06
Out
08

Pequenas dúvidas e incertezas sobre o futuro.

“Muitas são as coisas que um homem pode saber, vendo-as; mas, antes de as ver, ninguém pode profetizar o que se passará no futuro.”

Ájax – Sófocles.

Tem sido um ano para esquecer, este ano de 2008. E não só fotograficamente.

Hoje saí, depois do estio, para fotografar, após um período conturbado de obras, doenças e achaques vários. Mesmo nos períodos mais conturbados, a fotografia tem-me oferecido um porto seguro, de inspiração e que tem aquela boa capacidade de me aclarar as ideias; nada melhor do que ir fotografar às cinco da manhã depois de uma semana nada favorável para colocar tudo em perspectiva. Mas deixei-me dormir, apesar de ter acordado cedo, e acabei por sair tarde, mas como já estava tudo preparado avancei para Bertiandos para mais uma sessão inspirada.
De inspirada nada teve, saliento desde já. Não sei se me falta a inspiração ou se me falta a vontade, é um facto que quase não fotografei nada que se visse este ano; falhei por milhas todos os objectivos que me propôs e não terei sequer hipóteses de chegar perto mesmo que parasse tudo e só me dedicasse à fotografia, o que não é possível.

Mas encontro algumas razões externas à fotografia para esta falta de inspiração. O sector onde trabalho – sector bancário – tem andado pelas bocas do mundo nestas últimas semanas e não tem sido por boas razões. O tumulto tem razões que a razão desconhece, perdeu-se momentaneamente o rumo e o controlo da situação mas há lições a tirar desta situação e espero que sejam apreendidas.
Razões várias, que escapam ao âmbito deste blogue, têm-me levado a interrogar as pessoas com que trabalho e as suas atitudes numa clara tentativa de evitar um certo mal-estar latente e de claro compromisso. Mas a vida é feita de compromissos, isso parece-me óbvio. A saúde, apesar de já controlada, não tem ajudado.

Mas tudo parece minar a minha inspiração, como se a mesma tivesse sido sugado por um qualquer aparelho de aspirar inspiração. Nos últimos meses não acerto uma sessão, em cada sessão o número de fotografias decresce a olhos vistos a ponto de não ser difícil trazer para casa 50 ou 60 fotografias, muitas vezes num patamar que considero inferior ao que eu claramente consigo. Mas hoje ao fazer a viagem de volta, de carro e sozinho, aproveitei para meditar e a questão acabou por se deslindar quase sozinha. Primeiro notei um facto: que fotografo muito menos, segundo: fotografo menos vezes, logo a produção é menor. Debruçando-me sobre o porquê, chego à conclusão que a falta de inspiração não é a causa é apenas a consequência. O trabalho criativo precisa de exercício, sem exercitar a criatividade, tudo se torna mais complicado. A questão inevitável surgiu: porquê? Depois escalpelizei esse porquê de fotografar menos e a conclusão apesar de não ser bonita, apenas se deve a um factor: apatia. Apatia mental e física, acrescente-se. Preguiça de acordar cedo, preguiça de fazer a viagem de carro, preguiça de tudo e mais alguma coisa.
Olhando para a manhã que ficava para atrás à medida que os quilómetros avançavam, um outro factor dava-me razão: levei a mochila com a máquina e quatro objectivas: 24/2.8, 50/1.4, 85/1.8 e a 105/2.8 macro. Cheguei a Bertiandos com a 50/1.4 na máquina e saí de lá exactamente na mesma situação, ou seja eu não troquei uma única vez de objectiva, apesar que em várias oportunidades a troca teria sido relevante. A única explicação é novamente a apatia, neste caso mais mental do que física, não há outra explicação. É muito mais fácil não andar sempre a trocar de objectiva…

