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Dez
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A tecnologia não tem alma.

Ainda a propósito da minha recente entrada ‘Qual o limite para a edição de fotos‘ e após alguns comentários, a favor e contra a edição de imagens, o mais recente do Tiago, pego outra vez no assunto a propósito do II concurso de fotografia da Epson.

Luiz Carvalho, editor do jornal ‘Expresso’ e da revista ‘fotodigital’, detentor de uma longa carreira como fotógrafo em Portugal, a propósito do II concurso Epson, tece algumas considerações sobre os amadores e participação portuguesa no referido concurso, que convém analisar. A primeira queixa, no seu texto ‘Ser júri de um grande concurso fotográfico‘ tem tudo a ver com o meu: imagens demasiado rebuscadas, edição de imagem ‘over-the-top’ e demasiado Photoshop. Só houve um pequeno pormenor que lhe escapou, se as pessoas apresentam essas fotografias a concurso é porque acham que vão ter alguma hipótese de ganhar um prémio, porque sabem que é essa a corrente dominante na fotografia actual e porque viram nas edições anteriores desses concursos imagens vencedoras com essas características. Portanto as pessoas concorrer com algo que sabem que tem hipóteses de ganhar. A culpa não será tanto dos concorrentes mas também dos júris e dos editores das revistas que consistentemente escolhem e publicam esse tipo de imagens. Mas o que leva as pessoas a carregarem no Photoshop?

Acho que a primeira razão pela qual o fazem é porque veêm que os outros o fazem e se os outros o fazem é porque está correcto. Segundo porque cada vez mais se procura dramatismo nas imagens e isso sem uma imagem forte ou uma luz especial é difícil de conseguir, recorre-se assim aos efeitos para dar mais drama às fotografias, acrescentando-se céus ou nuvens. Na falta de bons pontos de referência ou da possibilidade de fazer viagens longas para sítios recônditos e de difícil acesso – que implicam muitas vezes caminhadas extenuantes com o equipamento às costas – o mais fácil é acrescentar algo à imagem para a melhorar do que voltar lá vezes sem conta até conseguir a imagem perfeita. Outra razão para esta onda de sobre-processamento das imagens tem a ver com a descoberta dos sliders no Photoshop/LightRoom/Aperture/similares, do contraste, da saturação e do sharpening. E isso foi apenas o início das festividades; depois de descobertos esses controles de imagem não é difícil de perceber que uma imagem passa facilmente de ‘normal’ a ‘pop’ se o contraste, a saturação e o sharpening forem aplicados liberalmente, sem procurar o que a imagem ‘pede’ mas sim para forçar um look demasiado carregado.

O que torna logo uma foto indesejada é o sentimento de já visto, mesmo que seja uma foto bonita e bem executada. A segunda rejeição vem, para mim, do trabalho carregado de photoshop, efeitos, ceús escuros, côres saturadas. Os fotógrafos carregam no photoshop como as pirosas no batôn, sendo que quando a boca é bem desenhada o rouge passe de pires a matador e tem desconto.
A terceira força de chumbo são os temas lamechas: crianças a sorrirem para o futuro, pobres a fazerem horas extraordinárias, mulheres despidas com rosto escondido, campos verdes com árvores sozinhas, cascatas de água, pôr do Sol com silhuetas, casas abandonadas, o catálogo de banalidades fotográficas não tem fim.

Luis Carvalho

Desculpe-me a curiosidade Luis mas quantas músicas de jazz existem hoje publicadas? Milhares, arriscaria eu mas ainda se continua a fazer bom jazz, não concorda? A sua visão é assustadoramente redutora, no sentido em que se analisarmos a fotografia por esse prisma então 90% dos fotógrafos actuais estão a mais. Já tudo foi fotografado, é certo, mas não deveria ser o olhar do fotógrafo que faz a diferença? Onde está a diferença entre uma fotografia da Mata de Albergaria da minha autoria e outra da autoria do Luis Quinta? No fotógrafo, claro. Quantas fotografias geniais já viu de Yellowstone após Ansel Adams? Quantas fotografias de pássaros já publicou a revista que edita? E quantos retratos?…

A conclusão que tiro deste concurso, e que confirma o meu pó pelos amadores habilidosos, é que não há muitos fotógrafos a terem uma motivação forte para fazerem fotografias. Poucas fotos mostram uma visão pessoal, um prazer em ver e dar a ver. Há uma fobia pelo efeito, pela técnica mal usada ( o uso dos filtros do photoshop é um desastre total) e muito pouca espontaneidade.
A ideia de que as boas fotos são as bonitas, coloridas, ou de preto e branco contrastado é uma falsidade.
A fotografia presta-se como poucas actividades ao mais puro cabotinismo. Só na política se encontram tantos, ou mais, cabotinos por pixel.

