17
Mar
08

A câmara é importante ou não?

Michael Reichmann, autor do aclamado Luminous Landscape, descobriu o texto ‘Your camera doesn’t matter‘ do também conhecido Ken Rockwell e decidiu rebater este texto com outro intitulado ‘Your camera does matter‘. Para nos situarmos é importante dizer que ambos são dois pesos-pesados da fotografia online, embora mais pelos testes de equipamentos e tutoriais e não pelas suas fotografias, com mais de um milhão de visitas mensais.

Mas a câmara é importante ou não? A resposta correcta é: depende. E depende de quê? De inúmeros factores, não só técnicos como Michael Reichmann aponta. E realmente existem circunstâncias onde a câmara não interessa para nada, aliás eu arrisco-me a dizer que aí a câmara só atrapalha mas já lá chegaremos. E a insinuação de que uma câmara de 150€ é capaz de tirar tão boas fotografias como uma câmara de 5.000€ é falaciosa mas vinda do Ken Rockwell não me admira, é este o homem que publica ‘testes’ de equipamento que nunca testou…Mas de volta ao tópico.

A fotografia tem tanto de arte como de perícia técnica, não há dúvida, e para poder adquirir essa mesma perícia as ferramentas são importantes. Iniciar-se com uma boa câmara de 5.000€ não é o mesmo de se iniciar com uma máquina de 150€, é pior. Uma máquina de 5.000€, para simplificar vamos exemplificar com uma Nikon D3, não é o mesmo que se iniciar com uma Lomo Holga; uma D3 é muito mais complexa, pesa mais e permite-nos uma liberdade muito maior, desde que se saiba o que fazer com essa liberdade. Para mim existem as ferramentas exactas para cada tipo de fotografia mas também existem máquinas correctas para quem está a iniciar-se, para quem já tem alguns conhecimentos, para os amadores exigentes e para os profissionais.

Se por um lado acho importante a ferramenta que usamos e que a mesma é relevante para o trabalho que produzimos, para um iniciado esta é uma questão sem importância. Com inúmeras situações a dominar – luz, enquadramento, profundidade de campo, composição, medição de luz, a última coisa com o fotógrafo se tem que preocupar é com a máquina. Lembro-me de ter dado um workshop de fotografia e de ter aparecido uma aluna na primeira aula prática que queria que eu lhe ensinasse a trabalhar com a máquina, claramente a câmara era demasiado sofisticada para ela, os controlos manuais pressupunham que soubesse para que serviam. Aquela máquina não era apropriada para ela, ponto final. Mas para um amador já avançado, a máquina (uma Olympus OM1) permite criar sem ter que descobrir para que serve o botão ‘A’ ou o ‘B’ ou o que acontece depois de carregar num desses botões.

