02
Dez
08

Control – o filme.

control-dean

Escrevo este texto pela perspectiva de alguém que é um fã incondicional dos Joy Division, cresci a ouvi-los e tenho-os como um dos grupos mais influentes de sempre. Dito isto, avanço para o filme.

Comprei a edição especial em dois dvds por um preço aliciante – 11.95€ – e na primeira oportunidade não resisti a vê-lo. O filme da autoria de Anton Corbjin é baseado na obra Touching from a Distance, escrito por Deborah Curtis, a viúva de Ian. O preto&branco adapta-se à história mas já é um cliché na obra do realizador/fotógrafo e o filme aguentava bem a cor, embora numa tonalidade mais des-saturada, nada de novo aqui portanto.

O que mais me espanta no filme é a falta de ‘dimensão’ nas personagens, quase todas são transpostas para o ecrã de uma forma unidimensional, sem tensões nem contradições, fazendo apenas o que se espera delas, e o caso mais gritante será o de Annick Honoré que no filme não passa de uma personagem perdida no sentido mais literal da palavra. De Annick não retemos uma única sentença ou frase que a defina como ser humano, no centro de toda aquela tragédia, e talvez um dos catalizadores para o desfecho da história. É pena mas não é caso único, o papel de Tony Wilson e da banda não é clarificado nem preciso em todo o desenrolar do filme e a banda não passa mesmo de um adereço que era necessário colocar lá e pouco mais, na realidade e como se veio a verificar nos restantes membros dos Joy Divison existia uma força criativa que transbordou para os New Order com os resultados que se conhecem.
Toda a situação de conflito interno de Ian é descrita a vol-de-oiseaux e exemplo disso é abordagem à situação profissional que num take particularmente desinspirado é atirada para o enredo – numa conversa sem sentido entre o chefe de Ian e o próprio – onde Ian é pressionado a escolher entre a banda e o emprego no centro de desemprego mas que depois não tem continuídade na narrativa. Por todo o filme abundam pontas soltas, peças narrativas sem saída e situações não resolvidas. A própria narrativa da relação Ian-Deborah-Annick está minada por clichés, Ian é o autor semi-louco e apaixonado pela mulher errada e que não quer tomar uma opção, Deborah a mulher que faz tudo pelo marido que a humilha e Annick é o amor inconsequente, mais banal era difícil…

Hoje, passados 28 anos, era preciso talvez abordar o tema com uma outra espessura e isenção, e o facto de Deborah Curtis ser a produtora não ajuda muito nessa matéria. Em termos puramente biográfico poderá ser interessante para conhecer a história de Ian curtis mas a sua contextualização na época e na história da música não é feita nem as relações dentro da banda são claras. Parece que as outras personagens são transparentes e que não têm uma ligação intíma com Ian, o que se lamenta sobretudo a ligação com os outros elementos da banda.
As tensões, dúvidas e todo o sofrimento de Ian são desbaratados a troco de uma certa tentativa de meter tudo num filme de 117 min., é um facto que não o conseguiram. De fora fica muita coisa, talvez o mais importante, que na minha opinião é o de saber qual o estado de espiríto com que Ian se confrontava para escrever algumas das canções mais tristes e soturnas da história da música como a conhecemos, de como todo o seu conflito interno no triângulo amoroso onde se colocou o influenciou a tomar a decisão de pôr fim à própria vida. Faltam dados, espessura dramática e dimensão às personagens para o sabermos. Um flop, portanto. Salva-se a fotografia, valha-nos ao menos isso.

Para colmatar estas falhas o melhor será avançar para a leitura de entrevistas, nomeadamente a de Deborah Curtis ao The Guardian, a de Annick Honoré ao Side Line e uma visita ao photostream no Flickr de Barney’s Angels que tem uma colecção impressionante de fotografias da banda New Order (e de Annick também), reproduções de entrevistas, etc.
Outra fonte de informação é o livro Torn Apart: The Life of Ian Curtis de Lindsay Reade, ex-mulher de Tony Wilson e que se baseou na troca de correspondência entre Ian Curtis e Annick Honoré.

No global fica-se à espera de mais e melhor mas não deixa de ser um biopic interessante para quem quer conhecer a história da banda e depois se aventurar na música, que aliás é um pouco esquecida no filme. Duas horas de filme para ver e não sei se resistirá ao tempo, encaro-o mais como um documentário incompleto e como mais uma peça entre tantas para se entender Ian Curtis e os Joy Division. Se ficar a vontade de conhecer a música já serviu para alguma coisa.

Nota final: os links dos livros são para a minha loja da Amazon. Boas compras.


