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Jul
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Edgar Martins e o New York Times…

Imagem 1(slideshow retirado pelo New York Times por, alegadamente, conter imagens digitalmente retocadas e da autoria do fotógrafo português Edgar Martins)

Era expectável que um dia o New York Times teria o mesmo problema ético que muitos outros jornais: o que fazer quando descobrem que uma imagem, um ensaio, que lhes foi vendido como não editado digitalmente o é de facto?

A caixa de Pandora da fotografia foi literalmente aberta com o advento da tecnologia digital e é esse o principal factor de uma mudança radical no entendimento da fotografia como ‘verdade’, como se uma fotografia fosse sempre uma representação insofismável da realidade colocada diante dos olhos do fotógrafo e captada num suporte para mais tarde ser visualizada. De facto nunca o foi…, desde as imagens grandiosas de Ansel Adams a preto&branco – um desvio da realidade a cores que todos nós experimentamos – às imagens encenadas de Gregory Crewdson, a distorção mais ou menos assumida da realidade faz parte do legado histórico da fotografia.

Entenda-se desde já a minha repulsa pelas imagens editadas digitalmente de modo a ocultar ou a acrescentar elementos que foram captados no ficheiro original mas é um paradigma da ‘nova’ fotografia, facilitado pela brutal evolução das ferramentas ao nosso dispor, que vindas do mundo da arte digital – onde tudo é permitido – entraram no quotidiano de fotógrafos, editores de imagem e jornais. Se num contexto puramente artístico tal facto não choca frontalmente com a minha percepção da arte e da criação artística, num contexto puramente jornalístico a situação, e a minha percepção da verdade, muda radicalmente. Num ensaio cuja validação depende mais da verdade dos factos apresentados do que do mérito artístico das fotografias existe uma linha ténue que separa a manipulação para eliminação de pequenos ‘defeitos’ próprios da captura digital da edição corte&costura de muitos estúdios digitais onde esconder um sinal de trânsito é feito com a mesma leveza que se tornea um corpo real num outro, mais desejável, mais utópico e mais apetecível.

Terá Edgar Martins ido longe demais ao editar de forma radical as imagens que vendeu ao New York Times? E se as imagens não tivesse a legenda ‘sem edição digital’ ou seja se o jornal as tivesse comprado como editadas, a reacção dos editores teria sido a mesma? Desde a edição em papel no suplemento de domingo do jornal que de imediato se levantaram vozes de que algumas fotografias teriam uma edição digital fora do campo meramente estético para entrarem no campo da alteração da imagem através da duplicação de alguns elementos. Em reacção a uma denúncia de um leitor o jornal decidiu retirar o slideshow da seu sítio, substituindo-o por um aviso em que brevemente explicava as razões da sua retirada. No blogue ‘Lens‘ David W. Dunlap explica as razões do jornal em retirar as fotografias de Edgar Martins, sem ouvir no entanto o fotógrafo que entretanto ficou de se explicar nos próximos dias.

Não sei quais as reais repercussões na carreira de Edgar Martins desta embrulhada mas os efeitos a curto prazo já se fazem sentir: vários leitores apontam esta imagem de Martins como manipulada, colocada num livro que no seu prefácio fala de Martins como um fotógrafo que usa exposições longas mas sem recorrer a edição digital da suas imagens (ênfase meu). Após alguma análise da dita imagem percebe-se que existem umas rochas duplicadas no canto inferior esquerdo, dentro do rio. Não me parece grave, nem sequer é para aqui chamada dado o contexto de cada situação – ensaio e fotolivro – ser totalmente diferente, a edição num livro que é um ensaio pessoal mas isto espelha bem o sentimento que rodeia a polémica, a roçar já o extremismo e em alguns casos a xenofobia, com comentários no blogue da PDN, Pulse, onde alguns leitores fazem a pergunta se nos EUA não existem fotógrafos em número suficiente para ser necessário ir buscar um português residente em Londres.

Saber como interessa pouco mas o importante era saber, pelas palavras do próprio Edgar Martins, o porquê. Porque Martins vendeu as imagens como não editadas digitalmente se sabia que na realidade o eram, quem as editou e porque as imagens estão editadas como estão? Porque, e olhando de forma crítica para a forma como as imagens estão editadas, não me posso deixar de perguntar como um fotógrafo de renome aceita vender ao New York Times este trabalho final, acho que neste caso Edgar Martins apresentou uma edição que deixa a desejar e efectuada exactamente num trabalho que estava apresentado como não editado digitalmente.