A tecnologia não é uma muleta, é uma ferramenta, se não sabe para que serve o balanço dos brancos para é que quer um botão para o controlar, basta que a máquina o faça automaticamente. Uma câmara sofisticada permite uma liberdade criativa que uma mais simples não permite mas entende-se que sei o que fazer com toda essa liberdade para interpretar a cena e fazer a fotografia que quero.
Os professores de pintura pedem aos alunos que se estão a iniciar que comprem os pincéis mais baratos que encontrem porque não interessa nessa fase concentrarem-se no equipamento, apenas na aprendizagem. Na fotografia é que parece que anda tudo mais entretido a discutir a lente ‘X’ ou ‘Y’ do que a fotografar mas esse sempre foi um dos defeitos da ‘arte’ de fotografar, é que vai haver sempre aqueles que aparecem nas lojas a comprar a primeira máquina e que querem um D3 mas que depois descobrem que mesmo assim as fotografias que conseguem são uma miséria e culpam o equipamento; deve ser por isso que os fóruns estão cheios de gente irritada com a máquina que têm, não adaptam as aquisições ao que necessitam e procuram depois adaptar os conhecimentos às aquisições.
Mas o ritmo actual de rotação de equipamento, em que uma câmara tem um período de vida nas prateleiras de cerca de 18 meses, é natural que as pessoas se sintam tentadas a mudar de câmara sempre que um novo modelo aparece, sobretudo porque existem sempre avanços tecnológicos de uma geração para a anterior. E muitas vezes as alterações são puramente uma evolução do modelo anterior e pode nem existir uma necessidade real para uma mudança de equipamento mas na prática essa é a realidade do mercado, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta. E passar de 10Mp para 12Mp não é suficiente para gastar 2.000€ numa máquina nova, a não ser que de repente esteja a imprimir outdoors de 3×5 metros…Mas se trabalhar em publicidade em que a necessidade de ter ficheiros grandes para poder ter imagens de extrema resolução, então uma máquina de 21Mp ou mais é o ideal para si.
É perfeitamente possível fazer más fotografias com uma boa câmara e vice-versa mas fazer uma troca de equipamento entre uma iniciado e um profissional e depois analisar os resultados e verificar quem fez as melhores fotografias é absolutamente desastroso. Mas vamos por instantes dissecar a experiência que Ken Rockwell nos propõe:
Pegamos num iniciado com uma Nikon D40x+70-300/f4.5-5.6 e um profissional com uma D3 + 300/2.8 + TC1.4, assim temos ambos a trabalhar com a mesma distância focal +/- 450mm. Agora colocamos ambos nas lagoas de Bertiandos com o objectivo de fotografar as garças e depois de trocar o equipamento entre eles, analisamos (hipotéticamente) os resultados. Não é muito difícil de reconhecer que o profissional tem hipóteses maiores de conseguir melhores fotografias mas será que podemos apontar só para o equipamento? Penso que não. O profissional está em clara vantagem porque consegue ultrapassar as limitações do equipamento por isso na primeira análise podemos dizer que sim o equipamento não faz a diferença mas se analisarmos o trabalho habitual desse profissional chegamos à conclusão que apesar de conseguir trazer algumas fotografias, estas mostram claramente limitações inerentes ao equipamento, desde fundos demasiadamente focados (devido às limitações de profundidade de campo) a ruído excessivo (porque para poder captar as garças sem que fiquem tremidas é necessário aumentar o ISO para poder utilizar velocidades de obturador altas). Não falei do iniciado porque a esta hora ainda está a tentar descobrir como trabalhar com a D3 (que tem tantos comandos como o cockpit de um avião) e para que servem todos os botões na 300/2.8 VR…

A câmara é a ferramenta que nos permite criar livremente, sem restrições técnicas mas não importa que custe 5€ ou 5.000€, o que interessa é que se adapte aos nossos conhecimentos, à nossa técnica e à carteira. E é isso que importa, adaptar a ferramenta ao nosso trabalho. A partir daqui é tudo teoria da conspiração e conversa fiada. Para quem tem ambições de realizar um trabalho profissional e bem executado uma boa máquina é essencial, para todos os outros uma gama média é suficiente.
Lembro-me que comecei com uma Praktica de 1973/74, depois passei a uma Nikon F-601 com um zoom execrável 35-70/f3.3-4.5, a seguir passei para uma Nikon F-100 e agora uso uma Nikon D200. Nenhuma delas é um modelo topo de gama mas para mim foram ferramentas ideais para aprender.
Com a Praktica aprendi alguns fundamentos da fotografia, com a F-601 aprendi mais, com a F-100 avancei ainda mais e a D200 permitiu-me passar do analógico para o digital; hoje uma D3 enchia-me as medidas (ao mesmo tempo que me esvaziava os bolsos) mas acho que é câmara a mais para mim, ainda não cheguei a esse patamar. Logo que a câmara actual esteja entre a minha ‘visão’ e o resultado final, que me esteja a impedir de fazer as fotografias que ambiciono então será altura de mudar, até lá a câmara não me interessa porque neste momento não é a câmara que me impede de fazer aquilo que eu quero, são mais os meus conhecimentos e o meu ‘olhar’ sobre o que me rodeia, reconheço que ainda me custa a encontrar a fotografia em cada local mas também se está a tornar cada vez mais fácil, e isso não consegue ser resolvido com a aquisição de novo equipamento, passa mais pelo treino do ‘olhar’, com esforço, dedicação e aprendizagem. E isso não se compra, adquire-se com o tempo.


6 Responses to “A câmara é importante ou não?”


  1. Março 17, 2008 às 12:28 pm

    Também li ambos os artigos e acho que são ambos “extremados”. A reacção do Rockwell ao comentário de Reichmann é perfeitamente infantil. Comum a ambos: levam-se demasiado a sério e estão cheios deles próprios. :)

    A minha opinião tende no entanto para a do Michael Reichmann. O Ken Rockwell é um deslumbrado tecnicamente e o site dele é uma parafernália de testes pouco ou mal fundamentados e clichés irritantes. Esse artigo em particular não é excepção. Numa coisa estamos de acordo: a opinião acerca da Mamiya 6. Mas nunca vi uma fotografia interessante dele e é preciso espremer muito o site para encontrar algo interessante ou útil.

