28
Fev
09

pagar para quê?…

bertiandos(parque de estacionamento da área protegida das lagoas de bertiandos)

Pergunto se vamos pagar para fotografar nas áreas protegidas e se é isto que vamos encontrar… ou istobertiandos-1(lagoa do mimoso – a.p. das lagoas de bertiandos)

Ou talvez uma bateria, caso precise de energia para a máquina digital…bertiandos1(rio estorãos- a.p. das lagoas de bertiandos)

Ou um saco para as compras…
bertiandos-2(lagoa do mimoso – a.p. das lagoas de bertiandos)

Já aqui falei várias vezes sobre a questão de pagar ou não para aceder a áreas protegidas, concordo que o estado actual das coisas não pode continuar conforme está, sob o risco das áreas protegidas desaparecerem perante a nossa inércia, algo precisa de ser feito e já. Vários argumentos têm sido invocados para justificar o pagamento ou o não pagamento de taxas mas os fotógrafos de natureza têm uma responsabilidade acrescida nesta matéria porque dependem destes locais para trabalhar e precisam de olhar para esta situação de um outro ângulo. Devemos pagar para entrar em parques e áreas naturais se pagamos tantos impostos? A questão no entanto é: o que temos hoje sem pagar e o que queremos ter se amanhã formos taxados? A resposta é simples: na primeira temos o que temos hoje (e vou exemplificar mais abaixo o que temos hoje…), na segunda podemos exigir uma alteração radical da maneira como se olha em Portugal para as áreas e paisagens protegidas. Os nossos impostos não são um poço infinito onde podemos obter funding ilimitado e onde existem recursos infinitos, são necessários para a saúde e para o ensino, escolas, estradas; se assim é pouco ou nenhum sobra para a defesa do ambiente – o que diga-se até dá algum jeito e que justifica atentados como os famosos PIN – que habitualmente fica em último lugar a fazer companhia à cultura.

Não é possível os fotógrafos de natureza continuarem a trabalhar de costas viradas para as entidades que supervisionam as áreas naturais e vice-versa, é uma situação de perda-perda em que ninguém ganha com esta falta de diálogo; compete também aos fotógrafos lutar e defender os locais onde trabalham e que lhes permitem subsistir, ignorar isto e decidir que partir lá para fora é fugir à questão fulcral na fotografia de natureza: qual deve ser o papel dos fotógrafos de natureza na defesa da mesma? Divulgar os locais que em Portugal são autênticos santuários da natureza – e há vários em Portugal -, intervir na sua defesa são tarefas a que hoje um fotógrafo de natureza não pode fugir, Ansel Adams não se escusou a esse papel e os parques naturais dos EUA muito lhe devem. Os fotógrafos têm que ser partes integrantes da solução e não parte do problema mas não podem também ser o ‘bode expiatório’ que vai salvar os nossos parques à custa das taxas que lhes vão ser cobradas. Outras soluções mais interessantes poderão ser aplicadas: a reversão de uma comissão nas vendas de cada fotógrafo para a zona onde o fotógrafo fotografa habitualmente ou onde a fotografia foi feita, cedência gratuíta de fotografias para divulgação dessa área protegida, organização de workshops juntamente com o ICNB a preços convidativos para chamar visitantes às áreas protegidas ou então a montagem de um fundo que se destine a recuperar/salvar algumas dessas zonas.
O estado actual das coisas não serve, como me parece óbvio, a ninguém, nem ao ICNB nem aos fotógrafos. Até quando vamos todos continuar a falar de costas viradas uns para os outros não sei mas que de facto me parece que vai ser preciso sentar todos os intervenientes à mesa e discutir pontos de vista também me parece óbvio. Com o autismo constante e crónico do ICNB será, de certeza, uma tarefa complicada. Agora o estado português não se pode divorciar desta situação e depois espalhar outdoors pelo país a dizer que tem 700,000 hectares de áreas protegidas e piscar o olho ao turismo, levando as pessoas a escolher uma delas para passear. Como se pode ver será uma viagem inesquecível no meio dos sacos plásticos…

A finalizar deixo-vos aqui o meu testemunho pessoal, que é ao mesmo tempo um grito de alerta sobre o que se passa, por exemplo, em Bertiandos.

Começa a ser complicado ir para Bertiandos fotografar, no rio estorãos se não estiver muito (mas mesmo muito) atento não é díficil chegar a casa com restos de sacos plásticos espalhados nas fotografias, na zona da lagoa do mimoso o lixo é tanto que já é quase impossível virar uma lente para qualquer lado sem ver lixo espalhado, de sacos de plástico a latas de cerveja é possível ver um pouco de tudo.

