26
Nov
08

Estar preparado para tudo e para nada…

Li recentemente um artigo que dizia que um fotógrafo amador que está preparado para tudo em termos de equipamento não está na realidade preparado para nada. O argumento era defendido com a seguinte tese: quem tem muito por onde escolher acaba limitado pela escolha e indeciso sobre o que escolher e tem uma probabilidade maior de fazer uma má escolha. Portanto o factor equipamento, neste caso excesso do mesmo, é um factor limitador da criatividade de um fotógrafo amador.

Em teoria não vejo nada de errado nesta linha de pensamento, porém na pratica não é (sempre) assim. O equipamento não faz um fotógrafo, como aliás os pincéis não fazem um pintor, e pensar o contrário – atirando dinheiro para cima do problema – é o caminho para um poço sem fundo onde o limite é a carteira de cada um sem uma correlação estreita entre o dinheiro gasto em equipamento e o output criativo. Basta olhar para o que nos rodeia e ver que existem muitas pessoas com um nível criativo muito acima da média e cujo equipamento é perfeitamente banal, no entanto considero que um fotógrafo criativo não consegue expressar o mesmo nível de produtividade com ferramentas diferentes, o que me leva a concluir que o nível de empatia com o equipamento é um dado relevante a incluír nesta discussão.

Em 1989 quando fiz o serviço militar obrigatório tinha na minha companhia dois condutores de pesados cujas atitudes eram completamente diferentes: um motorista de TIR, calmo, sereno e equilibrado, o outro condutor de perícias, completamente desalinhado, irreverente. O primeiro tratava o equipamento com respeito, o outro fazia o que queria e esticava os limites em tudo o que conduzia, desde que tivesse quatro rodas e um motor tudo era possível. Lembro-me perfeitamente de o ver a conduzir uma Berliet do tempo da guerra do ultramar como se fosse um mini, ele estacionava o monstro de vários metros e toneladas, a alta velocidade e em marcha-atrás entre os restantes camiões sem nunca ter partido um espelho – para aproveitar o espaço da garagem militar os camiões eram estacionados a centímetros uns dos outros. Um dia pressionado por um cabo apostou que conseguia fazer perícia com uma dessas Berliet, viu-o sair da garagem pegar numa mangueira molhar o chão ligeiramente e depois tirou a Berliet, o resultado foi irreal e deixou-nos de queixo caído, especialmente militares que conduziam estes camiões há anos…

O que nos leva à segunda história: li numa revista francesa uma reportagem sobre o fotógrafo francês Ghislain Simard. Nada de especial até que reparei no material que usa para grande parte das fotografias macro que realiza: uma 200/2 e uma 400/2.8. São dois ‘monstros’ habitualmente usados em fotografia de vida animal e que cujo habitat natural, pelas suas características e preço, se adaptam de maravilha a essa especialidade. Eis que alguém se lembra de pegar em objectivas cuja focagem limite é cerca de dois metros e toca de fazer fotos macro – embora tecnicamente não possam ser apelidadas como tal. É que nem financeiramente se percebe a escolha mas depois de ler o artigo percebo que o que lhe interessa é manter uma distância grande entre si e os insectos e desfocar os fundos ao mesmo tempo daí a sua escolha fazer todo o sentido. Também percebi rapidamente que o arsenal de objectivas e flashes que usa põe qualquer um de cabeça à roda.

Destes dois exemplos tiro uma conclusão: criativamente não há duas pessoas iguais com necessidades idênticas de equipamento. E que há pessoas que precisam de se esforçar mais para conseguir melhor output criativo e que outras precisam de mais ferramentas para extrair esse mesmo resultado. O caminho inverso – o de achar que pela aquisição se chega a bons resultados – é ilusório, particularmente logo após a aquisição porque a vontade de experimentar o ‘brinquedo’ novo leva, geralmente, a um pico de criatividade e actividade. Os bons conseguem manter e aproveitar esse pico, os restantes avançam para a próxima aquisição. Por exemplo o Vincet Laforet, um excelente fotógrafo, utiliza uma carrada de objectivas e câmaras Canon, a lista de equipamento que usa faz a delícias de qualquer ‘marrão’ fanático da Apple/Canon. Por outro lado temos Sebastião Salgado, uma Leica e três objectivas e estamos conversados; quem acha que não estamos na presença de um dos grandes fotógrafos do séc. XX precisa de olhar novamente para a história da fotografia. E o que dizer de Wallace Billingham que faz fotografias sobrebas com uma Lomo Holga e filme de infravermelho? E Annie Leibovitz usa três sistemas: Leicas analógicas para as fotografias domésticas, um sistema Canon digital para trabalhos onde é preciso uma certa agilidade e por último um sistema de médio-formato digital para os grandes trabalhos em estúdio.