Se olhar para trás, verifico que tenho evitado levar as objectivas mais pesadas comigo, nomeadamente a 70-200/2.8 que é uma objectiva quase fulcral no meu trabalho e que no entanto tem ficado em casa. Não é por uma razão de qualidade nem de desempenho, simplesmente é muito pesada e fica para trás. No entanto, se olhar para as minhas galerias tenho algumas fotos de que me orgulho efectuadas com este zoom o que me leva a questionar a minha estratégia e método de trabalho. Sobretudo agora que ando a namorar lentes novas e preciso de olhar para ‘dentro’ da mochila e decidir o que vai embora e o que fica (mas isso é assunto para outro artigo). Agora é essencial vencer a inércia, colocar tudo nos eixos e avançar, olhar para dentro e encontrar a força criativa que obrigue tudo a girar de novo. O que é admirável é a minha vontade férrea de sair para fotografar, uma espécie de alarme, mesmo sabendo que depois não sai nada e que tudo corre mal, significa que ainda estou disposto a correr o risco de falhar e de repetir de novo.

Depois acresce o facto de cada vez menos me rever no modelo tradicional da fotografia de natureza (paisagem ou outro tipo) – os clássicos grandes espaços – e cada vez mais procuro um nicho, algo tão intangível como a procura de uma paisagem com a qual consigo uma ligação emocional e de intimidade. Mas isso pressupõe uma alteração radical na forma como ‘vejo’ a natureza e uma alteração de ritmo de trabalho e cuja adaptação não tem sido fácil, antes pelo contrário. Aqui tenho sido influenciado pelo Eliot Porter, o pioneiro norte-americano que trouxe a cor para a fotografia de natureza e cujo trabalho é exactamente o epíteto deste conceito de ‘intimate landscapes’, que aliás é o título de uma exposição sua no MoMa de Nova Iorque em 1972. Mas ainda é demasiado cedo para saber se realmente é este o caminho a seguir.

Ponto de situação: encontrar o motor de motivação capaz de me levar a fotografar mais e melhor, procurar o nicho onde encaixar as minhas fotografias, definir prioridades e resolver todas as pontas soltas que ficaram pelo caminho.


4 Responses to “Pequenas dúvidas e incertezas sobre o futuro.”


  1. Outubro 6, 2008 às 11:30 am

    Gostei da reflexão.
    Acho que estes são tempos difíceis. É fácil perder a vontade.
    A mim apetece-me fazer fotos que doam, mas também não tenho tido tempo nem energia.

    Fiquei esmagado com este site: http://www.xdrtb.org

    Coragem!
    ZM

  2. Outubro 6, 2008 às 6:52 pm

    zé Maria, obrigado pela força. De facto é fácil perder a vontade nestes tempo mais difíceis e realmente o que mais me queixo é dessa falta de energia que descreves.

    Já vi o sítio porque recebo a newsletter da TED e descarreguei o ficheiro Quicktime em HD para ver com calma, vamos ver quando arranjo tempo para isso. Obrigado pela dica, vale na mesma.

    Um abraço.

  3. Outubro 16, 2008 às 8:15 pm

    Mário

    ir a Bertiandos e sair de lá sem sequer tirar uma foto ou trocar de objectiva é… salutar. É sinal de que ainda nos maravilhamos com o que temos pela frente – eu fico assim quando lá vou – mesmo se não fizer uma foto. O estar lá é parte do processo para, num outro dia, se fazerem coisas novas – ali ou noutro local de que gostemos, porque acho que isso se aplica a vários pontos… se bem que também eu tenha um fraco especial pelas Lagoas. É claro que a situação actual não ajuda, mas a fotografia é remédio para alguns desses achaques… Sei-o porque ainda hoje de manhã palmilhei um pedaço da costa sintrense a olhar para as pedras, ondas e areia envoltas em nevoeiro e não fiz grande coisa. mas a desculpa da fotografia levou-me a sair dos rituais quotidianos, o que faz bem à mente.

  4. Outubro 19, 2008 às 6:00 pm

    Bem pelo menos arejei as ideias e vim de lá com algumas ideias frescas. Sei como gosta de Bertiandos e por isso ambos sabemos que é impossível resistir à beleza em estado selvagem das lagoas. Outro local que gosto bastante é do Corno do Bico e faz-me falta ir lá e passar lá um dia inteiro a bater umas fotos. Estas fases são sempre importantes para se avançar mas desta vez reconheço que a conjectura internacional assusta-me um pouco, sobretudo no ramo onde estou que está no epicentro do furacão.

    Um abraço.


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