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O negócio da fotografia.

A fotografia atravessa uma fase interessante mas não escapa à crise que os mercados atravessam e é natural que os tempos estejam difíceis para quem vive da fotografia.

No Porto existem muito poucos espaços que expõem regularmente fotografia, o mercado é fraco e quem expõe habitualmente aposta nos clássicos ou nos nomes já estabelecidos, o que em termos de dinamização é pouco e nada acrescenta à divulgação da fotografia.

A galeria Lab.65, nascida e criada para a divulgação de novos nomes da fotografia, sempre tentou inverter essa tendência de desvalorização da fotografia em relação às chamadas belas-artes e apostou forte em projectos pessoais de boa qualidade. Situada na zona de influência do CPF mas fora do roteiro in de Miguel Bombarda, é um espaço que aposta num relacionamento mais directo com o público e com os artistas; foi ali que eu vi pela primeira vez trabalhos do Pedro Guimarães (que acabou por ter um trabalho publicado no National Geographic), da Rita Castro Neves, do Hugo Olim e tantos outros nomes que agora não recordo.

A Lab.65 era realmente um espaço muito interessante e que durante a sua existência proporcionou a quem lá passou uma viagem extraordinária pela jovem fotografia portuguesa. Falo no passado porque a Lab.65 n’est plus, tal e qual como a Moleskine. Desde o início do ano que a galeria se mantém fechada, sem sombra de movimento ou alterações. Não foi uma surpresa mas é com desgosto que verifico que os piores prognósticos se confirmaram e que o projecto sucumbiu à falta de apoios e de público comprador. Hoje damos como certa a arte fotográfica mas temo que a realidade seja bem mais negra do que a descrevem, a inundação no mercado de micro-agências que vendem imagens ao desbarato, a verdadeira avalanche de fotógrafos que vendem as suas fotografias em sítios como o imagekind a 10, 20 ou 30€ uma impressão em A4 ou A3+ está a transmitir ao público uma mensagem: que a fotografia pode e deve ser barata. E o público convencido de que somos todos fotógrafos, acredita nesta nova máxima da era digital de que uma fotografia custa zero, ou próximo disso, e se assim é para quê investir 300€ ou 400€ numa série limitada apenas porque está numa galeria? Mas alguém já fez as contas de quando custa uma fotografia a um profissional ou a um amador sério e competente? Não, então vamos lá fazer umas pequenas contas.

Um corpo, meia dúzia de boas lentes, software, discos rígidos, tripé, mochilas, leitores de cartões, baterias extra, cabo disparador, etc., já gastou 10,000€ e as imagens ainda não chegaram à parede da galeria…Mas claro que para fazer as fotografias é preciso deslocar-se para um espaço selvagem que tenha o interesse durante o ano, capaz de nos dar boas imagens suficientemente inéditas e com bom potencial de venda. Temos as imagens e é preciso imprimir e testar as fotos portanto já vamos a caminho da loja para adquirir uma impressora, junto trazemos umas caixas, digamos quatro, de um papel decente. Vamos agora imaginar que este equipamento todo, excepto o papel e os tinteiros, dura para quatro anos e que durante esse período consegue realizar três exposições com vinte boas imagens. Ao fim de quatro anos o equipamento está desactualizado e precisa de nova máquina, uma lente nova e já gastou resmas de papel – a 5€ a folha – e os tinteiros esvaziam-se a uma velocidade estonteante. Tem que pagar as revisões da viatura, os pneus, o papel, tem a conta da luz, da água, da net de banda larga, enfim tem que viver disto. Não é preciso ter uma licenciatura em Economia para perceber que a 100€ cada A3+ nem dá para ganhar dinheiro quanto mais sobreviver do negócio. Talvez por isso o modelo actual de sobrevivência dos fotógrafos passa pelas revistas para onde realizam reportagens, livros e os workshops.

