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Out
08

Comprar ou não comprar.

Vivo rodeado de pessoas que descarregam 100% do software que usam via torrents ou fóruns onde são disponibilizados números de série para todo o tipo de software. De tal maneira que muitas vezes me interrogo se não sou eu que estou errado e se a prática não será também auxiliada pela política de preços que as próprias marcas impõem.

Gosto muito pouco de descarregar software, mesmo que grátis, se souber que a aplicação em causa não vai ter uso que justifique o espaço que ocupa, prefiro de longe ter poucas aplicações mas as poucas que tenho são usadas e têm valor acrescentado. Dito isto não me importo de pagar, dentro de valores razoáveis, as aplicações que tenho e não concordo com a descarga de software pirata. Mas as marcas têm-se colocado mesmo a jeito para este tipo de pirataria logo a partir do momento em que começaram a vender versões beta como versões definitivas…E exemplos não têm faltado. A Adobe lançou um upgrade para o LightRoom que retirou passado uns dias porque estava cheio de bugs, o primeiro Aperture estava tão inconstante que era quase impossível trabalhar com aquilo, a Epson teve um problema com as impressoras R1900 que não conseguiam imprimir com os perfis da ColorVision (problema esse que só foi resolvido pela Epson Austrália, o resto do mundo ficou com o problema nas mãos), o meu driver da Epson tinha um bug e não imprimia com o Advanced Black&White, o FireFox provocava crashes constantes nos iMac Intel, etc.
A filosofia agora é a de lançar o produto e esperar que quem compra descubra as falhas que por lá andam; dizem-me que com a proliferação de sistemas e máquinas no mercado nem era possível de outra forma. Talvez.
Outra coisa irritante são os upgrades a preços exorbitantes, de tal forma que muitas vezes nem compensa mudar para algo que ainda nem sequer se sabe como funciona.

Bem mas uma coisa é não concordar com esta filosofia e portanto a opção é não comprar a aplicação e não a usar, outra coisa é ‘roubar’ as marcas pela porta do cavalo. E isto lança-nos num círculo vicioso que ninguém quer terminar: as marcas queixam-se que são ‘roubadas’ e por isso não baixam os preços, quem pirateia diz que os preços são insustentáveis.
Mas existe algo mais perverso neste jogo que é o facto de já existir uma geração que não sabe o que é pagar por uma música, um filme ou uma aplicação de software e isso lança-nos – a nós fotógrafos – como o próximo alvo. Ninguém vai querer pagar por algo que está acessível para descarregar de graça na rede. Por outro lado muitos são os fotógrafos, especialmente os amadores, que descarregam furiosamente toda e qualquer aplicação de edição de imagem, desde que seja pirata e não custe um cêntimo. Conheço alguns que nem sabem bater uma fotografia aceitável mas que a editam no último Photoshop, descarregado via torrent ou coisa que o valha. Mas a mesma pessoa que o faz protege de forma draconiana as suas fotografias, afastando-as do domínio público e colocando ‘watermarks’ que se vêem a metros. Esta filosofia de fazer aos outros aquilo que não quero que me façam é no mínimo interessante e demonstra bem aquilo que temos pela frente: gente que não demonstra respeito pelo trabalho intelectual dos outros. E isto é ainda ampliado pelo ambiente anónimo da rede, onde posso ser o ‘dragonbeast666’ e ripar tudo o que me aparece pela frente e ao mesmo tempo ser um respeitado membro da nossa sociedade; talvez a questão (gasta já sei mas importante) é saber se estas pessoas fazem na vida quotidiana aquilo que fazem na rede? Deixemos os rodeios, isto é feito muito por causa da cobertura do anonimato que a rede proporciona.

