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O Sabor agridoce de uma nova era…

Ainda na ressaca de todo o burburinho que rodeia o lançamento da nova Nikon D700, dei por mim a pensar no que se alterou desde 1991, altura em que comprei a minha primeira Nikon. A fotografia modificou-se substancialmente desde então, a nível do equipamento e a nível de produção/divulgação e ambos os factos estão interligados de forma que me parece inequívoca.

A produção passou de um meio analógico para um sistema totalmente digital desde a captura até à impressão e por muito que custe é caminho sem retorno. Saudades? Não. Nostalgia, sim. O puritanismo analógico começou a saltar pela borda fora quando os profissionais se aperceberam que a tecnologia digital lhes podia dar o controlo de uma forma que de outro modo – entenda-se analógico… – não seria possível. O eterno argumento que sempre houve (e sempre haverá, enquanto filmes/reveladores/papeis estiverem disponíveis) fotógrafos que possuíam o controlo total como as suas imagens eram reveladas e impressas é um mito que convém desmistificar: grande parte dos profissionais tinham alguém de sua confiança que lhes fazia o trabalho de laboratório. E isto é válido para o Henri Cartier-Bresson até ao James Natchwey dos nossos dias. Ansel Adams era a excepção e não a regra. E sobretudo permite-lhes fazer algo que dantes era proibitivo: fazer as variações que entenderem de determinado tema sem estar a pensar quanto é que isso lhes vai custar em termos de filme/revelação. E foi por aí que o digital conquistou grande parte dos profissionais. Conquistados os ‘opinion-makers’ o resto do mercado caiu facilmente aos pés da nova tecnologia, era apenas uma questão de tempo até o grande público se aperceber que a tecnologia estava a preços tão convidativos que era impossível recusar a oferta e passar a fotografar quanto se quer e o que deseja sem custos acrescidos além da aquisição do equipamento. O boom económico dos anos 90 trouxe a internet e os computadores até casa de muitos e a revolução digital estava a caminho.

Mais recentemente – talvez de há dois anos para cá – foram sendo divulgadas notícias de que Sebastião Salgado, o último dos resistentes, estava a digitalizar os seus negativos e os estava a imprimir numa Epson 4800. Há dois meses a Réponses Photo entrevistou Frank Horvat, um reconhecido fotógrafo, que despudoradamente revelou que todo o seu trabalho mais recente era feito com uma compacta digital e uma Nikon D200. Chegado a casa trabalha as imagens em Photoshop e imprime tudo numa Epson 4800.
Ninguém desdenha ou apresenta argumentos declaradamente contra o analógico, apenas preferem a (aparente) simplicidade, facilidade e economia do digital, argumentos suficientes na minha opnião para abandonar os argumentos românticos e poéticos sobre os filmes e papeis de outrora cujo conjunto grão/definição/cor nos deixa nostálgicos. Evidente que usar hoje uma câmara analógica está longe de ser anacrónico mas se não existirem razões de ordem estética e/ou artística, usar uma câmara digital tem vantagens óbvias e traz uma redução substancial nos custos de aquisição de filme e de custos de revelação; introduz outros, talvez mais disfarçados mas é um facto que permite ter uma produção muito mais extensa.

