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Fev
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Em defesa da natureza…

Alguém no ICNB perdeu definitivamente a cabeça. Para 2009, ano de crise profunda e instalada, um burocrata decide cobrar 200€ a quem fotografa nas áreas debaixo da alçada deste instituto. Cobra-se para fotografar em áreas deixadas há anos ao abandono, como tenho a infelicidade de constatar no terreno desde há cinco anos para cá. Mas o fulcral desta questão é: deve-se ou não cobrar o acesso à áreas naturais, independentemente do fim?

Eu sou um adepto fervoroso do ‘sim’ desde que o dinheiro seja investido nas áreas, aliás como já aqui o disse várias vezes. Que o dinheiro sirva para limpar matas, marcar trilhos e fazer com que todos sejam bem-vindos parece-me de elementar justiça e mais turismo não significa pior natureza. Mas estamos em Portugal, país onde quase tudo o que involve natureza e ordenamento do território é, no mínimo, terreno pantanoso onde interesses se movem para exterminar o que nos resta neste campo; o caso paradigmático da estrada que atravessa a mata da albergaria no Gerês e a posição do presidente da junta de Vilarinho das Furnas que pretende arranjar a estrada para que a mata seja mais fácil de atravessar é o exemplo cabal do trauliteirismo militante que os nossos dirigentes padecem há muito. Basta olhar para a embrulhada de todo o parque da Serra da Estrela para ver que o mal que se fez nunca ou tarde é remediado e o exemplo do bairro clandestino aberrante que lá foi construído e licenciado há cerca de dois anos é a prova que o crime em Portugal compensa.

Temos em Portugal um ordenamento do teritório com uma área autorizada de construção que feitas as contas permite construir habitação para 54 milhões de portugueses. Ora com a população a envelhecer a olhos vistos e o número de habitantes estabilizados há vários anos pergunto eu para quê tanta área com possibilidades de construção? E para quem e que interesses foram defendidos? Os de todos ou só de alguns?
E ainda temos a questão dos monumentos seculares estarem ao abandono e desprezados e os centros históricos das nossas cidades, mesmo aqueles que estão classificados, estão de tal forma degradados que pouca ou nenhuma esperança há para os salvar. É melhor deixar cair…
Mas afasto-me do assunto, de volta ao que interessa. Eu acredito portanto no princípio do utilizador/pagador neste caso, raios se vou fotografar para Bertiandos porque não pagar, nem que seja uma verba pequena – 10 ou 20€/dia – ou então contribuir com algumas fotografias ou vídeos para acções a desenvolver pelo ICNB para promover o local em termos de biodiversidade e de turismo? Ora o ICNB anda totalmente à deriva nisto, não se sabe como pretende aplicar a tabela nem a quem, nem quando e muito menos onde em concreto. Mas até a simples fotografia na costa portuguesa pode ser taxada pelo instituto dado que esta área também está debaixo da sua alçada…
E como se destrinça ‘actividade comercial’ do que não o é? Eu sou fotógrafo amador, vendo uma ou outra fotografia de vez em quando, isto para o ICNB é actividade económica suficiente para me cobrar 200€ de cada vez que ponho os pés em Bertiandos? Sou amador, bati uma única fotografia no Gerês, concorri ao National Geographic e ganhei 5.000€ num prémio, quando é que recebo a factura para pagar? Vou ter o ICNB à perna?

Mas se vou pagar então tenho que exigir locais limpos, sem lixo nem poluição, mato limpo, trilhos ‘trilháveis’ e devidamente marcados em vez da barafunda actual onde por exemplo é possível ver sacos plásticos de lixo espalhados um por pouco por todo o Rio Estorãos em Bertiandos, onde está um passadiço em madeira junto à lagoa de S. Pedro, partido e seguro com cordas seguramente há mais de dois anos. Se pago exigo nível de serviço porque pagar 200€/dia em zonas mal marcadas, sem guias em pdf ou em papel sem o mínimo de qualidade, sem postos de vigia para fotografar em tranquilidade e para poder descansar sem arriscar a partir o pescoço como no Paúl de Arzila (cujo trilho principal estava para ser limpo há cerca de dois anos e por falta dessa limpeza está intransitável) é absolutamente inadmissível no meu entender. Querem cobrar? Cobrem mas forneçam um serviço de qualidade à semelhança do que os parque internacionais fazem. Mas, repito mais uma vez, estamos em Portugal onde tudo é feito a começar pelo fim e portanto arrisco-me a prever que com tantas trapalhadas e burocracias a medida arrisca-se a nunca sair do papel dado que o acesso a todas as áreas protegidas é tão livre que será impossível ao ICNB controlar eficazmente a medida e mais uma vez algo que poderia contribuir para melhorar significativamente a nossa natureza fica pelo caminho. Aliás o ICNB tem vindo constantemente a meter-se em trapalhadas, como a autorização ao rali Lisboa-Dakar (que lembro passava em zonas de Rede Natura 2000) até ao recente patrocínio de um rali todo-o-terreno na zona de Lisboa, não se entende estas práticas de um organismo que existe fundamentalmente para defesa da natureza mas que na realidade por inercia ou falta de verbas se transformou lentamente num Instituto Contra a Natureza e Biodiversidade. É um orgão autista virado para si mesmo e que não planeia nem faz o que se pretende dele, a continuar assim a sua razão de existir extingue-se pouco a pouco tal e qual como as áreas que deveria gerir e proteger.

Que se virem agora para os profissionais de imagem, que diga-se fazem mais pelas áreas protegidas que o próprio ICNB, parece-me mais um sinal de desnorte do que propriamento um plano bem definido e o facto de as tabelas terem sido ‘estrategicamente’ alteradas após a revista Fotodigital e alguns profissionais terem levantado a voz vem apenas reforçar a ideia de que os planos são feitos em cima do joelho e executados às três pancadas sem o mínimo de sentido crítico ou de inteligência. É que nem se lembraram de falar com as pessoas envolvidas… Haja pelo menos alguém com inteligência e que meta isto nos trilhos, até lá é preciso estarmos todos atentos e informados e esperar o milagre que salve este país do descalabro onde nos meteram…

Recursos:
ICNB corrige tabela (fotodigital)
A visitação do INCB (José Antunes)
Pior emenda que o soneto (José antunes)


2 Responses to “Em defesa da natureza…”


  1. Fevereiro 4, 2009 às 7:44 pm

    Verdadeiramente impressionante, sem dúvida!!!! :(


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