    Para os profissionais, talvez a melhor máquina seja aquela que melhor serve um propósito. Tratando-se da sua ferramenta principal de trabalho, haverá sempre uma mais adequada que outra para executar uma determinada tarefa. O factor de preferência por uma marca é igualmente um aspecto importante para muitos.

    Acima de tudo, o fotógrafo deve “esquecer” a máquina quando a usa. Mas para chegar lá tem de haver um período de habituação que pode ser longo. Mas experimentar durante muito tempo deve querer dizer que é melhor seguir outro caminho: escolher outra ferramenta, outra marca, outro formato, outra abordagem.

    “Esquecer” a máquina significa também uma dose muito grande de prática na “visualização” da fotografia que irá sair através dela. De outra forma o resultado será inesperado. No caso das máquinas analógicas, o factor película e revelação deve ser também um factor a considerar no processo de “visualização” da imagem final.

    O digital veio limitar o ciclo de vida destes equipamentos e introduzir o factor “histeria” na cabeça de algumas pessoas. Tal como acontece para a maior parte dos “gadjets” tecnológicos, a febre de ter sempre a última versão do último modelo da máquina X é mais importante e aditiva do que o ímpeto para fazer alguma coisa

    Ao contrário de “esquecer” a máquina, algumas pessoas vivem obcecadas com ela. A maior parte delas não chega a usar nem 10% da capacidade e das configurações dos modelos actuais e acham que um CMOS de 12 mega pixels é necessariamente melhor que um de 10. É então altura de comprar o modelo seguinte…

    Para mim, a melhor câmara é aquela que permite fazer as imagens que quero, independentemente de ser digital, analógica, médio/grande formato ou 35mm, rangefinder ou SLR, descartável ou…

    Tal como o Mário, comecei nos tempos da faculdade com uma Praktica MTL-5B (que comprei com o dinheiro de umas férias a trabalhar), depois passei para uma Nikon F-601 (que ganhei num concurso) com o mesmo zoom execrável que descreve. A seguir desisti praticamente da fotografia durante quase 10 anos para me dedicar à vida profissional e pessoal.

    Nos últimos 5 anos, o regresso a Lisboa, depois de deixar o Porto (completamente contrariado) por razões profissionais, tive que arranjar um escape: a fotografia. Recomecei com uma Lomo LC-A, depois com uma Holga. Mas foi o médio formato da Seagul TLR e a sua imagem quadrada que me acordaram outra vez para a fotografia.

    Há exactamente dois anos decidi comprar a Mamiya 6, depois de muito pesquisar, experimentar e ponderar. Não me arrependo. Tornou-se na ferramenta que procurava para o tipo de imagens que agora quero fazer.

    A Lomo e a Holga continuam a ter um papel muito importante. São o meu fio de Ariadne. Uso-as quando não estou inspirado, tenho preguiça ou quando estou cansado do formalismo das imagens que faço na Mamiya 6.

    Tentei o digital mas ainda não lhe encontrei função no meu processo de fotografar. No entanto não o dispenso como processo de produção final, ou seja, digitalização e impressão.

    Sites como o Luminous Landscape, do nos tempos da faculdade, têm sido preciosos ao longo destes dois anos no meu processo de aprendizagem. No entanto é nas imagens dos livros de fotografia de autor que mais tenho aprendido aquilo que mais me interessa. E esses raramente referem se a máquina é importante ou não para eles. É importante, claro, mas não é relevante.

    Oops! Isto vai longo. :)

  2. Março 17, 2008 às 7:29 pm

    José,

    Admito que gosto dos seus comentários. São substanciais mas mostram atenção e interesse pela fotografia, por isso continue.
    Eu também tendo mais para o lado do Michael Reichmann mas acho-o um pouco extremado também e por isso tendencioso e todos sabemos que estes sítios vivem de tutoriais e testes.