Há três anos atrás era muito fácil encontrar, por volta desta época, nos pequenos charcos que circundam as lagoas várias espécies de rãs, hoje e após uma invasão de lagostins já é praticamente impossível avistá-las. Na altura questionei no centro interpretativo qual era a origem dos lagostins mas ninguém me soube responder no centro interpretativo, hoje estão desaparecidos – não sei como – e se durante algum tempo era possível avistar restos de lagostins que eram comida fácil para as lontras e aves, hoje nem lagostins nem rãs…
Tudo isto coincide com um aumento gradual nas visitas à área e já se vêem muitos turistas estrangeiros mas também muitos portugueses de outras zonas do país. No entanto o civismo de quem visita as lagoas ainda é bastante baixo, para não dizer inexistente, e na terça feira de carnaval cruzei-me com um miúdo que levava uma fisga com que ia lançando pedras a tudo o que se mexia…debaixo do olhar ’embevecido’ do progenitor, provavelmente espantado com as capacidades de atirador do catraio.

Para não ver este triste espectáculo prefiro pagar e pagar um valor razoável como por exemplo os preços praticados no parque Yellowstone nos EUA do que não pagar e assistir à morte lenta deste local. Fechar a área e impedir o acesso indiscriminado de pessoas e viaturas parece-me a solução ideal, logo a seguir disciplinar e responsabilizar os agricultures da zona para não fazerem do rio estorão/lagoa do mimoso o seu balde do lixo, limpar o local de lixo e mato e colocar portagens. A precisar de uma atenção muito especial por parte do ICNB e da Câmara Municipal de Ponte de Lima…acabe-se de vez com a rebaldaria, falta de civismo e abandono. E salve-se Bertiandos deste sufoco…para que seja possível encontrar este cenário durante mais alguns anos:
bertiandos-14


5 Responses to “pagar para quê?…”


    • Março 3, 2009 às 8:39 pm

      É o que vês nas fotos… o abandono é total. E a explicação de que o lixo é arrastado pelo rio estorão e que vem das zonas populacionais é pobr, de facto estamos no área protegida e a limpeza deveria ser mantida a todo o custo. Enfim é o Portugal que temos.

  1. 3 Margarida Jordão
    Março 7, 2009 às 9:47 pm

    Pague-se, para que menos frequentem, mas que essa verba contribua para benefício do local e não para uns quaisquer cofres de uma secretaria qualquer que fica lá por Lisboa e nem sabe onde fica Bertiandos, ou outra zona protegida que é o que muitas vezes acontece neste pobre País!
    Algo terá de ser feito rapidamente pois só pela mudança de mentalidades ainda vai levar muito tempo.

    • Março 8, 2009 às 8:00 pm

      Margarida, já aqui afirmei isso. Mas deixe-me dizer que não concordo com a afirmação de que ser cobrada uma taxa de entrada (justa, diga-se) nas áreas protegidas irá ter como consequência uma diminuição nas visitas; o que eu acho é que vai haver uma alteração radical no tipo de pessoas que as visitam. Hoje visita-se uma área protegida como se visita o parque da cidade no Porto: faz-se uns jogos da bola, piqueniques e outras actividades lúdicas como andar a apedrejar tudo o que se mexe; com a introdução de taxas começa a haver público para turismo de natureza feito em locais isolados, acessíveis a pé e com actividades que coloque o turista com o melhor que cada local tem para oferecer. Lamento informar mas esse turista, que hoje deixa o seu dinheiro em vários locais do mundo, não vêm a Portugal e basta ler o meu artigo para perceber porquê. Repare que pode acampar em quase todos os parques naturais dos EUA, porque não o pode fazer cá? Porque não existem guardas nem estruturas que permitam controlar os acessos, permitir o acampamento nesta altura era abrir o caminho para o campismo sem rei nem roque, como aliás já existe no parque da costa vicentina…
      Precisamos como país que se quer virar para o turismo – e temos excelentes opções para isso – acabar com este estado de coisas e deixar de pensar que as áreas protegidas estão aí para apenas defender umas florinhas e uns quantos lagartos, estão aí para defender um património importante e que não nos pertence só a nós mas também às gerações vindouras. E os fotógrafos de natureza porque estão constantemente no campo precisam de alertar o público para este tipo de situações, também porque corremos o risco de ficar sem local de trabalho…mas essa não deve ser a razão principal para o fazer, como é óbvio.
      Um abraço.


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