16
Nov
08

O tempo (realmente) voa.

Parece um pesadelo mas de facto o tempo voa e cada vez mais parece que não tenho tempo para nada. Olho à minha volta e ainda vejo os ‘destroços’ das obras que tiveram lugar cá por casa em Setembro e que se resumem a uma completa e total desorganização no escritório, a sala ficou pronta mas de repente verifico que a impressora já não é ligada há mais de dois meses e preciso de imprimir várias imagens com urgência, o artigo deste mês da FotoDigital ainda não está pronto, as imagens que fiz em Bertiandos há duas semanas ainda não estão totalmente seleccionadas e editadas, enfim é um rol de tarefas sem fim à vista… e comprei uma lente nova que ainda está dentro da respectiva embalagem – o que me salva é que é uma lente de ‘brincar’ e por isso não há urgência nisso.

Numa época em que não preciso de perder tempo para fazer quase tudo, que agora com a internet está à distância de um clique, esta constante falta de tempo parece uma contradição mas é muito real, com esta acessibilidade constante perco imenso tempo a fazer nada que depois falta para completar as tarefas importantes. Gasto imenso tempo na rede a ler dezenas de jornais, desde os portugueses até aos dos EUA, a ver fotografias espalhadas por sítios (intermináveis) de partilha e o relógio não pára mas por outro lado o conhecimento não aumenta na mesma razão, dá mesmo a sensação de que sei cada vez menos.
Esta incessante procura provoca uma angústia permanente nos leitores: pode haver uma notícia algures, na rede ou em algum canal de tv, de capital importância e que se nos escapa, isto transforma-nos em devoradores de informação sem na realidade chegarmos a ‘absorver’ nada do que lemos; esse é de facto o drama dos nossos dias.
E, de algum modo, sinto-me priveligiado porque trabalho cinco dias por semana e consigo sair por volta das 17:30. Mas sinto uma ‘urgência’ real em fazer tudo e ao mesmo tempo nada, acabando invariavelmente com a sensação de que me falta fazer alguma coisa, o quê não sei… Por outro lado fico com a sensação de vazio, que na verdade não aprendi nada de importante e que poderia ter gasto essse tempo a ler um livro ou a ouvir um disco. É o grande dilema da inundação informativa que nos rodeia: escolher. Escolher significa sempre uma opção, deixar algo para trás, percorrer um caminho e não outro; escolher é difícil porque implica sempre uma perda – qualquer que ela seja.

É por outro lado o grande dilema da fotografia actualmente, andamos tão ocupados a ver tudo, ler tudo e ouvir tudo que nos fica pouco tempo para ser criativos e inovadores. Entretidos a falar e ser ouvidos esquecemo-nos do mais importante: fotografar. Que deveria ser o mais importante para um fotógrafo, digo eu. Nas interacções ‘digitais’ ganhamos contactos mas perdemos as boas imagens que estão lá fora e que infelizmente não esperam por ninguém nem é possível colocar em modo de espera para mais tarde captar.

Saiam mais, fotografem mais.


4 Responses to “O tempo (realmente) voa.”


  1. Novembro 16, 2008 às 10:38 am

    Não tenho pensado noutra coisa, senão nisto!

  2. Novembro 16, 2008 às 8:13 pm

    É o mistério dos nossos tempos, a tecnologia deveria libertar-nos mas de facto parece que cada vez mais temos menos tempo…

