um lifting ‘digital’ aos seios no seu anúncio para a Channel e o iWANEX Studio especializou-se no retoque de imagens de celebridades (veja através do link o seu porfolio de antes/depois).

Tudo isto tem um lado perverso e trágico, como bem mostrou Lauren Greenfield no seu documentário ‘Thin’, porque quem recepciona as imagens tem um total desconhecimento de como aqueles corpos ‘perfeitos’ são alcançados, dando lugar a uma procura do corpo perfeito, à custa de dietas, exercício físico e medicação, muitas vezes sem controlo médico e tornando a vida de centenas de jovens num tormento sem fim e muitas vezes criando distúrbios emocionais difíceis de reparar.

Para demonstrar até que ponto a beleza é algo tão subjectivo e tão dependente de conceitos tão diferentes como tamanho, forma, proporção, Monique Bergen Henegouwen criou o blogue ‘Prototypicality’ à volta de uma proposta que tem tanto de imaginativo como de controverso: a autora disponibilizou duas imagens suas, uma da face e a outra do corpo inteiro. A proposta é cada um dos visitantes propor uma alteração de maneira a que o corpo e/ou face da autora se aproxime dos seus ideiais de beleza.

I’m looking for a democratic perfect image of myself. So it is up to you to give me directions how I should change my face and body.
Please always react on the last retouched image in the blog and chose between me-face or me-total.
What do you like to have changed in order to see your beauty in me.
big eyes/small eyes/cheek bones/large mouth/thinner/taller/skin tone/,…..what is your idea off beauty in me?

A fotografia nunca foi real, no sentido de que a realidade mostrada numa fotografia nunca é igual à realidade que retrata; o mundo não é a preto e branco e as perspectivas obtidas por algumas objectivas diferem da obtida através da visão, alterando-a. Assim a nossa percepção da realidade através da observação de uma fotografia é sempre o reflexo dessa realidade, mas tal não significa que o que vemos não seja real mas apenas um reflexo do real. A alteração radical das imagens não recria um reflexo de uma realidade, antes pretende criar nova realidade, um acto divino pelo qual, através de um teclado, podemos criar um corpo novo à imagem dos padrões actuais. O problema coloca-se quando a nossa recriação choca frontalmente com a realidade, quando o modelo da nossa imagem não concorda com a nossa visão do seu corpo ou quando algumas pessoas procuram obter aquele corpo à custa da própria vida, se tal for necessário.

Na fotografia procura-se impacto emocional mas por vezes este é confundido com impacto visual e são efeitos muito distantes: um centra-se no conteúdo e o outro na forma. Uma boa imagem, de natureza, retrato ou de moda, é algo subtil que se entranha na nossa mente e que frequentemente recordamos porque tem essa capacidade de ficar retida na nossa memória. As grandes fotografias são uma homenagem ao tema retratado, com todas as suas subtilezas e defeitos, através do olhar do fotógrafo. Uma boa fotografia não tem que ser impossivelmente perfeita nem retratar um tema utópicamente perfeito, uma boa fotografia agarra-se a nós porque consegue comunicar conosco de uma forma real, que nos toca de uma maneira especial. A natureza e os seres humanos são imperfeitos, é um defeito de concepção por certo, e muitas vezes a sua beleza reside no interior e é isso que torna o exterior tão belo. Apesar de imperfeito. Aceitem-no assim.

Links úteis:
Annals of airbrushing: how much is too much (State of the art)?
Cover story, part III: Ugly Betty photoshopped (State of the art)?
Photographs not real (Christian Patterson)
My photo editing “Code of Ethics” (Scott Kelby)
Annals of advertising: Toscani’s controversial anorexia print campaign (State of the art)
Prototypicality.
Dove – campanha pela beleza ideal.
iWANEX Studios.
Lauren Greenfield.


