24
Set
08

Como vejo a nova Leica.

Tenho seguido a Photokina deste ano um pouco à distância, obras cá por casa obrigam-me a dar atenção a outras coisas igualmente importantes e com o advento da internet rápida é possível ler tudo à posteriori.
Mas não deixei de assistir ao lançamento da nova Leica S2 que irá, a partir do próximo verão de 2009, fazer parte de um novo sistema S que irá incluir máquina(s) e lentes (nove para já). Mas mais do que me debruçar sobre as qualidades da máquina, o seu preço, etc., interessa-me mais discutir algo mais intangível mas que lhe está inerente: a filosofia.

Repare-se que a Leica sempre foi um bastião do tradicionalismo na sua verdadeira acepção da palavra: nunca teve focagem automática, sempre se pautou por um sistema de máquina inventado há décadas, foi a grande resistente ao digital e nunca saiu desse bastião para fazer algo de novo. Até hoje.
Recentemente tive o prazer de trocar opiniões com o José Rui (autor do blogue Sargaçal) sobre a questão dos sensores e se o full-frame vai ou não dominar o mundo da fotografia, numa dessas mensagens perguntei-lhe porquê 24×36 e porque não 30×30 ou 36×36, o Rui respondeu que era um padrão aceite e que já vinha do filme de 35mm a que as pessoas se habituaram durante anos. Ou seja continuamos a perpetuar padrões importados de outra tecnologia apesar de ser possível hoje começar do zero em termos de tecnologia digital e criar novos padrões. O digital, nesse aspecto, não trouxe nada de novo nem de inovador, apesar de hoje a qualidade de imagem ser muito superior ao que é possível com a tecnologia analógica, ainda estamos ‘agarrados’ a concepções com mais de 30 anos…

Uma das ‘falhas’ de concepção que não compreendo, por parte de todas as marcas diga-se, é a falta de um sensor que só veja a luz ou seja um sensor que realiza apenas (e aqui o apenas é crucial) imagens a preto&branco, seja em Jpeg mas também em RAW, as possibilidades de uma máquina dessas seriam importantes porque ao libertar a máquina da cor deixa de ser necessária a conversão para p&b; aqui ganha-se em conveniência e em qualidade de imagem, questões como o balanço dos brancos, correcção de cor e ajustes nos canais RGB deixam de ser uma preocupação para o fotógrafo que apenas quer trabalhar a p&b e que, acreditem, são muitos.

Hoje apresentam o full-frame como a ‘solução’ que nos vai trazer melhor qualidade de imagem do que os sensores aps-c mais pequenos. Se em algumas situações tal é verdade, nem sempre podemos colocar a questão apenas desse lado porque hoje é possível com uma máquina de gama média – uma Nikon D90 ou uma Canon 50D – obter imagens com uma qualidade surpreendente. Mas encarar o tamanho do sensor como a única variável na escolha de uma máquina não é de certeza razoável nem sequer é a única variável a ser ponderada numa aquisição. Para mim há mais variáveis a ter em conta, nomeadamente o tipo de trabalho que vai ser realizado com a máquina:
a) Paisagem ou vida selvagem: no primeiro caso escolheria uma full-frame, no segundo uma aps-c. Primeiro porque há falta de boas lentes grandes-angulares para o formato aps-c, depois porque esse formato é a teleobjectiva da classe trabalhadora (perdoem a expressão), comparem uma 300/2.8 (já sei que penso em grande…): no sensor FF é uma 300/2.8 mas no sensor DX (aps-c) é uma 450/2.8; agora pensem que a 300/2.8 custa 5.000€ e que uma 400/2.8 custa 11.000€. Mas se lhe acrescentar um tele-conversor 1.4x passo a ter em FF uma 420/4 e em DX uma 630/4, aqui parece-me que a vantagem é para os sensores mais pequenos.
b) Se macro é realmente o que lhe interessa nem precisa de mais explicação: o sensor DX permite-lhe sem tubos nem gadgets passar da ampliação 1:1 para um 1:1.5 maior que a realidade, a maior profundidade de campo é um bónus acrescido numa disciplina onde cada milímetro conta.
c) Retrato e publicidade: FF, sem dúvida. Ficheiros maiores, melhor estética na passagem dos planos focados para os desfocados, fundos mais agradáveis são as razões que me levam a escolher um sensor FF.
d) impressão fine-art: FF, mais uma vez sem dúvidas; ficheiros maiores permitem impressões maiores sem introdução de artefactos digitais desagradáveis nas impressões.