Luis Carvalho

Aqui estamos em terreno comum em algumas partes. A vantagem de ser amador nasce do facto de não ser necessária uma motivação mais forte do que o prazer que se retira da actividade, para fazer fotografia. Talvez o que o Luis pretendia dizer era que algumas destas pessoas fazem fotografia como poderiam fazer crochet, é-lhes indiferente; nem sequer têm uma ideia definida do que querem nem para onde vão. E sem um caminho definido, sem objectivos traçados andam à deriva à procura de um ‘boneco’ que fique bem no ecrã, nem que para isso seja preciso ‘mentir’.
E o papel das revistas especializadas no meio disto tudo? Não foi há muito tempo atrás que a sua revista trazia uma crítica ao ‘LightZone’ (excelente programa de edição de imagens), com exemplos esplicativos de como alterar as imagens com o programa. E depois queixa-se? Meu caro, encare o problema assim: as revistas ensinam estes truques, os leitores agradeçem e as empresas vendem software; o círculo fecha-se. E é tudo.
Quanto à motivação, deixe que cada um explique qual é a sua e depois faça os seus comentários. Abra um espaço de reflexão na revista que dirige sobre a fotografia, um espaço alargado, dê aos seus leitores razões para irem mais longe, para ultrapassarem os seus limites, publicando fotos de leitores que escapam a estes estériotipos. Publique um bom artigo, com bons livros, como os da RockyNook, com relatos autênticos de fotógrafos portugueses profissionais e amadores e depois analisem os resultados desse artigo. Dá trabalho mas é mais pedagógico do que apenas dizer mal.

No entanto existe uma outra fotomanipulação, como a tal da introdução de “céus dramáticos”, entre outros que considero plausíveis do ponto de vista estético. Uma coisa é a nossa opinião e o nosso gosto, mas não podemos cair no extremismo e rejeitar à partida a fotomanipulação ou condenar quem a usa. A fotomanipulação, que atingiu o seu culminar com o Photoshop é um tipo de arte, é um género de estética que não podemos rejeitar à partida.

Tiago

O Tiago coloca aqui muito tranquilamente o dedo na ferida: a fotomanipulação é um tipo de arte diferente da fotografia, não é fotografia. Não condeno quem o faz, apesar de eu não o fazer mas Tiago porque é que quem cola os céus nas suas fotografias não fica duas ou três horas há espera, ao frio e ao vento, pela altura certa para disparar o obturador? Porque dá trabalho e é incômodo? Se vamos por aí vamos mal, na minha opinião, a fotografia de natureza nunca foi uma disciplina fácil, aliás como qualquer outra actividade ao ar livre. Há o risco de nos perdermos, de sermos apanhados numa tempestade ou de nos atrasarmos e de ficar no meio de uma serra à noite. Imagina qual é a sensação de andar atrás de um elemento do seu grupo no meio dos montes, dentro de um jipe da Guarda Florestal e o condutor a acelerar estrada fora para encontrarmos a pessoa o mais rápido possível, especialmente antes dos lobos? Posso afirmar que foi uma experiência inesquecível pelas piores razões e ainda hoje a recordo com algum incômodo. Mas estou a divagar…

Tiago, nada tenho a opôr a esse tipo de manipulação, desde que o autor divulgue que o fez. Não preciso de mais explicações, não quero saber porquê nem como; se estiver na posse desta informação depois posso ver a obra e decidir por mim se gosto ou se o resultado me agrada. Gosto do trabalho do artista espanhol Joan fontcuberta que utilizou um programa de software militar para construir mapas cartográficos a partir de imagens bidimensionais para ‘fazer’ paisagens que na realidade não existem, a partir de digitalizações de pinturas famosas. Isto é arte digital, assume-se assim, divulga-se como tal e tem um mérito próprio; não procura ser catalogada como fotografia nem como pintura – é arte.

Se formos mais fundo, verificamos que com o filme já se faziam trabalhos complicados de produção de imagem, veja-se por exemplo o trabalho de Sebastião Salgado, quem já viu as suas imagens tal e qual como saem do negativo tem uma surpresa – é que grande parte do trabalho de Salgado está na revelação do Filme (Kodak Tri-X) e na impressão, onde cada detalhe é trabalhado ao pormenor. Quem viu o documentário ‘war photographer’ do James Nachtwey reparou na conversa deste fotógrafo com o seu impressor onde lhe pedia expressamente que desse mais enfâse ao céu, numa determinada fotografia. Quero com isto dizer que a manipulação não é de hoje, já existe desde que existe a fotografia mas hoje, mais do que nunca, a questão da veracidade do que vemos é crucial. Não foi por esta razão que vários fotógrafos foram despedidos ao longo deste ano, exactamente por alterarem fotografias de reportagem?

A tecnologia não tem alma mas quem está por trás tem e transmite-a no que faz e através do que faz. A capacidade de transmitir algo através de uma fotografia não é fácil nem acessível a todos mas não é impossível. No fim o que importa é ser verdadeiro. E ser honesto consigo próprio e com os outros, tudo o resto é mais céu menos céu, mais núvem menos núvem. Desde que se saiba…

Ah, e já agora aguardo com ansiedade o resultado do II concurso da Epson, vamos lá ver o trabalho de selecção do júri, tão elogiado pelo Luis Carvalho.


14 Responses to “A tecnologia não tem alma.”


  1. Dezembro 3, 2007 às 2:27 pm

    No meio disto tudo, que concordo na generalidade (o que mais me incomoda é a falta de critério na manipulação digital), gostava de salientar a falta de revistas de fotografia de qualidade portuguesas e a preço acessível.
    Gostava de ver ensaios fotográficos, artigos teóricos e práticos com conteúdo e bons portefólios, bem criticados, e não as receitas de manipulação digital usuais. O importante é mostrar as ferramentas e mostrar as suas potencialidades, deixando a sua utilização ao critério da intelectualidade e criatividade dos fotógrafos.