4 Responses to “Qual o limite para a edição de fotos?”


  1. 1 Ana
    Novembro 25, 2007 às 3:10 am

    É verdade… Tantas vezes me deparo com galerias de fotografias que seriam bonitas se não fossem tão irreais…

    Hoje em dia, as fotografias mais apreciadas são de modelos cuja pele não tem poros, rugas, ou o que quer que seja que lhes confira um pouco de realidade… As paisagens são exageradamente trabalhadas a ponto de não se reconhecer um local pelo qual se passa todos os dias (já me aconteceu)…

    Não sou grande fotógrafa, não tenho muita experiência, mas o facto é que já vi um número considerável de fotos… E a maioria das actuais (a menos que se saiba exactamente onde procurar bons trabalhos) desiludem-me. Está cada vez mais a correr-se na direcção do irreal…

    Além disso, cria-se a ilusão de que todas as fotos deveriam ser assim… Que é feito do fotojornalismo que vive da fotografia tirada no segundo exacto? Da vontade de retratar o mundo como ele é, em vez de o querer fazer parecer-se com o nosso conceito distorcido de beleza? Distorcido, porque devia olhar-se para o mundo e achá-lo bonito por si, e não tentar melhorá-lo até à irrealidade…

    Eu gosto de rugas nas fotos, de sardas, das (im)perfeições características da humanidade; gosto de paisagens simples, sem céus cor de laranja, sem areias douradas, sem céus com a quantidade “x” de nuvens que lhe dão um “tom dramático”, sem a relva verdinha dos filmes e as casinhas com o topo de neve; gosto de fotografia conceptual inovadora e não do repisar do mesmo de sempre…

    Eu, como tentativa de aprender um pouco mais sobre fotografia, tenho o hábito de comprar “O Mundo da Fotografia Digital”… E é com demasiada frequência que encontro artigos sobre “como acrescentar um céu dramático às suas fotos”, ou “como alterar o fundo da sua fotografia”, ou ainda “como reconstituir pétalas das flores”… É a tendência, uma vez mais… Tendência essa que se devia tentar contrariar, na minha opinião…

    Enfim, acho que nunca tinha comentado, o Tiago já o fez algumas vezes… Ficou um comentário do tamanho de 4 ou 5 normais, peço desculpa.

    Tudo de bom*

  2. Novembro 25, 2007 às 6:57 pm

    Ana, primeiro obrigado pela sua visão pessoal sobre esta questão, segundo não peça desculpa depois desta intervenção espero pela próxima.
    Há uns anos atrás comprava uma revista portuguesa e que começou a incluir tutoriais de como ‘falsear’ fotos (desculpem mas não consigo dizê-lo de outra forma), logo a seguir um participante num concurso dessa revista ganhou com uma foto cujo céu tinha sido ‘adicionado’ à posteriori. Deixei de comprar, não é por aí que vou, lamento. A propagação desse estilo dramático que a Ana refere tem o efeito perverso de tomar o impacto visual pelo impacto emocional e isso não augura nada de bom. Pelo menos para mim…

    Um abraço para si.

  3. Novembro 30, 2007 às 4:05 pm

    Olá Mário.
    Tenho um conceito diferente da fotomanipulação, do teu e o da Ana. Eu também gosto das fotografias reais, das fotografias com imperfeições, com rugas, sardas, estrias… as coisas naturais numa pessoa. Não estou de acordo com as fotografias de manequins em determinadas revistas em que, com a ajuda do Photoshop, lhes são disfarçadas as imperfeições. Não correspondem à realidade e formam um padrão de beleza inatingível e que ilude as pessoas.
    No entanto existe uma outra fotomanipulação, como a tal da introdução de “céus dramáticos”, entre outros que considero plausíveis do ponto de vista estético. Uma coisa é a nossa opinião e o nosso gosto, mas não podemos cair no extremismo e rejeitar à partida a fotomanipulação ou condenar quem a usa. A fotomanipulação, que atingiu o seu culminar com o Photoshop é um tipo de arte, é um género de estética que não podemos rejeitar à partida.

    Por exemplo, David Field é um fotógrafo ou não? Para muitos não será, para outros sim. Para outros será uma outra espécie de artista.

    Mas entendo o vosso ponto de vista.

    Abraço Mário, espero que esteja tudo bem. Um dia destes fazemos-lhe uma visita no banco. ;)


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