  3. Novembro 20, 2008 às 8:31 pm

    Meu amigo
    O teu problema, é existêncial. De facto à medida que o tempo passa…ficamos com a ideia do tempo perdido, do vazio como dizes. Desculpa estar-te a tratar por tu, mas sinto que não andamos muito longe um do outro. Dizia eu, neste caso é mais, escrevia eu, a angústia do querer fazer aquilo que não se sabe, e no nosso caso é bem premente essa ausência do ir para Bertiandos ou para outro lugar longe do mundo, e nos isolarmos de tudo, não é? O teu conselho é a única saída para este dilema. Penso que seja o outro lado do espelho. ( L.Carrol) Encontrarmos o outro nosso eu. É simples dentro desta complexidade que se tornou o nosso outro tempo ausente, com todos os meios e equipamentos, mesmo ali à mão. Nem tens tempo para te libertares, e organizares. Se calhar não queres. Estás preso a isto.
    Somos iguais. Gostas de escrever, analisar, observar, atrás do espelho, segues os teus instintos. É mesmo assim, já não há nada a fazer. Recordas-me um grande homem, pensador, que foi meu professor na então ainda Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, António Sena (Tó). Homem muito dedicado à fotografia, sobretudo à sua reflexão e estudo. Deixei de ouvir falar dele. Sei que se chateou com o ensino e zarpou para a Madeira. Tem alguns livros publicados e sei que também estão esgotados há muito tempo. Tenho procurado, mas infelizmente ainda não encontrei nada. Presto-lhe aqui esta homenagem, porque sei que foi mal compreendido, ou entendido. Era um professor muito exigente, do ponto de vista do saber. Exigia-nos Saber, sobretudo não de muitas coisas mas de poucas grandes coisas. Não nos deixar-mos ficar pela superficie das coisas, (…) respirem fundo, tapem o nariz e mergunhem, vão mesmo ao fundo. Era assim. Um dia iniciou uma aula, sobre fenomologia, alguns dos meus colegas estavam sempre à espera do inesperado, então começou por dizer (…) que se não se basta achar que se é inteligente, ou muito inteligente, é preciso utilizar essa inteligência, e tira do bolso um canivete suiço e pergunta para a auditório. Sabem utilizar isto. E o pessoal encolheu os ombros. Isto serve para que numa determinada situação se utilize. E como se pode utilizar este precioso instrumento de design. Design, porque grande parte de nós eramos pretensos futuros designers. Então já com o canivete aberto, mas com a parte da serrilha, que naquele caso era algo cumprida, pegou numa cadeira de estirador, estás a ver, e começou à vista de todos a serrar aquela parte mais saliente do encosto. Houve quem ficasse de boca aberta e tudo. Mas de facto foi uma optima introdução para a fenomologia. Falou-nos nessa tarde também de Ponge. Tens razão, temos que continuar a fotografar, registar, ou como diz o nosso amigo comum, João Cosme, procurar mostrar aquela diferença do olhar, é preciso mergulhar fundo, nem que seja só no nosso jardim. Desculpa se me estendi. Um grande abraço.

  4. Novembro 21, 2008 às 1:28 pm

    Jaime, belissímo comentário, merece quase destaque por si só. Começo realmente a pensar se toda esta catadupa de informação – blogues, fotoblogues e afins – não nos estará a afastar do que interesse: fotografar. Nao é possível, na minha opnião, ser um bom fotógrafo sem exercitar constatemente o acto mecânico de fotografar, por outro lado é fundamental procurar novas olhares e novas maneiras de fazer fotografia, de um modo criativo e original. Ter uma boa câmara é importante mas mais importante é saber o que fazer com ela mas sem esquecer que esta é apenas uma ferramenta de ‘trabalho’, e nos últimos tempos tem sido fácil elevar os equipamentos a gadgets da moda, esmiuçá-los como se fossem os únicos elementos da equação que interessa.

    O exemplo que falas é de alguém que vê para além do óbvio e que quer ir um pouco mais longe, no uso que dá às coisas e lhes encontra uma utilização para além do que é a norma e são essas as pessoas que encontram um factor criativo em tudo o que fazem.

    Gostas de escrever, analisar, observar, atrás do espelho, segues os teus instintos. É mesmo assim, já não há nada a fazer.

    De facto já não há nada a fazer, sou mesmo assim. Mas gostava às vezes de fazer mais e melhor e sentir que estou a fazer o meu melhor. Nem sempre é assim e confronto-me com esta ânsia de tudo saber e tudo analisar, deveria saber parar mas sou assim…

    Recordas-me um grande homem, pensador, que foi meu professor na então ainda Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, António Sena (Tó).

    Esta tua comparação, peca por exagerada. Sou apenas um interessado pela fotografia, gosto dos aspectos técnicos mas também de perceber o que é a fotografia mas estou longe de ser um pensador no estricto sentido do termo, talvez mais no sentido lato ou talvez um curioso.

    Este foi talvez um dos melhores comentários que aqui li e agradeço-te o facto de o escreveres e de o publicares aqui.

    Um abraço.


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