  2. Dezembro 3, 2007 às 7:44 pm

    Compreendo a sua posição, Mário. E aceito-a. Fotomanipulação é arte. Fotografia é arte. São ambas artes diferentes. Percebo-o, porque no deviantart, por exemplo, existem as categorias de fotografia e de fotomanipulação e muitas vezes pessoas incluem fotomanipulação na categoria de fotografia, o que induz ao erro muitas vezes…

    Abraço, Mário.

  3. Dezembro 3, 2007 às 10:54 pm

    Diogo, concordo plenamente contigo. Basta ver os exemplos que chegam do estrangeiro para perceber que estamos a léguas do que se faz para alá das nossas fronteiras. Eu sou assinante da Aperture, Photoicon, Chasseur d’images e Réponses Photo e da revista que menciono no artigo que é de todas a mais fraca. Reconheço que a comparação é injusta mas todas as revistas começam por algum lado e geralmente começam com bons conteúdos se querem chegar a qualquer lado.

    Tiago, eu compreendo a tua posição também e sei que é tão válida como a minha. E o exemplo que focas já é prática corrente nalguns concursos de fotografia e em revistas; as pessoas assumem o que fazem, sem medo e sem necessidade de justificação. E assim ninguém é enganado nem induzido em erro. Eu publico junto das minhas fotos as alterações que introduzi no ficheiro inicial e faço alterações aos mesmos, que ninguém julgue que as fotos saem perfeitas à saída da camâra. Mas sou adepto do ‘quanto menos melhor’, gosto de fazer um ou outro crop – porque acho que é uma ferramenta extraodinária de composição – alguns ajustes de exposição e cor, niveis e sharpening. Quando a imagem ‘pede’ eu sou capaz de ir mexer violentamente nas cores mas são casos excepcionais e raros.

    Para os dois um abraço e Tiago, aguardo a vossa visita antes do Natal.

  4. Dezembro 11, 2007 às 12:05 am

    Caro Mário, como amador sem pretensões nem de equipamento, nem de resultados, tenho a mania de alguma “técnica” e do “suporte”. Se fosse papel para preto e branco, o melhor que encontrasse, sendo digital, o Raw — e fotografo tudo em Raw, das fotos dos filhos e das férias a flores.
    Mas o Raw, por definição é um formato “plano” que para retirar o máximo da imagem necessita ferramentas externas, digamos o Photoshop, por exemplo.

    a descoberta dos sliders no Photoshop/LightRoom/Aperture/similares, do contraste, da saturação e do sharpening. E isso foi apenas o início das festividades

    Mas ondes traças o limite? Esses sliders para mim são obrigatórios (e praticamente únicos, mas não vem ao caso). E só com esses, posso tornar uma fotografia irreal. Mas também o podia fazer no ampliador a preto e branco. O controle e o “olhar” como tu dizes era meu — tanto na máquina como a revelar. E tudo influenciava o resultado final.

    O que não entendo com esta conversa toda é onde está o limite. Só posso usar o contraste, mas 10 pontos a mais ou a menos, para não tornar a fotografia irreal, ou “manipulada”? O fotógrafo é manipulador no segundo que carrega no botão. Uns mais, outros menos. Mesmo famosas fotografias jornalísticas foram manipuladas, muitas mesmo encenadas. O famoso “instante decisivo”, para mim, é uma fraude. Com a preparação e encenação, tudo é instante decisivo. Mas a decisão é do fotógrafo.

    E os filtros “criativos” perfeitamente aceites — como polarizadores, graduados, coloridos…? Sobre-exposição, sub-exposição?

    Já pensei no assunto e não há limites. Só bom gosto, originalidade e técnica. Este assunto está muito longe de ser exclusivo da fotografia — o vídeo está igual ou pior (mas ninguém questiona a qualidade de um genérico Imaginary Forces — é o Saul Bass? Não, não é — é o Kyle Cooper); quando apareceram os programas para slideshows com 40 transições houve (e há) os que as utilizam todas e os que fizeram (e fazem) muito bom trabalho; na banda desenhada quando apareceu a cor digital foi o fim do Mundo, mas o Steve Oliff não só se destacou imediatamente, como mostrou o que podia ser feito, hoje 99% é cor digital; a balonagem era feita por calígrafos, hoje desenham-se as fontes no computador e legenda-se os livros com qualidade em 1/10 do tempo; a tipografia é uma arte e ainda hoje tem o seu valor, mas o offset facilmente a suplantou, assim como a impressão digital irá suplantar o offset.

    Enfim, a fotografia haveria de ser diferente? Não me parece. Quem acha que sim, tem boa solução — máquinas analógicas, rolos, químicos e restante panóplia. E deixem o digital para os outros. A fotografia “tradicional” como arte em extinção também tem e vai ter o seu valor. Nesse sentido é uma arte com futuro.

  5. Dezembro 11, 2007 às 10:35 pm

    Rui, parabéns pelo comentário.