E podia estar aqui a enumerar exemplos eternamente, existem elementos em ambos os lados da barricada – os que usam um equipamento minimalista e os que usam um catálogo inteiro – em número sufuciente, sem conseguir chegar a uma conclusão efectiva. E no entanto é fácil cair em generalizações que mais não são do que pequenas provocações: ‘é bom fotógrafo, eu com aquele equipamento todo também era’ e ‘tanto dinheiro gasto em equipamento e não faz uma fotografia que se aproveite’ são dois dos argumentos que mais se esgrimem sem tocar no miolo do essencial: não há dois fotógrafos iguais e com as mesmas necessidades de equipamento. Por outro lado existe uma questão muito interessante que é saber se o equipamento pode ter o efeito perverso de limitar o resultado que um fotógrafo amador consegue obter, ou seja se o equipamento pode ser o factor limitador, castrador quase, para obter um resultado final excelente, e se é possível que seja mesmo o factor impeditivo de progressão.

Se acham que precisam de 13 ou 14 objectivas como é que é possível alguém dizer que têm equipamento a mais? Ou a menos? Particularmente se conseguem ser criativos e produzir boas fotografias, mesmo utilizando o equipamento fora da sua utilização esperada. Mas fora do campo profissional onde a aquisição de grandes sistemas câmaras/lentes é difícil de justificar podem existir razões mais fortes para ter o equipamento além do prazer de o ter. Como a barreira entre amadores sérios e os profissionais se esbate a cada dia que passa é natural que os amadores precisem de equipamentos cada vez melhores para obterem resultados melhores (excluo deste grupo aqueles que compram os equipamentos não como ferramentas mas como sinais exteriores de um certo novo-riquismo ou ostentação, compram porque podem comprar e não porque precisem dos mesmos e sempre os houve na fotografia, não cresceram de repente na era digital) até para conseguirem competir no terreno com os profissionais.

Durante a carreira de um fotógrafo as suas necessidades mudam constantemente e é natural que determinada lente ou câmara seja facilmente relegada para segundo plano ou que o obriguem a trocar essas ferramentas por outras mais adequadas à sua visão do momento, aliás à medida que o fotógrafo encontra a sua visão pode muito bem descobrir que o que está entre ele e a essa visão é uma escolha menos acertada em termos de equipamento ou que a lente X, parada já há vários meses (às vezes anos), de repente tem uma utilidade. De facto se olharmos para estes gadgets electrónicos como ferramentas percebemos que a sua escolha deve ser o mais dinâmica possível, trocando, vendendo e comprando equipamentos à medida que necessitamos deles. E nada mais.

E agora leitores olhem para a mochila e digam-me o que lá está a mais, o que deveria lá estar e o que precisa de ser substituído. O que encontram? Eu vou olhar para a minha e respondo via comentários…

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5 Responses to “Estar preparado para tudo e para nada…”


  1. Novembro 26, 2008 às 2:35 am

    Óptimo artigo!
    Adorei os exemplos dos fotógrafos citados, a dicotomia das situações generalizadas e o apontamento da questão central.
    Só não acho que haja possibilidades reais de ter uma grande dinâmica de trocas, vendas e compras de equipamento.

    O que eu mais queria ter era uma lente 24-50 f/2.8!
    Na minha mochila anda uma Canon AE-1 Program (herdada do meu pai), acompanhada de uma 50 f/1.8 (igualmente herdada), uma 24 f/2.8 e uma 35 f/2.8. As que uso mais são a 24 e a 50 e por isso o zoom seria perfeito, já que não faz nada bem à máquina andar constantemente a trocar de objectivas.
    Ainda tenho medo das slr digitais e não me consigo acostumar à ideia de fotografar com objectivas que abrem, na melhor das hipóteses, a f/3.5.
    Também não me importava de ter um tilt and shift!

