19
Mar
08

Os verões da minha infância.

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As coisas vão estar mais calmas por aqui nos próximos dias. Não estou em algum paraíso tropical nem fui a banhos para o algarve, não, não é essa a razão. A minha avó, com os seus 90 anos, faleceu ontem de manhã e de repente sinto saudades dos verões da minha infância que passava numa aldeia perdida na Serra do Barroso.

A família já não é uma unidade coesa, ao mesmo tempo austera e carinhosa, como nos nossos tempos de meninos. Hoje a família é mais uma entidade abstracta sacrificada ao mais puro egoísmo e hedonismo e cada vez mais se assiste ao abandono dos seus membros mais idosos. São abandonados nas férias nos hospitais, em casa dos vizinhos ou deixados em casa. É triste porque o capital humano e de conhecimento que estas pessoas têm é de um valor extraordinário e não somos capazes de o reconhecer, desaparece com a sua morte e não é transmitido para os mais novos. Muitas vezes só damos valor às pessoas depois da sua morte, mas já é tarde demais e de pouco vale, os afectos devem ser expressos em vida que é quando eles realmente são necessários.
Chego este ano aos quarenta e começo a chegar à fase terrível da nossa vida que é começar a enterrar os nossos familiares mais próximos e encarar isso não é fácil.

Mas hoje recordo com saudades as férias da minha infância, invarialvelmente todos os anos gostava de rumar a norte para aquela pequena aldeia encravada numa encosta de um vale, algures na Serra do Barroso. Aí vivi momentos felizes, brinquei, tomei banho nos riachos, acompanhei o meu avô até aos campos de batatas. Recordo os dias passados com ele enquanto me contava as histórias passadas na selva brasileira, onde andou a trabalhar nas minas que abasteciam o esforço de guerra na Europa e as tardes sentado ao balcão da loja, a única na aldeia, entre sacos de feijão e garrafas de sumo. Lembro-me dele como um figura central na minha infância, um homem educado (nunca o ouvi levantar a voz) e inteligente, sempre ao meu lado, com um carinho espantoso e até hoje nunca o esqueci. Acompanhei-o nos seus últimos dias, já muito doente mas o que recordo para sempre são aqueles meses de verão.

Entretanto continuei a visitar a aldeia e continuei a aventurar-me montes fora até tarde, o que colocava a minha avó num estado de aflição tremendo. Mas chegava sempre a casa com um sorriso e era prontamente perdoado. Terá sido durantes estas deambulções que desenvolvi uma ligação profunda com a natureza e que hoje me leva a ser um fotógrafo de natureza. Foi também aqui que comecei em 1991 a fotografar paisagens, sempre com a minha avó à espera, através desta janela, com o lanche pronto ou com o jantar já ao lume. Os dias de outono eram espantosos, com toda a gente à volta da fogueira e as manhãs começavam cedo, logo pela manhã para não perder tudo o que a serra me escondia e que eu queria descobrir; os dias acabavam sempre tarde, apenas quando o relógio da igreja já anunciava as horas do fim do dia.
Foi também nesta casa que passei as primeiras férias com a Sónia, agora partilhamos a vida em comum, e hoje recordamos com particular ternura aqueles dias.

Hoje recordo isto tudo com uma nostalgia que os meus leitores irão certamente perdoar mas sinto que tinha que a partilhar. São estas memórias, estas experiências e sobretudo estas pessoas que me transformaram no que sou hoje, sem elas seria uma pessoa diferente, talvez pior, talvez mais pobre intelectualmente, mas são parte integrante da experiência de vida que carrego. Deixaram-me um legado importante, tocaram-me particularmente em momentos de dor e partilharam comigo alegrias. Perdoem-me assim este momento de reflexão, regresso já a seguir.

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5 Responses to “Os verões da minha infância.”


  1. Março 19, 2008 às 3:37 am

    Lamento a tua perda… Mas ganhaste provavelmente o teu melhor texto… O último parágrafo era escusado… Que há a perdoar?

  2. Março 20, 2008 às 2:46 pm

    lamento…

    (por cá, estamos a passar por uma fase igual)

  3. Março 23, 2008 às 7:29 pm

    De regresso, agradeço aos dois as palavras de conforto. É inevitável passar por isto mas ninguém está verdadeiramente preparado…

  4. 4 Fernando
    Novembro 4, 2009 às 10:19 am

    Gostei muito de ler o que escreveste, tenho tambem muitas saudades da minha terra natal da minha infância e das pessoas que já não estão. Estou a viver no estrangeiro e a nostalgia de tempos passados está sempre presente.


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