    Hoje a tecnologia digital domina praticamente todas as artes, com mais ou menos força. Poucos escritores escrevem em papel ou numa máquina de escrever, o computador está omnipresente na literatura, no vídeo, na tv, nos jornais, por todo o lado. é um sinal dos tempos e querer voltar atrás não me parece ser o caminho a trilhar. Os exemplos que dás são todos de artes que têm uma representação do real muito manipulada, o vídeo é por definição uma arte com uma conceito de realidade muito diferente da fotografia, a menos que estejas a falar de documentários. O teu argumento, para mim, esbarra num pequeno pormenor: queres, para defender a tua tese, comparar maças com peras. Como queres comparar a BD com a fotografia? São artes distintas, com linguagens muito diferentes e com uma história com poucos pontos em comum.

    “Enfim, a fotografia haveria de ser diferente? Não me parece. Quem acha que sim, tem boa solução — máquinas analógicas, rolos, químicos e restante panóplia. E deixem o digital para os outros. A fotografia “tradicional” como arte em extinção também tem e vai ter o seu valor. Nesse sentido é uma arte com futuro.”

    E porque não haveria de ser diferente? Não deveria a fotografia ser um reflexo do real, ao contrário das disciplinas que falas que são uma construção do real? E quem falou aqui contra a tecnologia digital? Que me pareça, ninguém…Agora contra as manipulações, estou de facto contra. Faltou, concordo, quantificar quanto é que é demais, mas isso é na prática, impossível. Cada fotografia é uma fotografia e que pede um tratamento diferente de todas as outras. Também não consegui perceber nas tuas palavras se estás contra a ou a favor da manipulação das fotografias e manipulação – que eu não aceito – e ajuste – que eu aceito e que eu e tu fazemos – não são a mesma coisa. Aquilo que eu não gosto é a estética ‘flickr’ de fotos demasiado contrastadas, demasiado coloridas e com demasiado sharpening, não aceito que esse tipo de estética esteja a ser imposto como o paradigma da fotografia actual, digital ou não. Eu não quero voltar ao analógico, gosto das ferramentas que tenho ao dispor, apesar de ainda continuar a utilizar o filme e sim Rui até o Ansel Adams ajustava o contraste das suas fotografias. Mas o Adams foi mais longe no seu discurso e proclamou aos sete ventos a ‘straight photography’, uma fotografia feita de autenticidade e realismo.

    “Group f/64 limits its members and invitational names to those workers who are striving to define photography as an art form by simple and direct presentation through purely photographic methods. The Group will show no work at any time that does not conform to its standards of pure photography. Pure photography is defined as possessing no qualities of technique, composition or idea, derivative of any other art form. The production of the “Pictorialist,” on the other hand, indicates a devotion to principles of art which are directly related to painting and the graphic arts.”

    Manifesto do grupo f/64 onde pontuavam, entre outros, Ansel Adams e Edward Weston.

    E o Adams, sabe-se agora, ‘limpou’ de uma foto umas letras que estavam inscritas numa paisagem, vou cruxificá-lo por tal facto? Não. O Adams sabia muito bem o que fazia e era implacável com o seu trabalho, apesar de produzir muito aquilo que ele deixou publicado é relativamente pouco.

    “Mesmo famosas fotografias jornalísticas foram manipuladas, muitas mesmo encenadas. O famoso “instante decisivo”, para mim, é uma fraude. Com a preparação e encenação, tudo é instante decisivo. Mas a decisão é do fotógrafo.”

    Concordo e talvez seja por isso que a Reuters e o L.A. times despediram dois jornalistas por manipular fotografias, se calhar são menos permissivos do que tu…esqueceste as fotografias manipuladas pelo regime soviético onde membros do partido eram retirados ou acrescentados às fotografias conforme eram mortos/afastados ou chegavam aos lugares de topo. Chegamos à conclusão, portanto, que a manipulação não é facto novo na fotografia. O Bresson é um grande fotógrafo, e tenho dúvidas naquilo que dizes mas a famosa fotografia do beijo parisiense (desculpa-me o lapso mas falha-me o nome do fotógrafo) também já levantou dúvidas e há quem afirme que o casalinho está a encenar para a objectiva. Mas o casal estava lá, não foi acrescentado nem a fotografia é uma junção de duas ou três ou quatro fotos, cuidadosamente coladas umas às outras. E isso choca frontalmente com o meu conceito de fotografia, que é radicalmente diferente do teu, e é talvez por isso que a fotografia de moda nunca esteve nas minhas preferências.

    O que faz falta é bom gosto e bons temas, mais do que técnica, perdoo mais facilmente uma pequena falha técnica numa fotografia com ‘alma’ do que a falta dessa mesma alma numa fotografia tecnicamente perfeita. E se leres o meu primeiro artigo chegas ao cerne da questão que levanto: será que as novas técnicas não estarão a criar uma clivagem dentro do seio da fotografia de tal modo que poderá levar a uma cisão entre fotografia e imagem digital?

  6. Dezembro 12, 2007 às 12:56 am

    E porque não haveria de ser diferente?