  2. Novembro 26, 2008 às 10:11 am

    Ora bem, olhei para o fundo da mochila e do que vi – e vi muito! – há lá meia-dúzia de coisas que precisam de um ‘arranjo’:

    1) anda lá uma 28/2.8 Nikon AF que não uso há mais de três anos, portanto é para vender…
    o zoom 12-24/4 DX se calhar segue o mesmo caminho.
    2)tenho uma 180/2.8 e uma 85/1.8 que raramente têm uso mas ainda não decidi o que lhes fazer, se comprar uma 200/4 macro a 180/2.8 é, provavelmente, para vender; em relação à 85/1.8 só troco por uma 85/1.4 ou 1.2 AFS mas como ainda não existem na Nikon para já fica.
    3)gostava de ter uma 24/3.5 PC-E mas como a objectiva só tem interesse num sensor full-frame a questão está adiada.
    4) na senda de ter o trio de objectivas macro Nikon o meu próximo objectivo é uma AFS 60/2.8 macro.
    5) tenho demasiadas objectivas…o que choca com o ponto anterior mas eu sou assim, um ser pleno de contradições…

  3. Novembro 26, 2008 às 10:42 am

    Na minha mochila não há muita coisa, por isso também não tenho muito para deitar fora. Tenho uma 70-300 AF G, que veio com o kit da F80, que uso pouco.
    Por outro lado, falta-me lá a Tokina 11-16, a 80-200 2.8 e um flash em condições. Além disso, gostava de ter um conjunto de filtros Hitech e um conjunto de reflectores para retrato na rua.
    Contudo, o principal item que me falta na mochila é tempo.

    Conheço muito boa gente que tem claramente material a mais e, no momento de fotografar gastam toda a energia criativa a trocar sucessivamente de lentes e no fim não sai uma foto que se veja. Quando vou para algum lado com o objectivo de fotografar levo o mínimo possivel. Quase sempre utilizo apenas a D80 e a lente que vinha de origem, uma 18-70 AF-S DX, que acho fabulosa.

    Um abraço.
    ZM

  4. Novembro 26, 2008 às 10:44 am

    “Só não acho que haja possibilidades reais de ter uma grande dinâmica de trocas, vendas e compras de equipamento.”

    Diogo, eu acho que é natural que haja uma dinâmica de trocas de equipamento, agora não acho natural que alguém ande a fazê-lo constantemente, isso só significa que as compras são feitas por impulso. Agora se alguém compra uma objectiva, a usa durante uma boa dúzia de anos, ou até meia-dúzia, e depois chega à conclusão que já não se encaixa nas suas necessidades, então acho que a deve trocar, vender ou adquirir uma nova.

    Pessoalmente gosto de trabalhar com objectivas com aberturas de 2.8 ou inferior porque me permite trabalhar a profundidade de campo de um modo mais criativo.

    Um abraço.

  5. Novembro 26, 2008 às 10:54 am

    “Conheço muito boa gente que tem claramente material a mais e, no momento de fotografar gastam toda a energia criativa a trocar sucessivamente de lentes e no fim não sai uma foto que se veja.”

    Não concordo com essa afirmação. E o meu artigo fala exactamente disso. Existem de facto fotógrafos que usam uma carrada de equipamento e são suficientemente criativos para serem considerados os melhores entre os melhores, vê o exemplo do Laforet. Não existe uma correlação estabelecida e matemática entre a quantidade de material e o resultado criativo nem pode haver, as diferenças entre fotógafos é tão vasta que o equipamento de sonho de um é o equipamento de pesadelo do outro.

    “Quando vou para algum lado com o objectivo de fotografar levo o mínimo possivel.”

    Eu também mas isso não me impede de selecionar o equipamento que levo entre a ‘tralha’ toda que tenho, a selecção é feita em casa em função daquilo que vou fotografar e isso fica para outro artigo…


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