A alteração da produção – mais e mais barata – permitiu o acesso de mais pessoas à fotografia que assim podem descomplexadamente fazer uns bonecos interessantes quando lhes dá na real gana sem preocupações de monta. Este facto aliado à disseminação das redes de banda larga um pouco por todo o lado, permite que hoje seja possível fotografar o nascimento de um filho e que os parentes que vivem no outro lado do atlântico possam quase de imediato ter acesso a essas fotografias. Isto era impensável há cerca de dez anos, por outro lado essa facilidade veio inevitavelmente encher a rede de fotografias, umas com valor extraordinário, outras que não passam de imagens inócuas e vazias de significado (exceptuando para quem as faz).
Portanto temos mais gente a fotografar e a divulgar as suas imagens e sobretudo com a clara sensação de que ter uma máquina fotográfica os transforma em fotógrafos, o que é estranho porque 90 por cento das pessoas que têm uma câmara de vídeo estão longe de se considerarem cineastas. Mas de facto a fotografia, e particularmente depois da introdução da cor, sempre foi considerada uma ‘arte’ democrática e acessível a qualquer um e a fotografia digital veio apenas acentuar esse facto. E isso também veio trazer uma vitalidade e uma lufada de ar fresco que a fotografia precisava desesperadamente, apesar de não considerar toda a fotografia boa fotografia – embora faça claramente a divisão entre fotografia que aspira a ser arte e o simples instantâneo – reconheço que hoje se vive uma época de ouro na fotografia, onde é possível no conforto do lar ter acesso a obras produzidas em locais recônditos do nosso planeta por fotógrafos de que nunca ouvimos falar e que de outra forma nunca chegariam ao nosso conhecimento. Mas muitas vezes é preciso uma triagem difícil e pesquisa árdua para poder chegar a esses trabalhos tal é já o ruído que circula na rede e talvez seja esse o principal óbice a que se descubram mais trabalho com mérito: o ruído circulante.

É um época brilhante para se ser fotógrafo esta que vivemos hoje! Equipamentos fantásticos, recheados de tecnologia de ponta, acesso rápido e eficiente à rede global, facilidade de divulgação de conteúdos em plataformas desenhadas para o efeito e ferramentas diversas que nos permitem estender a nossa criatividade até onde a imaginação nos conseguir levar. É o sonho transformado em realidade, à distância apenas de um clique de rato de computador e no entanto estamos hoje mais distantes em relação a um consenso do que é a fotografia e o que faz uma boa fotografia do que estavamos há uma década atrás. Talvez tanta fartura nos tenha apenas trazido um sobrecarga visual ou provavelmente será cada vez mais importante perceber que hoje não há uma fotografia mas várias fotografias.
Retirando a questão do suporte – médio formato, 35mm, digital, etc. – a fotografia hoje divide-se basicamente entre amadores, consumidores/produtores e profissionais. Mas a linha que separa estas divisões é hoje radicalmente diferente do que era e hoje interessa mais a qualidade dos trabalhos e como são apresentados do que saber se quem os realiza o faz de maneira esporádica e como passatempo ou se retira o seu rendimento dessa prática. E cada vez mais essa linha será o fulcro há volta do qual irá girar toda a fotografia actual: já não basta ser bom é preciso mostrar de forma eficaz o trabalho que se produz.

Trabalho árduo, inovação, criatividade e coerência serão conceitos importantes para apreciar o que se vê nos dias de hoje, mais importantes do que conceitos técnicos ou de suporte. A fotografia deve ter a capacidade de nos surpreender, de nos fazer sonhar ou em última análise de nos despertar o desejo de conhecer aquele local ou aquela pessoa.
E os tempos de hoje permitem-nos sonhar com o equipamento A ou B mas mais do que a máquina, o importante é o olhar de quem está por trás da mesma e uma boa fotografia não se tira, faz-se. Hoje, tal e qual como há cem anos, esse facto mantém-se imutável.

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4 Responses to “O Sabor agridoce de uma nova era…”


  1. Julho 5, 2008 às 1:00 am

    Eu julgo que o Ansel Adams tinha assistentes. Acho até que um deles é ainda o responsável pelas reproduções da Ansel Adams Foundation. Mas é óbvio que era fotógrafo que sabia meter a “mão na massa” e entendia o processo totalmente.

    Eu não tenho nostalgia nenhuma do filme. Deve ser por nunca ter sido fotógrafo. Os meus negativos estão em profunda desordem, dificilmente encontro algo para reproduzir. Noto também uma degradação. Diapositivos nem se fala. Alguns que valorizo muito (digamos de dois interrails, por exemplo) estão um nojo. Nostalgia disso, não tenho de certeza. Tenho é de os digitalizar antes que se percam.