    Estás a confundir o processo que atravessa com a arte — eu não me referia à arte, nem comparei artes. Como arte, não há igual, as “dores” que está a passar é que são as mesmas. E não está a ser, nem vai ser diferente. E no seu próprio crescimento, também fez vítimas — por exemplo a pintura e muita ilustração. Muita gente se converteu ou perdeu o emprego devido à fotografia.
    O que dizes do vídeo não é verdade. Tal como a fotografia, nasceu para representar o real e nada mais que o real. Só não se chamava vídeo na altura. Não é por acaso que as primeiras fotos ou imagens em movimento foram literalmente documentais — e nem podia ser de outra forma. Hoje o vídeo é o que é.

    Quanto a exemplos, nem preciso de sair desta página — Lavazza. Acho abominável, mas não digo que não seja fotografia. Mais manipulada seria difícil — e nem me refiro ao Photoshop. Aliás, há fotógrafos (não é vulgar) que têm um prazer quase perverso em demonstrar que as suas fotografias não passaram pelo Photoshop, quando o incauto observador pode jurar que sim (só me lembro dos Why Not Associates?, mas há mais).

    Não estou contra nem a favor da manipulação. Só estou a favor de um resultado final que dê satisfação a quem o realiza e posteriormente a quem o vai desfrutar. Nos concursos, a solução é criarem-se classes — agora também te digo se um “manipulador” é competente ao ponto de enganar os júris dos concursos, parabéns, merece os prémios (ou os júris são maus). O que não suporto é “manipuladores” incompetentes, que juram que não mudaram o céu, quando até um ceguinho vê isso.

    Eu gosto de fotografias obviamente manipuladas — por exemplo as da Miss Aniela de ambientes de fantasia. Já não gosto das fotografias documentais manipuladas e de objectos e contextos manipulados (não me esqueci das fotografias comunistas, aliás são essas que me vêem logo à cabeça). Quanto a despedimentos, lá está não suporto incompetentes — uma dessas fotos da Palestina se me lembro (ou seria Líbano?) era literalmente de rir… O fumo clonado estava uma verdadeira obra de arte. Mas estou quase como o Hitchcock — a fotografia manipulada jornalística perfeita está a acontecer neste preciso momento e nunca o iremos saber, tal como não soubemos as do passado. É reprovável, mas ética é coisa que não espero em demasia de certos sectores.

    Também não percebo onde acaba o ajuste… Se numa foto Raw eu acrescentar 5% de saturação é ajuste. Se for 30% é manipulação? Pode ser apenas o meu conceito para essa fotografia.

    até o Ansel Adams ajustava o contraste das suas fotografias

    Revelar é um processo de ajustar, acho óbvio que o Ansel Adams e todos os outros ajustassem — em alguns, a sua “imagem de marca” estaria mas relacionada com esses ajustes do que em outros. Por exemplo, o Ansel Adams conseguia uma quantidade de tons de cinzentos incrível, para o alto contraste demonstrado. Nem qualquer pessoa faz aquilo no laboratório (já para não falar na câmara). Outros seria a estética… Relativamente ao f/64, acho natural surgirem grupos desses da era digital — só não será natural surgirem grupos de “vale tudo” porque nesse grupo já está quase toda a gente. Acho importante haver grupos desses que pensem a fotografia de hoje dentro de determinados parâmetros.

    O beijo é do Bresson (correcto?) e é uma encenação, já vi uma entrevista com a agora anciã que o protagonizou. Ele viu-os a beijarem-se, instante decisivo “my arse” — e pediu-lhes para repetir a dose.

    Mas o casal estava lá, não foi acrescentado nem a fotografia é uma junção de duas ou três ou quatro fotos, cuidadosamente coladas umas às outras.

    Não estava não. Esteve e voltou a estar, o que é diferente. Também não aceito o argumento que não é juntar três ou quatro fotos… Numa panorâmica faço isso e com perfeição — é uma questão de limitação técnica da máquina para os meus objectivos. Deixou de ser fotografia? Duvido muito.

    A fotografia não existe como conceito que os próprios fotógrafos têm dela. Antes era luz mais químicos; agora é luz mais números, e nem são muitos, só o zero e o um. E são os zeros e uns que dão os resultados. O uso que cada um faz dos seus zeros e dos seus uns é assunto do foro pessoal. Se alguém vai dar valor é outra história. Como sabes, a muito que vejo, dou valor zero.

  7. Dezembro 12, 2007 às 8:29 pm

    Rui,

    Parece-me que estamos a chegar à conclusão que temos alguns pontos em comum e outros diametralmente opostos, o que é bom. Primeiro deixa-me corrigir-te num ponto: o grupo f/64 foi fundado pelo Ansel Adams e não é um grupo da era digital.

    Tal como tu gosto das fotos manipuladas da Miss Aniela e passei a gostar mais a partir do momento em que ela assumiu que eliminou – manipulou digitalmente – um carro num auto-retrato e incluiu uma ligação para o original. Pode ser ingenuidade minha mas aquilo caiu-me no goto e é por essa mesma honestidade que eu luto. Não me importo nem tenho nada contra a manipulação – no sentido estrito de retirar, eliminar, acrescentar, inverter elementos que figuravam, ou não conforme o caso, na imagem original – desde que ela seja assumida e declarada, em relação aos ajustes nada tenho contra porque mesmo com um negativo só o facto de o revelares dois minutos a mais ou a menos, já estás a ajustar, o mesmo em relação a imprimir em papéis de contraste variável, queimar ou tapar áreas da fotografia na impressão. Estou contra o facto de estar a comprar uma imagem e esta ser uma manipulação bem feita e eu desconhecer esse facto. Não há nada que me irrite mais do que estar a comprar uma mentira.

