04
Jan
08

Bons velhos tempos.

“(…) e a minha conclusão é que os velhos de todos os países do mundo têm o mesmo discurso, numa palavra, que o homem que avança na idade parece ter sempre propensão para acreditar que o antigo era, em todos os aspectos, preferível ao recente.”

O elogio da sombra – Junichiro Tanizaki

Esta semana termino assim, nostálgico e recordando os bons velhos tempos. Tudo a propósito de uma artigo no Telegraph intitulado ‘the 20 years that changed my life…‘ e de repente vêm-me à memória os Joy Division, as horas passadas a ouvir Cure e Smiths, os urbano-depressivos, New Order e cinzento, muito cinzento.
Brinquei na rua, sem medo de nada, jogava-se futebol no recreio da escola ao fim-de-semana e faziam-se pistas improvisadas, desenhadas a giz nos pátios quando chovia. Corridas de caricas, bolas de futebol de trapos, todo-o-terreno em bicicletas de 20 quilos e quadros em aço, que mesmo assim conseguíamos partir.

Musicalmente foi o punk, o no-wave nova-iorquino, o Nick Cave e os Birthday Party, Lydia Lunch e os Swans, o dark dos Current 93 e Coil, o industrial do Einstüzende Neubaten e Test Dept. que me levaram da década de 80 para a de 90. Cavaco e o bloco central, a morte de Sá Carneiro, o triunfo de Eanes. Assim de repente tudo isto me vem à memória. Num turbilhão de boas e más recordações.
E na fotografia? Um sem fim de lojas, sempre cheias até à porta, onde se podiam revelar filmes, pedir fotografias em papel de fibra mate – Agfa FB 118 – com um tom creme soberbo e sentir nas mãos aquele papel era extraordinário! Era passar os fins-de-semana a falar com profissionais a discutir filmes e papeis e lentes, na loja do Sr. Fraga que entretanto sucumbiu à fúria tecnológica a que hoje assistimos. Foi passar de uma máquina manual, feita na antiga RDA (ainda sou desse tempo), para uma máquina gama média autofoco com motor, medição matricial e exposição automática. Bons tempos realmente.

Trabalhar sem pressão, sem stress, fazer o que precisava de ser feito e sair a horas (que luxo hoje em dia). Ter tempo para tudo e não ter nada para fazer, ver as horas a passar, entre tertúlias e conversas inflamadas sobre o último disco de A ou B. Assistir ao primeiro concerto dos Madredeus, ao primeiro concerto em Portugal de Nick Cave, ler poetas malditos e descansar, namorar à sombra dos dias que passavam, ser livre e gostar.

Hoje a tecnologia facilita-nos tudo: falar com os amigos sem sair de casa e mesmo assim conseguir ver a sua cara num ecrã, podemos trocar um milhão de sms e mms por ano, falar em qualquer lado para outro qualquer lado para qualquer pessoa mas somos realmente mais felizes? Temos mais tempo disponível para fazer o que gostamos? Falamos muito mas escutamos realmente o que nos dizem?

Bom fim de semana e boas recordações…


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