Será necessário esperar pelas declarações de Edgar Martins para se verdadeiramente descobrir as razões do porquê desta situação e acho importante que o fotógrafo apresente um discurso inteligente e coerente para não correr o risco de se embrulhar mais numa polémica que não acrescenta valor nenhum à sua carreira promissora.

(Procurei obter de Edgar Martins o seu lado da história, que publicarei se o mesmo reponder à minha solicitação para o fazer neste blogue).


8 Responses to “Edgar Martins e o New York Times…”


  1. Julho 10, 2009 às 10:22 am

    bolas, que bomba!
    acho q o pior é mesmo o carregarem tanto no “no digital manipulation” e depois apanharem-se tantas!
    n percebo… até pq as fotos são lindíssimas e n precisavam desta confusão.

    • Julho 10, 2009 às 6:40 pm

      A questão não é fácil nem tão a preto&branco como será de assumir. Tenho como natural a edição, destrutiva e de reconstrução, de fotografias para fins artísticos, para fins jornalísticos já a coisa fica mais complicada. Assumo que a questão me é muito grata porque em determinados temas capazes de criar um impacto e/ou reacção no público que os leve a encarar algo como desejável ou natural quando de facto mais não é do que uma ‘re’construção digital de um facto ou de um corpo isto me repugna um pouco. Enquanto não se souber a reacção do Edgar Martins estamos de facto no campo das suposições, vamos por isso aguardar a sua posição e então podemos ou não concordar com ele mas deve-se deixar ouvir o fotógrafo…

      Um abraço,

  2. 3 REflector
    Julho 10, 2009 às 9:11 pm

    Independentemente de se se ver esta questão sob o prisma puramente técnico ou artistico, penso que que do ponto de vista social, e dada a imporância do tema da crise, e claro havendo de facto manipulação digital das fotos, parece-me que se pode ver isto como um “statement” do artista, claro que num exercicio de pura especulação.
    Vejamos,a crise que deu lugar à situação retratada foi em si criada por uma série de ilusões, manipulações e jogos de espelhos a nível econômico e financeiro, de que resultou a situação de crise, manipulações essas, muita vezes ampliadas e veiculadas pelos próprios jornais. Ora, estas fotografias mostram o outro lado dessas manipulações, os seus resultados ,ainda por cima foram publicadas por um jornal, que se diz contra todo tipo de manipulações de fotos, como aliás muitos dos jornais o reclamam, chegando muitas das vezes a auto-intitularem-se guardiões da verdade sem muitas das vezes o serem ou sem realmente se defenderem de poder ser veículos transmissores de inverdades. Porque não mostrar os resultados dessas manipulações, sob o mesmo prisma, como forma de alertar que na realidade não uma verdade só, há sim um conjugar de jogos de espelhos, refrações, colagens e manipulações de que resulta aquilo que nós vemos e vivemos? Volto a frisar que estou no campo da pura especulção… Mas não seria uma forma irónica e sarcástica de nos fazer abrir os olhos, se no fundo tudo tivesse sido planeado e previsto pelo fogtografo? Será que a arte se resume só a estética e a técnica, não deverá esta mexer connosco e fazer-nos pensar? Não terá a arte uma função social ou até mesmo politica? A ser assim, voltando a frisar que me encontro ainda no plano da especulação, uma questão se deve pôr, afinal não serão, mesmo que manipuladas, estas fotos, um retrato mais fiel da realidade, comparando com as não manipuladas?!?!! Afinal a arte imita a vida ou a vida imita a arte?

    • Julho 12, 2009 às 10:14 pm

      De facto o seu comentário está no campo das especulações: primeiro as imagens foram realmente manipuladas, o próprio Edgar Martins já o declarou, segundo temos uma pequena contradição, é que Edgar Martins construiu a sua reputação como um fotógrafo que recusava qualquer tipo de manipulação porque segundo o mesmo isso ‘desgasta o processo criativo’. E não. não acho que estas fotos manipuladas sirvam o propósito de veicular a verdade e não um retrato mais fiel da realidade, aqui estou frontalmente em desacordo consigo. Porque o tema não o pedia, porque Martins declarou que não o fazia mas sobretudo porque se trata de uma peça jornalística e não um ensaio pessoal, aqui meu caro REfletor (achava interessante saber o seu nome…) não há lugar para ilusões e no caso da crise financeira vimos omnde essas ilusões nos levaram: à quas ebancarrota mundial. Que se evite que outras ilusões nos levem à falência de alguns valores que ainda existem no fotojornalismo.