    A razão do cineasta e do fotógrafo para mim é simples. Qualquer filmeco tem na ficha técnica dezenas de pessoas; a fotografia pode ser, e é a maior parte das vezes, um “one man show”. E a tecnologia digital não mudou nem um facto, nem o outro.

  2. Julho 6, 2008 às 4:19 pm

    A tecnologia digital veio simplificar muito o proceeso de ver as imagens de uma forma rápida, de uma forma que só era possível através dos métodos Polaroid. A questão económica é importante mas o investimento – isto se quiseres dominar o processo todo – ainda é caro. Pensa nos preços dos tinteiros, que é onde as marcas como a Epson, a Hp e outras ganham de facto dinheiro. As máquinas evoluem todos os anos e as marcas são especialistas em provocar um certo desejo para que se despejem as máquinas antigas em favor das novas, como se isso fosse a panacéia para resolver todos os problemas. Mas não é e arriscamo-nos a não fazer outra coisa do que ficar a salivar – pelo menos alguns, não todos – à frente das montras das lojas de fotografia.

    Tirando isto, o processo é um outro mundo, as possibilidades são imensas e não estamos tão dependentes da interpetação das nossas fotografias como estavamos anteriormente. Nesse aspecto é imbatível e eu pessoalmente não vejo como poderia voltar atrás e perder tudo o que conquistei com o digital.

  3. Julho 7, 2008 às 1:54 am

    A questão económica é importante mas o investimento – isto se quiseres dominar o processo todo – ainda é caro.

    Não acho. Comprei um disco de 1TB (1000Gb) Lacie por 150,00€. Ainda há relativamente pouco tempo tinha comprado dois de 250Gb por 150€ cada.
    Para alguém mais profissional que eu (ou seja, não necessariamente profissional), o dinheiro que se poupa só na selecção é imenso. Se tirar 5.000 fotografias, posso escolher as melhores 50 por uma fracção do custo de antigamente e mais certezas, para não falar do tempo (que também é dinheiro). Antigamente andava-se a ver diaposivos a conta-fios em mesas de luz, ou provas de contacto para poupar uns cobres. Quem quer ter o melhor material tem de gastar algum dinheiro, mas aquilo que defines como “dominar o processo todo” é na minha opinião imenso. Era impensável há meia-dúzia de anos.

    as marcas são especialistas em provocar um certo desejo

    Isso é válido para a fotografia, é válido para tudo. Sou praticamente imune. Vacinei-me à minha custa, mas hoje dificilmente uma marca me faz gastar dinheiro “pela marca”, ou pela “novidade”. A única que ainda admiro pela capacidade de dar uns abanões valentes é a Apple. Mas no fim do dia, são uns palhaços como os outros e espero que nunca passem dos 10% do mercado dos computadores.

  4. Julho 7, 2008 às 5:55 pm

    Não acho. Comprei um disco de 1TB (1000Gb) Lacie por 150,00€. Ainda há relativamente pouco tempo tinha comprado dois de 250Gb por 150€ cada.

    Junta-lhe software, impressora, tinteiros, papel e discos rígidos e parece-me que és capaz de chegar à conclusão que de facto é caro. Mas a liberdade que te permite e a facilidade facilmente justifica um investimento inicial superior ao da fotografia analógica, mas onde o digital brilha depois é que os gastos em filme e revelação desaparecem. No final é bem capaz de te fazer poupar uns milhares de euros.

    A única que ainda admiro pela capacidade de dar uns abanões valentes é a Apple. Mas no fim do dia, são uns palhaços como os outros e espero que nunca passem dos 10% do mercado dos computadores.

    No dia em que isso acontecer o destino da Apple é ser a nova Microsoft, espero que o Steve Jobs tenha a inteligência de não seguir por esse caminho.


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