31
Out
08

Interrogações sobre tudo e sobre nada.

Acho que às vezes me preocupo de mais em vez de me ocupar, é a minha natureza. E ultimamente algumas dúvidas têm-me assaltado com alguma frequência, assim e por ordem de ideias aqui estão algumas delas:

1) Numa sociedade tão poluída visualmente qual é o real poder das imagens hoje?
2) Gastar dinheiro pode resolver a situação actual, ou seja fomentar o consumo será uma boa ideia?
3) Alguns problemas poderão ser efectivamente resolvidos atirando dinheiro para cima deles?
4) Full-Frame ou Aps-c?
5) Nikon ou Canon?
6) Galeria ou fotoblogue?
7) Ansel Adams ou Eliot Porter?
8) 2009 será melhor ou pior do que 2008?
9) A bolsa chegou ao fundo em termos de cotações ou ainda vamos ter mais descidas?
10) É boa altura para comprar acções ou vale a pena esperar?
11) AF-S Micro NIKKOR 60mm f/2.8G ED ou PC-E NIKKOR 24mm f/3.5D ED?

Algumas delas têm resposta imediata, outras não são facilmente respondidas em face da informação que circula e outras estão interligadas. Por exemplo a resposta à pergunta 11) depende da resposta à pergunta 4), a resposta à 10) depende da resposta à 9) e à 8). A resposta à 7) é simples: Eliot Porter… Evidente que a resposta à 5) é ambas!
Como vêem tenho muito por onde entreter a cabeça…

Mas agora a sério, parece-me que existe neste país uma certa falta de ‘foco’ nos temas que realmente interessam, hoje discute-se na classe política assuntos absolutamente laterais, sem maior interesse a curto prazo do que o perpectuar lugares e relações sombrias entre estado e grandes empresas. Num país onde há tanto para fazer na saúde, na educação e em tantas outras áreas onde somos claramente deficitários – isto apesar dos milhões gastos anualmente nessas mesmas áreas – hoje olha-se para o agora como se o amanhã não existisse. Obras megalómanas, ministros que passam para empresas privadas com que anteriormente negociaram contratos estatais, ingerência governamental na gestão de alguams empresas – veja-se o caso BCP – tudo feito ao mais completo arrepio das normas democráticas com que o país se deveriam reger, mas também ao arrepio do mais fundamental respeito que quem é eleito deveria ter para com quem os elege.
Por outro lado a crise internacional veio fornecer um ‘escudo’ bastante convicente para que durante os próximos anos o descalabro da nossa ecónomia se continue a justificar aos olhos da classe política que nos governa, no entanto existem razões mais profundas para que Portugal continue a marcar passo e dentro destas o endividamento do estado e das famílias será um dos principais. Desde os meados da década de 90 Portugal foi perdendo a capacidade de poupança e consequentemente a capacidade de se auto financiar, no mesmo período assistimos a uma baixa da taxa de juro o que tornou o acesso ao crédito mais facilitado. De repente foi o eldorado e os portugueses puderam comprar – de uma assentada só – tudo aquilo que tinha sido negado à geração dos seus pais: casa, carro, férias no estrangeiro, mobília e tudo o resto. No primeiro trimestre de 1999 venderam-se mais carros em Portugal do que durante todo o ano de 1998, os portugueses aproveitando a subida em flecha do mercado imobiliário compraram casa e carro recorrendo à hipoteca das habitações que adquiriam. Mas de onde vinha todo este dinheiro? Dos bancos estrangeiros que farejando o negócio prontamente disponibilizaram os milhões necessários para financiar tudo isto; ao mesmo tempo o estado financiava-se para construir tudo e mais alguma coisa, numa ânsia de betão e de alcatrão. Os milhões ‘jorravam’ da UE e eram prontamente gastos em obras fundamentais para o nosso desenvolvimento que hoje todos disfrutamos…
Com um cenário de subida de taxas de juro é o que se sabe: o estado começou a ficar curto de dinheiro para pagar os juros da dívida e o resto é o que sabemos: subida de impostos, cortes no investimento público, despedimentos na função pública (muitos deles necessários) e uma carga fiscal que é das maiores da Europa. As famílias essas rapidamente aprenderam que comprar a crédito era apenas uma forma de adiar os problemas e como foram desincentivadas a poupar viram-se em apertos orçamentais em tudo idênticos aos do estado. O resto é história…

E hoje onde estamos? Num país onde a solução que se arranja para contornar o espectacular (e caríssimo) falhanço do sistema de ensino é pura e simplesmente acabar com as reprovações, não é importante se o aluno sabe ou não a matéria, o que é importante é que não chumbe para não influenciar negativamente as estatísticas, é a aplicação – radical diga-se – da velha máxima anglo-saxónica de que se não consegues atingir os teus objectivos então é melhor baixar a fasquia. E o que me assusta mesmo muito é que esta gente que hoje frequenta a escola e que aplaude esta medida porque lhes vem facilitar imenso a vida (nem precisam de estudar, essa coisa maçadora) é precisamente a mesma que daqui a uns anos irá entrar no mercado de trabalho e tentar tornar as nossas empresas competitivas com o que de melhor se faz lá fora, infelizmente não lhes antevejo grande sucesso. Mas todos os anos são gastos alguns milhões estonteantes na educação! Para quê, para isto? Então dêm já o diploma a esta malta e mandem-nos de férias durante doze anos para qualquer lado, o resultado será precisamente o mesmo. Quem não quer ver isto hoje, bem devemos estar cá para assistir ao resultado dentro de breves anos.

Em tudo o resto Portugal é um marasmo, com uns paraísos criativos aqui e ali mas de facto a grande massa critica do país é constituído por gente que está mais interessado em saber o que o estado pode fazer por elas do que realmente desenvolver alguma coisa; seja na fotografia, educação, saúde, política, economia, etc. Portugal afunda-se em relação aos seus parceiros sem conseguir uma mais-valia em qualquer coisa que nos permita arrancar definitivamente deste lamaçal onde estamos metidos há mais de duas décadas.
Continuamos a ser bons no ‘desenrascanço’, essa atitude tão portuguesa de fazer algo para o qual não estamos minimamente preparados mas que achamos que estamos, no compadrio, na ‘cunha’, no dar ‘um jeitinho’ a um amigo de infância, no contornar um buraco legal na lei – sabe-se lá deixado por que razão… -, no desencantar o dinheiro que dê para sobreviver às prestações que se foram acumulando, etc. Ou seja não somos realmente bons em nada que nos permita destacar positivamente numa Europa a vinte sete e assim, lamento informar e dar já a má notícia, continuaremos porque não vejo garra na classe política para alterar este estado de coisas.

Assim resta-nos um país sobreindividado, a viver à sombra de glórias de há 500 anos, sem futuro que se dislumbre. E a solução não passa por Espanha, passa por todos nós, passa por ter orgulho num país com uma história fantástica, capaz de criar hoje capital intelectual que seja a força motora de obras que rivalizam com as do passado, passa por ter um país que não tem medo de ter maus alunos, que seja capaz de os apoiar e de premiar os melhores, passa por ter empresas bem geridas por gente capaz e sem medo de arriscar. A solução passa por deixar o fado para os cantores e o choradinho para aos ranchos folclóricos. A solução são cada vez mais os portugueses que percebem que é com o mérito, brio, profissionalismo que vamos a algum lado, e não, com certeza, com pancadinhas nas costas, compadrios e facilitismos.


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