21
Jan
09

Entrevista com…José Duarte.

Tenho seguido a (para já) curta carreira do José Carlos Duarte e tem sido alguém que tenho colocado no meu radar como uma sólida aposta na fotografia recente portuguesa. José Duarte começou no flickr mas sempre com boa fotografia, com composição tranquila e sólida. As suas paisagens urbanas retratam bem o lado desolado e desumanizado das nossas cidades, com a aposta no formato quadrado do médio formato analógico a reforçar ainda mais esse lado fechado da arquitectura urbana e industrial.
José Duarte constrói um mundo próprio que se alimenta da melancolia dos espaços urbanos e que nos devolve pequenos ‘frames’ de um filme inacabado, sem personagens que o habitem. Mesmo o seu trabalho de retrato acaba por ser contaminado por esta visão melancólica sem rosto e o resultado é simplesmente o retrato do desalento.
Este ano o seu trabalho foi premiado com a menção especial no concurso ‘Fnac Novos Talentos’, vendo finalmente reconhecido o seu talento e visão fotográfica apurada. Ficam aqui as suas palavras…

Como começou a fotografar e porquê?

Em 1990, um amigo mostrou-me a máquina SLR do pai dele e, sendo eu então muito influenciável, contagiou-me todo aquele entusiasmo. Fui trabalhar um verão inteiro a servir numa esplanada para arranjar dinheiro para a 1ª máquina SLR. Durante o ano que se seguiu importunei todos os meus amigos com pequenas cenas encenadas. Fui praticamente autodidacta com a técnica e segui uma espécie de instinto com o resto. Seguiram-se períodos muito irregulares e mesmo alguns anos de afastamento.

Pode-se dizer que recomecei do zero no final de 2005. Se antes não sabia porque o fazia, agora sei que fazer imagens é uma absoluta necessidade.

Na sua opinião o que faz uma boa fotografia?

Não conseguiria dar uma opinião sem cair em clichés que todos conhecemos e sem contextualizar (foto jornalismo, publicidade, documento, etc.). Às vezes deixo de acreditar na imagem isolada, sem texto, contexto ou apoiada por um qualquer agrupamento temático ou estético. Outras vezes fico sem perceber porque gosto de uma imagem e porque que razão não me sai da cabeça.

Creio que uma boa imagem não nasce somente no acto de carregar num botão. Quem olha para ela não deve ficar indiferente. Se nos demoramos a olhar para uma imagem é porque deve significar algo – há a possibilidade de ser boa…

O que o leva a captar uma fotografia? O que é que precisa de ver no tema para premir o botão do obturador?

Se estou a fotografar para uma série específica, tento ser mais racional – mas nunca totalmente. Posso decidir antecipadamente o que fotografar, a que horas, com que tipo de luz, de que ângulo, com que equipamento… Disparo quando acho que os elementos na imagem preenchem os requisitos dessa série e seguem uma mesma “linguagem” e raramente disparo mais do que uma vez ao mesmo motivo.

Outras vezes, sou bastante impulsivo e deixo que outros factores me influenciem. Por exemplo, se estou a ouvir música no iPod, isso pode condicionar bastante o resultado. Se estou com alguém, o mesmo acontece. Por isso é que costumo fotografar sozinho, de preferência com o telemóvel desligado.

Tem alguma rotina para reunir as fotos para os seus projectos ou deixa-se levar pelos acontecimentos?

Não consigo ter uma rotina com a fotografia. O tempo não me deixa. A única situação que se poderia aproximar de tal, é o facto de usar o Domingo como dia dedicado à produção de imagens. No pouco tempo livre que tenho, só fotografo se me apetecer realmente fazê-lo. O resultado pode ser bastante frustrante se assim não for.

O tipo de projectos que tenho neste momento é tão diferente que nunca se torna rotineiro, mas exige uma auto disciplina acrescida, para não me dispersar.

Isso não quer dizer que nunca me deixo levar pelos acontecimentos. Muitas ideias nascem disso mesmo.

Curiosamente, uma das séries que fiz no verão passado (e que ainda não editei) regista uma altura rotineira da minha vida. Não se tratava de um momento chato. Antes pelo contrário! Mas achei que devia aproveitar essa situação específica como motivo para mais um projecto e experimentar uma nova abordagem técnica, com o uso de uma câmara de baixa resolução do telemóvel.

Ás vezes fico surpreendido com o resultado que pode sair de limitações técnicas e pessoais. Deixei para trás a atitude de “coitado de mim, que não tenho tempo, vontade ou dinheiro para fotografar”. As limitações são muitas vezes as melhores oportunidades.

No final de uma sessão fotográfica como escolhe as fotografias que irão constar no seu portfolio?

Esse é para mim o exercício mais difícil. E o mais importante. Uma edição/escolha descuidada e mal pensada pode deitar tudo por terra. Estou numa altura em que prefiro deixar os rolos acabados de revelar esquecidas numa gaveta durante um tempo. O facto de ainda estar rendido ao médio formato analógico é uma grande vantagem nesse sentido. As coisas são lentas e obrigam-me a pensar. E não é propriamente barato.

Não tenho pressa. Não tenho ninguém à espera. Cada vez que revelo um rolo acabado de fotografar, não fico muito tempo a olhar para o resultado. Se o fizer mais tarde – dois meses, um ano depois – percebo melhor o que estava a fazer nessa altura. O sentido crítico é mais apurado e essa distância temporal pode fazer toda a diferença.

Mencione alguns fotógrafos que o inspiram e ao seu trabalho e diga-nos porquê.

São tantos. Aprendi tanto a olhar para as imagens deles. Alguns não foram fáceis de entender inicialmente. Também não forcei. Acabou por acontecer e acabaram por ser os mais marcantes.

Talvez os mais importantes para mim, até agora, tenham sido estes: Andreas Gursky, António Júlio Duarte, Bernd e Hilla Becher, Duarte Belo, Gabriele Basilico, Gregory Crewdson, Hiroshi Sugimoto, Jeff Wall, João Tabarra, Jorge Molder, Mark Power, Paul Graham, Paulo Catrica, Philip-Lorca diCorcia, Robert Adams, Sally Mann, Stephen Shore, Susan Lipper, Uta Barth, William Eggleston, Wolfgang Tillmans.

Faltam muitos. Vou descobrindo muitos mais. Há muita coisa nova e inesperada a acontecer no mundo da fotografia.

Mas raramente as inspirações nem provêm daí. Mais facilmente as arranjo na literatura ou na música.

Como é que a tecnologia digital mudou a maneira como vemos a fotografia como arte?

Ainda é talvez cedo para falar. Mas creio que o processo digital, principalmente o de impressão e tratamento, veio finalmente instituir a fotografia (também) como arte.

Agora todos somos fotógrafos. O excesso e a disponibilidade não chegaram só à informação escrita a circular; chegaram também à informação visual. E isso faz tudo andar muito mais rápido.

Será que daqui a uns tempos veremos o “salto” do analógico para o digital a parecer tão grande como o das pinturas rupestres para a pintura antiga?

jj José Carlos Duarte


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