Não percebo esta ideia generalizada de que as fotografias devem ser grátis ou vendidas a preços de saldo apenas porque agora é suposto ser mais barato fazer uma imagem. Medir tudo pela mesma bitola e reduzir tudo ao mínimo denominador comum não só é perigoso para o futuro da fotografia como desmotiva quem quer começar uma carreira como fotógrafo. Acho que ainda não se reflectiu o suficiente neste tema para que realmente se perceba o alcance da situação mas aquilo que inicialmente parecia uma excelente novidade, o poder comprar boas fotografias a preços baratos, depressa se tornou num beco sem saída, onde quem compra não sabe o que compra e quem pretende vender não vende. Comprar hoje uma edição em A3+ por 50€ pode ser caro comparado com uma edição limitada a 400€. Porque se comprar bem posso daqui a dez anos vender melhor e realizar mais valias, apostar em nomes emergentes, apoiados por galerias como a Lab.65, pode ser um excelente investimento que vai muito além do prazer de possuir uma boa fotografia exposta na parede de casa. Desenganem-se os adeptos da teoria da conspiração das elites artísticas versus povo munido de uma máquina fotográfica, todos sabemos onde isso nos leva: ao esvaziamento total da fotografia como arte. Não somos todos fotógrafos e até que isto seja apreendido muita tinta vai correr e muita discussão vai continuar mas de facto o mais importante é fazer boa fotografia, teorizar menos e ver mais. O que vai separar o trigo do joio vai ser, sem qualquer margem para dúvidas, a consistência, a inovação e o trabalho árduo. E as carreiras vão continuar a ser feitas nas boas revistas, nas galerias e não no Flickr ou no Zooomr. Quando vendo barato o meu trabalho não só o estou a menosprezar mas também o dos outros e se eu não valorizo o meu trabalho como posso exigir que os outros o façam?


2 Responses to “O negócio da fotografia.”


  1. Março 7, 2008 às 1:57 pm

    Subscrevo tudo o que o Mário acabou de dizer e achei curioso o levantamento dos seus custos pessoais com fotografia. O meu caso é semelhante mas em formato analógico, ou seja, scanner profissional, película profissional e revelação, impressões lambda ou pigmentos, etc..

    Cada vez estou convencido que parte do problema prende-se com o facto de hoje em dia as pessoas quererem ser “entretidas” e vivem numa constante euforia de consumo desmedido. Apreciar uma obra de arte pode levar tempo. As pessoas olham para a fotografia mais como entretenimento do que arte. Não demoram os olhos pelas imagens, não pensam, não reflectem, não questionam, não discutem. “Gosto muito e pronto”. “Não gosto porque não”. Querem ser simplesmente entretidas e partir para outro assunto.

    O problema não é único da fotografia. O vídeo e a música são também afectados. O digital só veio aumentar este problema. Talvez seja um mal necessário…

    Mas no “negócio” da fotografia, nem acho que esse aspecto seja o pior. Haverá sempre um público para respeitar e apreciar o trabalho de todo o tipo de fotógrafos e artistas. As galerias, à semelhança dos museus, têm um dever de educar o público. Nitidamente algumas só se preocupam com o lado comercial da questão. E já vi todo o tipo de disparates, quer a nível de exagero de preços quer a nível de qualidade técnica e temática nalgumas galerias.

    Pessoalmente gosto muito de ir a uma galeria e ver trabalhos muito bem produzidos. Na maioria dos casos prefiro o formato do álbum, mais intimista e mais “narrativo”. Talvez até menos pretensioso. Nalguns casos, não é de todo justo para as imagens, por exemplo, em situações de imagens onde a escala é importante.

    Não me alongo mais. Parabéns pelo blog. Admito as pessoas que conseguem ter um blog tão produtivo e ainda têm uma vida pessoal e profissional para gerir. Eu não consigo gerir o meu…

    Abraço,
    JJ

  2. Março 9, 2008 às 7:04 pm

    “As galerias, à semelhança dos museus, têm um dever de educar o público. Nitidamente algumas só se preocupam com o lado comercial da questão. E já vi todo o tipo de disparates, quer a nível de exagero de preços quer a nível de qualidade técnica e temática nalgumas galerias.”

    José, desde que a fotografia contemporânea elevou o ‘snapshot’ à categoria maior nunca mais se deixou de assistir nas galerias a esse fenómeno estranho de vermos algo que nunca lá deveria estar. Mas a educação saiu pela janela quando o dinheiro entrou pela porta…
    Eu pessoalmente também gosto de ver trabalhos com qualidade, bem produzidos mas estou disposto a abdicar de uma perfeição em troco de ‘alma’ nas fotografias. O detalhe técnico tem tido uma relevância cada vez maior na fotografia contemporânea em virtude do esvaziamento emocional que as mesmas apresentam. Já que não têm impacto emocional ao menos que sejam perfeitas.

    Tento manter este blogue actualizado gerindo da melhor maneira o meu tempo como profissional empenhado, como pessoa que gosta de ler, ouvir música, sair e como marido. E ainda conjugo isto com o hobby da fotografia. Não é de facto simples mas é uma luta que me dá prazer e nem podia ser de outra maneira.

    Um abraço.


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