      Quanto ao NYT acho que não fica bem na fotografia, passe a expressão, nos últimos meses têm estalado polémicas sobre vários ensaios realizados para este jornal e acho que a sua reacção a este incidente revela perfeitamente o estado de histeria que reina no seu departamento de edição de fotografia: ao primeiro sinal de fumo correram aos extintores e retiraram a galeria; apesar doq eu dizem bastou ler o primeiro comunicado para perceber que nem falaram com o Edgar Martins, retiraram-na e depois tentaram o contacto. Para não ficarem mal depois emitiram um contacto onde ‘amaciam’ a questão mas falta responder à questão: se a edição é tão óbvia porque os editores do NYT não a detectaram logo à partida? Ou bastou-lhes a palavra do fotógrafo? É que se for este último caso Edgar Martins vais ficar muito mal visto no meio desta história…

  3. Julho 12, 2009 às 12:08 am

    Como já se realçou o Edgar Martins sempre disse que não fazia manipulação digital. Pelos vistos fez, e não só neste trabalho. Parece que no BES Foto 2009 também utilizou o Photoshop e li que tal não seria permitido, mas nao confirmei.

    O que se passa aqui é que o fotógrafo afirmou e re-afirmou sempre que não utilizava manipulação. Para isso não há desculpas. O NYT teve razão neste ponto.

    A questão da xenofobia existe e existirá sempre. Então na promoção a personalidades portuguesas em que se utilizou o fotógrafo estrangeiro não foi utilizado o mesmo argumento: “Não há fotógrafos portugueses capazes do mesmo e mais barato”? Estou a falar do inglêsKnight e da série “West Coast”. Penso que uma perspectiva “de fora” pode ser algumas vezes inovadora e refrescante.

    • Julho 12, 2009 às 10:22 pm

      José Paulo em relação à xenofobia estou plenamente de acordo consigo, cá já foi feito nesse caso e concordo que existem alturas em que um ‘olhar’ estranho ao processo pode ser uma mais-valia.

      em relação às declarações do fotógrafo elas começam agora a ser desmontadas, como no caso da foto que indico e que está no seu livro ‘Topologies’, vendido na Amazon como, e passo a citar: “With artful composition and controlled framing but no digital manipulation Edgar Martins creates sublimely beautiful views of often un-beautiful sites.”, acho que isto diz tudo sobre a reputação que o fotógrafo construiu e que agora arrasou completamente com este incidente. É mais um caso onde mais tarde ou mais cedo a verdade vem ao de cima, só lamento a trapalhada toda em que ele se meteu, com uma carreira promissora pela frente, um livro editado pela Aperture, Edgar Martins tinha tudo para vencer. Com este incidente fica tudo mais difícil para ele, sobretudo porque o mercado perdoa muito pouco estas trapalhadas.

  4. 7 hmbrito
    Julho 13, 2009 às 11:28 am

    Sobre o BES Photo penso que a observação de anteriores vencedores ajudará a desvendar a questão de se a manipulação é permitida ou não, já que, não existe um único vencedor que não tenha abertamente manipulado, tome-se como exemplo flagrante os seguintes:

    2007 . http://www.migso.net/artwork/2008/miguel_soares_BES_photo_2007.htm
    2006 – http://www.danielblaufuks.com/terezin/index.htm

    Estando a informação disponível para qualquer interessado é incompreensível não ser consultada.

    Atentamente,
    hmBrito

    • Julho 13, 2009 às 7:14 pm

      A mim não me choca a manipulação no BESPhoto, que diga-se não recolhe muita aceitação pela minha parte (embora reconheça que tem importância no campo do conceptualidade, choca-me é o Edgar Martins tenha insistido na ‘não-manipulação’ para agora se descobrir que sempre o fez. E a desculpa que o fez para provocar um debate a mim não me convence e não sei convenceu alguém…
      Isso para mim é mentir, embora sem o ouvir seja prematuro acusá-lo do quer que seja, e enganar o público, galeristas e editores e meu caro hmBrito não se iluda, isso vai-lhe custar caro.


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