    A máquina é uma ferramente importante porque não pode estar entre o fotógrafo e o resultado que este pretende mas o resultado final pode muito bem não ser independente da máquina que é utilizada. Uma paisagem feita com uma Canon 1ds MkIII é necessáriamente melhor tecnicamente do que uma feita com uma Lomo Holga, o seu mérito artístico depende muito do autor e não da máquina. Mas se a sua intenção for fazer outdoors e tiver uma Lomo, bem é melhor repensar a coisa melhor. A máquina pode ou não ser importante e foi isso que tentei transmitir.

    José reparei também que fizemos um percurso fotográfico idêntico até à F601 e também eu desisti um pouco da fotografia e regressei à cerca de 3 anos, depois de uma passagem com sucesso pela pintura.

    Um abraço.

  3. Março 18, 2008 às 2:46 am

    Olá!

    Bem, vi muita verdade ser abordada neste artigo… Eu sou demasiado aprendiz para poder fazer comentários ao tipo de equipamento e comprei a minha primeira máquina digital há menos de um ano (trabalhava com uma analógica da Olympus, com tudo automático). Hoje em dia uso uma compacta da Canon, da série IS, e não podia ser mais feliz.

    Durante alguns meses não mexi nos controlos manuais, porque simplesmente não sabia para que serviam nem tinha ninguém que me pudesse explicar (nesta fase, até os controlos da compacta eram demasiado avançados para mim). A minha sorte foi uma colecção de 4 CDs que a National Geographic editou há algum tempo, e à qual dediquei uns dias nas férias de verão. Percebi os conceitos que estão na base de tudo e comecei desde logo a exercitar o que tinha aprendido lá. Digo honestamente que nunca vi um trabalho tão completo sobre iniciação à fotografia como aquela colecção. Hoje em dia, ao fim de alguns meses, recuso-me terminantemente a tirar fotografias noutro modo que não seja o manual.

    A questão é mesmo essa: a qualidade entre dois equipamentos faz a diferença quando há conhecimentos suficientes para utilizar ambos. Tenho a perfeita noção de que nunca poderei alcançar uma profundidade de campo que a abertura f/22 me poderia garantir, que o ruído proveniente do meu ISO 400 seria eliminado nas boas máquinas, e muitas coisas mais. Mas enquanto não vir necessidade em comprar equipamento novo, não o faço. Tenho muito mais para evoluir com a minha compacta antes de passar a algo mais avançado.

    E sou honesta nisto: não conheço nenhum dos senhores mencionados no artigo, mas vou ver se investigo… É disto que gosto no teu site, há sempre algo novo a aprender :) Continua o bom trabalho Mário.

    E agora um aparte, aquele nosso amigo que também se interessa por fotografia, o João, já comprou as últimas duas edições da revista para a qual escreves e diz que gostou muito do formato. Só soube que contribuias quando o vi a comprar a edição deste mês e referi esse facto… Por isso, assim se vê que estão todos a fazer um bom trabalho!

  4. Março 21, 2008 às 3:07 pm

    Ainda bem que os grandes mestres da fotografia não tiveram tantas opções. Isto fez com que eles aprimorassem mais o olhar e a criatividade e se precupassem menos com as marcas e acessórios.
    Não nego o valor e a facilidade dos recursos tecnologicos , até sou adepto deles e sempre que posso invisto em um novo equipamento. Mas no fundo da minha alma sei que o que faz uma boa foto ainda é a ocasião e a vivência do artista. O que tem ocorrido é que muita gente está em busca do status de ser fotografo ou artista sem ter a menor sensibilidade para isto. E aí meus caros, sinto muito mas o “dom” existe e só e dado a alguns. Ainda não inventaram a Canon ou Nikon com dom artístico, esta sim seria a máquina ideal para quem procura boas fotos em máquinas e não no olhar do fotografo.

  5. Março 23, 2008 às 7:34 pm

    O Excesso de oferta só atrapalha e quem aproveita são as marcas, mais do que os fotógrafos que são compelidos a trocar de material com uma frequência estonteante. Mas o que realmente importa é o ‘olhar’ de cada um.

  6. Março 23, 2008 às 7:38 pm

    Ana: gostei bastante do teu comentário, a tua experiência como utilizadora é esclarecedora para muita gente que acha que a compra de mais e melhor equipamento é a panaceia para todos os males que sofrem as suas fotografias. O problema é que a coisa funciona apenas por uns momentos porque logo a seguir tudo volta ao início e o ciclo inicia-se de novo.

    Em relação aos artigos também é importante a tua (vossa) opinião sobre os mesmos, fico a aguardar.

    Um abraço.


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