    A manipulação de fotografias usadas num contexto que seria pretensamente de verdade é, para mim, indesculpável. Mas cada vez mais assistimos a esssa situação e muitas vezes com resultados francamente maus como o caso do fogo no Líbano mas o que me assusta são os casos como o fotógrafo do Washington Post (podem ler a notícia no WP) que fez um bom trabalho e só mais tarde foi descoberto. E quantos mais andam por aí e não são descobertos? Arriscaria um número na ordem das centenas…E por causa disso as marcas foram obrigadas a meter software de autenticação nas máquinas porque se corre o risco de imagens digitais captadas pela polícia não serem aceites em tribunal por não se saber se foram manipuladas. Choca-me Rui, o facto de haver jovens em todo o mundo a ler a Vogue e a querer transformar os seus corpos à imagem do que vêm na revista e que o fazem com os resultados que se conhecem: bulímia, anorexia e outros distúbios alimentares. Mas é o mundo em que vivemos onde muitas vezes o que interessa é vender, a ética vai para as urtigas.

    Lavazza? Imagens digitais no seu esplendor…Fotografia? Duvido…

    Quanto à encenação temos opiniões diferentes, gosto das encenações da Amy Stein, por exemplo, e mais uma vez gosto quando é assumida. A fotografia do beijo é do Robert Doisneau e há algumas circunstâncias que me fazem duvidar da versão da senhora, nomeadamente o facto de pouco antes de andar a bradar aos céus que aquilo era falso, ela ter pedido uma soma avultada de dinheiro por figurar na foto. Pode até ser encenada mas nesse caso é uma mentira e uma vez instalada a dúvida para mim acabou-se. Nunca mais vi essa imagem com os mesmos olhos, digo-te.

    Dizes que a fotografia no seu crescimento fez vitimas e indicas a pintura. Não é inteiramente verdade, a pintura sofreu grandes alterações e adaptou-se de tal maneira que hoje a pintura é pujante, com obras de grande valor artistíco como os Rothko, Pollock e outros. Porquê? Talvez porque a fotografia libertou a pintura para poder ser o que esta desejasse e foi o que aconteceu. Não há nada pior do que limitar aquilo que um artista pode ou deve fazer com a sua obra mas se na pintura os artista mencionam o suporte e a técnica porque não aplicar este conceito à fotografia? Não seria mais honesto? Depois cada um decide se compra ou não mas toma a decisão na posse de alguns dados tais como se é ‘colagem’ (fuja à palavra manipulação aqui) ou fotografia apenas com uns ajustes. Ajustes que foram realizados com intenção de tornar a imagem numa obra de arte completa. E isso Rui é sempre impossível de quantificar, gostaria de o fazer mas é impossível nem é essa a minha intenção, aqui eu quero apenas saber o seguinte: se colares um céu numa imagem, onde há partida ele não estava, consideras isso fotografia ou imagem digital (ou outro nome que lhe queiras dar)?

    Termino com apenas uma pequena norta, logo após eu ter publicado o meu primeiro artigo o The Online Photographer começou a publicar uma série de artigos onde aborda este assunto de uma maneira magistral e que eu recomendo ler. Não estou só nestas dúvidas e de repente percebo que este é um tema polémico e que leva a troca de argumentos acesa e muito interessante para a fotografia, por isso Rui lanço-te aqui um repto: faz um artigo, envia-mo por mail e eu publico-o. É apenas a constatação de que a tua argumentação é inteligente e mostra conhecimento, o que me leva a abrir esta excepção.

  8. Dezembro 13, 2007 às 3:19 pm

    Primeiro deixa-me corrigir-te num ponto: o grupo f/64 foi fundado pelo Ansel Adams e não é um grupo da era digital.

    Não era necessário porque não foi isso que eu disse. O que eu disse foi que era natural surgirem grupos desses da era digital — ou seja, similares. Se deu confusão lamento, mas já é difícil manter os comentários curtos assim…

    Não acho necessário assumir que se alterou — no caso Aniela, é tão evidente que isso só pode ser uma curiosidade e demonstração de capacidades técnicas. Realmente é desnecessário. Não acho que os fotógrafos tenham de fazer um “behind the scenes” — embora goste de ver em revistas à vezes. Vi um de fotografia publicitária para a BMW (na Mac User inglesa) e se já não tinha ilusões, fiquei de boca aberta. Ou outro, na mesma revista, uma fotografia jornalística do Figo que não dava enquadramento e mudaram o jogador e bola de local — isto num jornal!

    Então a Lavazza agora não é fotografia? Seja. Para mim é fotografia.
    Uma fotografia do século passado colorida à mão não é fotografia? Hoje até são muito valorizadas. São técnicas. Eu não aceitava era a Lavazza a concorrer um concurso de natureza — nem que fosse natureza morta :) .

    Eu não tenho nada contra as encenações. Mesmo fotografia de natureza é muitas vezes encenada. Só não compro a treta do “instante decisivo”.