Em face disto surpreende-me que na questão a) hajam pessoas a pensar trocar uma máquina DX por uma FF apenas para ter mais resolução para poder fazer crops dramáticos numa imagem e acabar com um ângulo de visão mais apertado – dando assim a sensação de que usaram uma lente de longo alcance – mas com uma resolução inferior quando têm em mãos a ferramenta indicada para obter as imagens que pretendem, com o dinheiro que gastam na passagem de uma Nikon D300 para uma Nikon D700 podem adquirir uma AFS 300/f4 da Nikon, ou podem considerar opções da Sigma ou da Tamron, e acabar com uma imagem com mais resolução que a máquina FF depois lhe fazer crops para obter o mesmo ângulo de visão.
(Para já e porque deixo essa questão para um futuro artigo não quero tocar na colagem de várias fotos – o stitching – para obter mais resolução até porque não é possível aplicar a técnica a todo o tipo de fotografia).

Como a tónica está, sobretudo na Canon, na resolução estratosférica dos sensores 35mm (deixemos de lado o médio formato) o caminho FF parece de facto o único possível nessa corrida pelo maior número de pixeis encaixados num sensor, nos sensores DX a questão do ruído, com a tecnologia actual, começa-se a levantar rapidamente; aí o FF é uma novo fôlego na corrida por mais e mais. Mas o tamanho dos sensores não é algo de fundamentalmente novo, a filosofia das marcas tem sido a de não mexer no que já é aceite e reconhecido pelos fotógrafos, mesmo que essa filosofia tenha décadas.
Mas aqui entrou a Leica com o seu novo S-Sistem com uma filosofia muito inovadora e adaptada à tecnologia digital: um tamanho de sensor adaptado às necessidades actuais de maior resolução mas ao mesmo tempo que permita ser incorporado num corpo compacto e transportável. O novo sensor com um tamanho de 30×45 é algo de novo, uma classe à parte e que nunca teve paralelo na fotografia actual: o terreno fértil e abandonado entre o 35mm e o médio formato. Nunca nenhuma marca se aventurou nesse território e até hoje a escolha era um ou o outro, agora porém a Leica diz-nos que não tem que ser forçosamente assim, podemos ter o melhor de dois mundos sem compromissos desnecessários; a Leica conseguiu assim meter num corpo do tamanho de uma Nikon D300/D700 um sensor que é 56% maior do que o sensor FF da D700 e com resolução três vezes maior, isto tudo com uma qualidade de imagem – expectável, por agora – muito próxima do médio formato. Mas a Leica decidiu também introduzir, pela primeira vez na sua história, a focagem automática, tudo somado parece-me que temos um novo capítulo na história da fotografia e que o estamos a ver ser escrito na nossa frente, de facto são tempos extraordinários para ser fotógrafo!

Parece que já estou a ‘ouvir’ os comentários de que é Leica, portanto exorbitantemente caro e restrito e que o comum dos mortais não vai conseguir comprar um ‘brinquedo’ deste calibre. De facto talvez não mas não é esse o interesse deste novo equipamento, o interessante é que vai forçar as marcas a sair das ‘caixas’ onde se catalogaram durante décadas e começar a pensar em formas novas de nos presentearem com equipamentos inovadores em vez de nos servirem o mesmo menu requentado que nos têm vindo a servir. O interesse da nova Leica é mostrar que é possível inovar e transgredir limites pré-estabelecidos e ao mesmo tempo apresentar um produto que é reconhecível como uma máquina fotográfica. E o impacto desta máquina pode abanar o mercado e as consciências estabelecidas de forma a que agora seja possível exigir algo radicalmente novo.
Espero por isso pela máquina a p&b…


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