6 Responses to “Control – o filme.”


  1. Dezembro 5, 2008 às 2:29 am

    Acho esta crítica bastante injusta. Gostei bastante do filme e a única coisa que me incomodou foi a cena Tony Wilson mais os contratos da treta assinados com sangue. Uma palhaçada dispensável.
    Para ti até a música foi esquecida, quando na verdade é omnipresente em todo o filme e chega ao cúmulo de ser tocada ao vivo pelos actores. Que são bons e o Sam Riley é o Ian Curtis chapadinho, não me custa nada imaginá-lo exactamente assim.
    Gosto muito dos Joy Division e desilude-me bastante chegar ao Norte Shopping e tê-los como música de corredor. Talvez seja uma prova da sua qualidade musical, ter chegado de 1979 até aqui. Para mim é mais uma prova da banalização global de tudo. Mas, depois de ver o filme, fiquei com a certeza de uma coisa que já desconfiava:
    Este tipo de música é muito simples, rudimentar mesmo. Os actores tocaram com grande nível em apenas 15 dias alguns dos melhores temas da banda. E tanto tocavam dos Joy Division como de 90% das bandas da época — talvez um dos difíceis de imitar fosse o Johnny Marr dos Smiths. É a maior parte da música que ouço, mas encaremos os factos, estes tipos de génio têm pouco ou nada.

  2. Dezembro 5, 2008 às 11:48 am

    Acho esta crítica bastante injusta. Gostei bastante do filme e a única coisa que me incomodou foi a cena Tony Wilson mais os contratos da treta assinados com sangue. Uma palhaçada dispensável.

    A questão principal é: gostaste do filme porque és fã dos Joy Division ou porque o filme é bom? O filme é relativamente desinteressante, como documento é bom. Lembra-me o filme ‘Sid and Nancy’ que sofre exactamente do mesmo mal, contexto com a época (que é basicamente a mesma – finais dos ’70 a inícios dos ’80)quase inexistente, muita palhaçada (outra cena muito dispensável é aquela onde o Ian telefona aquela miúda epilética que tinha estado no centro de emprego e descobre que ela faleceu), muito rock’n roll e pouca uva.

    Para ti até a música foi esquecida, quando na verdade é omnipresente em todo o filme e chega ao cúmulo de ser tocada ao vivo pelos actores. Que são bons e o Sam Riley é o Ian Curtis chapadinho, não me custa nada imaginá-lo exactamente assim.

    O processo de criação foi totalmente esquecido. Onde é que vês como o grupo trabalhava em conjunto? Onde vês a composição das letras e da música? Em lado nenhum. O facto de tocarem ao vivo para mim só reforça a ideia que Anton tinha nas mãos algo de especial que depois não soube concretizar…

    Digo-te que ainda recordo o filme algumas vezes mas porque me traz à memória a música dos Joy Division que dizes que é simples mas isso é apenas a demonstração do génio criativo do grupo. Repara que é de génio conseguir fazer algo tão brutal e belo como a música dos JD com elementos tão simples, mas repara bem no baixo e como revolucionou a maneira como o baixo é tocado desde essa altura, a percussão é a mesma coisa, orgânica e ritmada como poucas. As coisas mais geniais são muitas vezes as mais simples: Rothko, Pollock são dois exemplos na pintura e há muitos outros em todas as áreas, Ron Arad no design, Alvaar Alto na arquitectura.

  3. Dezembro 5, 2008 às 2:26 pm

    Não sei distinguir. No fim gostei, mas suponho que seja insuportável para quem não goste da música ou daquelas ondas. Mas o próprio realizador diz que é uma espécie de documentário, filmado com aspecto de documentário.

    Ouve lá, queixas-te que é documento, mas para a música querias mais documento, não é documento que chegue? Acho que tens opiniões contraditórias.

    Só pode ser super-simples. Aqueles tipos tocaram como se vê em 15 dias, ou é o que dizem. A menos que sejam uns Mozart, a perderem-se como actores. Eu não vou deixar de gostar do que gosto porque é simples, pelo contrário. O que acho é que musicalmente, não há grande mérito. Para eu próprio ser rudimentar, digo-te o seguinte: Acho que há mais decadência ao passar-se da música de câmara para os Joy Division, que o inverso. Aqueles amiguinhos, em 15 dias, não tocavam música a sério.
    E quanto à arquitectura, design, não julgo que se possa comparar. Até podem ter entrado na “arte” nesses casos, mas não é essa a essência de uma área e outra.

  4. Dezembro 5, 2008 às 3:14 pm

    Ouve lá, queixas-te que é documento, mas para a música querias mais documento, não é documento que chegue? Acho que tens opiniões contraditórias.

    Como documento safa-se mas podia ser melhor. Como filme é sofrível…

    Ser simples não lhe tira o mérito, acho que marcaram uma época de forma determinante (pelo menos em termos musicais) e conseguiram resistirà passagem do tempo. Repara que hoje tens os Interpol (que gosto) e os Editors (que não gosto) a tentar seguir as pisadas dos Joy Division, embora com resultados diferentes; a tendência é copiar ou apropriar-se das ideias das referências em qualquer campo e neste caso e neste tipo de música os Joy Division são, claramente, uma referência.

  5. Abril 12, 2009 às 11:25 pm

    Vi o filme este fim-de-semana, porque encontrei a mesma edição que tens (mas ainda mais baratinha ;) ).

    Gostei bastante, parece-me um biopic interessante, sem grandes artíficios, simples. Uma das melhores biopics do género que conheço. Mais tarde elaborarei uma review mais pormenorizada do filme, porque a hora não me permite mais.

    Abraço


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