    Não é inteiramente verdade, a pintura sofreu grandes alterações e adaptou-se de tal maneira que hoje a pintura é pujante, com obras de grande valor artistíco como os Rothko, Pollock e outros. Porquê? Talvez porque a fotografia libertou a pintura para poder ser o que esta desejasse e foi o que aconteceu.

    Desculpa é inteiramente verdade. Quando essa gente surgiu, já a fotografia cá andava e já muitos estilos de pintura e muitos pintores tinham desaparecido. Eu não vou entrar na discussão subjectiva do valor da pintura. Mas tanto gosto de um contemporâneo, como de um pintor de paisagens do Séc. XVIII.
    A ilustração também está aí e recomenda-se. E a ilustração técnica e científica é insubstituível — chegaram à conclusão que a fotografia não servia afinal. E daí? Não invalida o que eu disse.
    Por essa ordem de ideias, também o digital vai “libertar” os fotógrafos para serem o que quiserem. Pontos positivos.

    Pessoalmente, como sabes, não colo nem gosto de céus colados. Acho uma abordagem errada à fotografia — mas já o era antes. Agora está mais fácil, “democratizado” como se gosta de dizer… Em circunstâncias tipo Lavazza, acho bem se é isso que o fotógrafo quer — lembra-te que se pode trabalhar nessa direcção — fotografar os sujeitos em separado com a ideia final de os juntar com luzes e sombras impossíveis se estivessem juntos. As possibilidade são infinitas obviamente. Noutras circunstâncias, como fotografar a paisagem perfeita, prefiro a paisagem imperfeita e a não ser assim, prefiro que indiquem a técnica.

    Eu não tenho grande tese para defender em relação à fotografia digital. Estamos só a conversar — sabes que neste momento não tenho grandes hipóteses. Nem no meu blogue escrevo.

    Pessoalmente, o digital trouxe-me o controlo total do meu trabalho fotográfico. Mesmo amador e incipiente, família, flores ou o que seja, para mim isso é fantástico. Essa é a primeira grande conquista — agora é ver o que fotógrafos dignos desse nome vão fazer com estas possibilidades.

  9. Dezembro 13, 2007 às 6:16 pm

    Pessoalmente, como sabes, não colo nem gosto de céus colados. Acho uma abordagem errada à fotografia — mas já o era antes. Agora está mais fácil, “democratizado” como se gosta de dizer… Em circunstâncias tipo Lavazza, acho bem se é isso que o fotógrafo quer — lembra-te que se pode trabalhar nessa direcção — fotografar os sujeitos em separado com a ideia final de os juntar com luzes e sombras impossíveis se estivessem juntos. As possibilidade são infinitas obviamente. Noutras circunstâncias, como fotografar a paisagem perfeita, prefiro a paisagem imperfeita e a não ser assim, prefiro que indiquem a técnica.”

    Bem, nem eu diria melhor. Resumindo estamos entendidos, só não concordamos num aspecto é que se estas alterações inviabilizam que a obra final seja, ou não, considerada fotografia. Gosto de fotografias encenadas e/ou muito manipuladas tipo Aniela ou Lavazza mas em ambos os casos há conhecimento da técnica usada. E foi exactamente isso que eu disse no artigo anterior…Aliás usas uma expressão que acho que eu usei: “paisagem imperfeita”.

    Considero que uma fotografia colorida à mão é uma interpetação e não uma construção da realidade. Repara que podes ter uma visão de como o tema era, apesar das cores estarem alteradas, sabes que o autor estava lá e os factos aconteceram, captados a preto&branco é certo mas as cores não mudam a ‘verdade’ dos factos.

    Continuo a discordar em relação ao percurso da pintura: Rothko faleceu em 1970, O’Keeffe em 46 (e foi casada com o Stieglitz), Pollock em 56 e Hopper em 67. Ou seja atravessaram todos esse período em que a fotografia se impôs como arte e não só como suporte documental.

    Bem o nosso tempo é curto (e o teu ainda mais) pelo que te agradeço toda esta troca de opiniões. Reconheço que chegamos a alguns consensos apesar de ainda divergirmos em vários pontos. E isso é bom, nada evolui sem discussão. E gosto sempre de aprender. E o convite continua de pé…nem que seja para apróxima :)

  10. Dezembro 14, 2007 às 2:22 am

    Considero que uma fotografia colorida à mão é uma interpetação e não uma construção da realidade. Repara que podes ter uma visão de como o tema era, apesar das cores estarem alteradas, sabes que o autor estava lá e os factos aconteceram, captados a preto&branco é certo mas as cores não mudam a ‘verdade’ dos factos.

    Mas o que acho é que estás errado na assunção que a fotografia é a construção da realidade. Nunca foi, embora muitos fotógrafos, técnicos e marcas tenham trabalhado com afinco nesse sentido. As opções disponíveis antes do digital eram usadas como interpretação artística. Quem não se lembra das “cores Velvia”? Havia quem assegurasse que “só fotografa em Velvia”. Não era porque o Velvia era mais real que os outros (ou não era essa a razão na maior parte dos casos). E fotografar com rolos para infravermelhos e outros truques? E no laboratório? Eu por exemplo, sempre preferi papéis “duros” e mate. Era uma escolha consciente e puramente estética.