É perceptível que esta prática me desagrada, mesmo que discorde frontalmente com a filosofia de venda das marcas, talvez porque percebo que os fotógrafos já são vítimas desta atitude de ter tudo de graça. O que é um facto é que algo que é gratuito tem forçosamente um valor perceptível bastante mais baixo do que se fosse comprado.
Não vejo fim nesta situação e por vezes sinto-me como o ‘burro que ainda compra’ música, filmes e software. Faço-o porque respeito quem cria as obras e gostaria que tivessem o mesmo respeito pelas minhas fotografias. Compro o que preciso, descarrego apenas se vai ter uso e uma das razões porque mudei para a Apple foi o facto de muito do software ter um preço bastante interessante, não é fora do normal existirem aplicativos a pouco mais de 20Usd cujo interesse é bastante acima da média: MacJournal, ImageWell, Pixelmator, entre tantos outros. Incomoda-me francamente dar 200€ por um plugin para o Aperture – como o Silver Efex Pro – que ‘apenas’ transforma imagens em versões a preto&branco mas se o faz bem e tem um lugar no meu workflow porque não? Face à excelente qualidade do programa posso equacionar pagar pela versão definitiva mas reconheço que é um preço exorbitante por um plugin. E arrisco-me que a Nik lance uma nova versão daqui a um ano e seja obrigado a desembolsar mais 100€ por um upgrade. Não é lógico nem concordo mas ninguém me obriga a comprar ou a fazer o upgrade.

Por outro lado nada impede quem quer retirar algo de graça de o fazer, excepto não estar aqui, e o aqui é na rede global e ponto final; apresentar o trabalho apenas em suporte papel e fazer exposições. Mas também aí nada impede que alguém digitalize uma fotografia em alta resolução e a coloque na rede sem o nosso conhecimento. A solução passa pela exibição de imagens em baixa (quando não baixíssima) resolução de maneira a não permitir que as imagens tenham qualidade suficiente para serem impressas, a não colocar versões de alta resolução em sítios de partilha online que permitam a descarga sem controlo e sobretudo não fornecer ficheiros de alta resolução ao primeiro que aparece, mesmo que sejam para divulgação.
Mesmo que a Adobe vendesse o Photoshop a 100€, em vez dos 900€ que custa, haveria sempre gente disponível para o piratear, a situação já está de tal modo enraizada que será difícil irradica-la. Mas tal não nos deve impedir de tentar…


4 Responses to “Comprar ou não comprar.”


  1. Outubro 24, 2008 às 11:35 pm

    então somos três, pelo menos…. que eu conheço mais um parvo assim… eu até o WinZip paguei…. e o Paint Shop Pro quando toda a gente achava que era grátis e era shareware que se pagava se se queria. Eu como o usava sempre achei que devia pagar… e compro toda a música e os filmes e assim…

    e concordo que mesmo com o PS a 100 (até a dez…) havia sempre quem o roubasse… porque é roubo. Sei de alguém que vendia um jogo de computador a 15 euros e mesmo assim a maior parte dos utilizadores, milhares cá e no Brasil, nunca o pagava…. era um de gestão de futebol…

    os Mercedes e carros de alta cilindrada (e os outros se calhar também…) só escapam porque não são feitos em software. Mas esses, levá-los já é roubo… Isto é, o tipo que rouba milhares de euros em software, roubam-lhe o Mercedes e ele diz que é roubo?

    boa noite Mário!

  2. Outubro 26, 2008 às 5:08 pm

    José, é um círculo vicioso, é um nunca acabr de vilanagem. Nunca percebi essa atitude de não dar o real valor ao trabalho dos outros sobretudo vinda de quem pode pagar mas prefere roubar. É a completa falta de respeito pelos autores…

  3. 3 JSantana
    Outubro 31, 2008 às 9:09 am

    Eu sou um vilão. Pois saco alguns progamas e músicas sem pagar, mas também pago alguns e compro música. “Roubo” software que nunca compraria devido ao preço, o mesmo se passa com a música.
    Acho que acaba por haver um certo equilibrio pois cada vez que compramos algo pagamos mais do que o seu justo valor, quer seja software, combustivel, música etc…

    Boas fotos.

  4. Outubro 31, 2008 às 7:28 pm

    JSantana: eu conheço pessoas que editam fotografias captadas com telemóvel – em jpg 640×480 – no Photoshop CS3, sacado como é óbvio nos torrents. É a melhor ferramenta paar eles? Claro que não! Ficavam bem melhor com um iPhoto (grátis nos iMacs) ou com o Photoshop Elements, mas de facto roubar o CS3 é outro estatuto.

    Não me refiro aqui ao seu caso mas há muita gente que mesmo que o software custasse practicamente zero ainda mesmo assim estariam dispostos a sacá-lo nos torrents. Não existem maneira suave de dizer isto e é um hábito enraízado em muita, mas mesmo muita, gente.

    Obrigado pela sua participação.


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