    A diferença de hoje é a tal “democratização” e os resultados radicais facilmente conseguidos (e muitos outros não tão facilmente como possa parecer). É inevitável e não vale a pena lutar contra isso. Lutar pela ética? Sempre. Lutar por uma visão estética? Sempre. Lutar por uma determinada ideia da fotografia? Sempre.

    Por isso nasceu o f/64 — e estavamos longe do digital. Os problemas que se colocavam e os dilemas eram já parecidos. Como disse antes, é natural que surjam f/64s da era digital — Porque não um grupo só de B&W digital? Um grupo cuja manipulação nunca inclua ou retire nada da fotografia?

    Não percebo o que acrescenta a questão dos pintores e exactamente em que divergimos. O teatro aí anda, depois do cinema e daí? Não percebo. Para mim é óbvio que a fotografia abalou o mundo tal como na época o conheciam e esse abalo criou muito de novo e destruiu outro tanto. Lembra-te que a pintura atravessou largos séculos em que, quando muito, lhe era dado o devido valor postumamente. Há quantos anos é que a fotografia é valorizada como arte, pendurada em galerias e as pessoas estão dispostas a dar bom dinheiro pela fotografia? Comparado com a pintura, está na mais tenra infância. A impressão digital está agora a impor-se aos poucos nos feudos dos grandes fotógrafos e em leilões os melhores atingem uns $10.000 dólares… Mas como hoje é tudo mais rápido, não duvido que também se vá impôr. Vai acabar com as técnicas tradicionais? Comercialmente, sem dúvida, mas no domínio do nicho e especialidade? Nem pensar. Pelo menos é assim que reza a história.

  11. Dezembro 15, 2007 às 1:03 pm

    A fotografia nunca foi real, no sentido de que a realidade mostrada numa fotografia nunca é igual à realidade que retrata; o mundo não é a preto e branco e as perspectivas obtidas por algumas objectivas diferem da obtida através da visão, alterando-a. Assim a nossa percepção da realidade através da observação de uma fotografia é sempre o reflexo dessa realidade, mas tal não significa que o que vemos não seja real mas apenas um reflexo do real. A alteração radical das imagens não recria um reflexo de uma realidade, antes pretende criar nova realidade, um acto divino pelo qual, através de um teclado, podemos criar um corpo novo à imagem dos padrões actuais.

    Penso que respondi à tua primeira afirmação…

    Lutar pela verdade? Lutar pela liberdade artística? sempre para ambas as perguntas. Deve o artista indicar a técnica usada? Sempre que a imagem resultar de um acto de construção e não seja a realidade que estava na frente da lente no momento da captura. Podem alterar saturação, contraste, ou alterações efectuadas na luz, não quero saber. Mas se está na imagem um céu que foi colado eu quero saber! Penso que é tão simples como isso (ou talvez não…). Quando há dinheiro envolvido a ética tende a desaparecer, é certo mas eu procuro autenticidade e gostaria de a ter, e isso pode passar pela formação de uma corrente estética na fotografia que defenda hoje o que defendia o grupo f/64.

    Em relação à pintura reconheço que por exemplo a pintura de retrato e de natureza desapareceu com o advento da fotografia. Mas a pintura como arte sobreviveu, lá está adaptou-se e se calhar a fotografia precisa de se adaptar às novas tecnologias para que quem compra fotografia actual esteja a comprar com conhecimento do que de facto está a comprar. A fotografia está hoje mais valorizada do que nunca no mercado de arte mas podia estar mais, sobretudo porque pairam duas grandes sombras sobre o mercado: a autenticidade das imagens e o facto de o meio permitir cópias infinitas (situação que piorou com os meios de divulgação actual).

  12. Dezembro 16, 2007 às 1:40 am

    Respondeste, mas depois queres o “real”.

    Só mais um comentário — A pintura também tem cópias infinitas através da serigrafia e muitas outras técnicas, umas mais conceituadas e valorizadas que outras.
    Teoricamente, não haverá duas fotografias iguais, mesmo que sejam digitais. Se o autor assinar e numerar, não há de certeza. O autor pode decidir fazer apenas uma também — mas não será do seu interesse.

    Em qualquer galeria do mercado de arte português (ou seja, mercado pequeno), uma serigrafia de um conceituado com 250 exemplares de tiragem, vale 1500-2500€. São 375.000€ a 625.000€, é muito dinheiro e uma quantia que os originais não atingem, na esmagadora maioria. Ou seja, a reprodução é a grande fonte de receita para os artistas vivos. Não se entenderia que a fotografia fosse diferente, falta-lhe é o peso dos anos em cima dos ombros. Já para não falar que hoje qualquer um tem uma reflex.

    Mas, os problemas na pintura são muito similares. Há mais de 100 anos, só as tintas já eram uma arte feita para durar séculos. Hoje um pintor ou artista plástico faz obras que se degradam ao fim de uma década… Eu acho tudo isto muito semelhante. Nestes detalhes todos, deve andar a arte.

    Por fim um aparte — o calendário Pirelli não ser fotografia é forte… Devias sustentar melhor essa tese.

  13. Dezembro 16, 2007 às 3:35 pm

    Rui,

    Essa minha afirmação foi apenas uma provocação em relação a este aceso debate, longe de mim querer fazer uma tese sobre o que é fotografia e o que não é, esse não é o meu fim. Se não o entendeste assim, peço desculpa, a falha foi minha.


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