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Jul
09

A suprema ironia… (follow-up na história de Edgar Martins).

Espelho meu, espelho meu há alguém mais verdadeiro do que eu?…

Esta imagem foi publicada pelo New York Times num slideshow intitulado ‘Worrying Signs for Post-Withdrawal Falluja‘, uma peça jornalística sobre a procura de agitadores na zona de Falluja no Iraque.
Imagem 1Nota algo de errado? Não?…
Imagem 2Então vamos à descoberta do que está errado na imagem…
1) zona A: o canto foi desfocado com um blur nitidamente digital, o canto nunca poderia estar assim com um desfoque selectivo efectuado na câmara. Provavelmente foi efectuado para esconder algo inestético ou que distraía demasiado.
2) zona B: toda a zona que estava na sombra foi ostensivamente aberta com um ajuste no slider Shadows de um programa de edição, o contraste foi exagerado de modo a que a superfície metálica do veículo sobressaia.
3) zona C: aqui é onde se nota a edição desastrosa. Reparem nas calças do soldado, apesar de ser um dia com bastante luz as calças practicamente não têm sombras e na zona indicada pela seta deveria existir uma sombra pronunciada (reparem na direcção do sol…) que foi eliminada.

A intenção não é apontar o dedo ao fotógrafo, a intenção é mostrar que por todo o New York Times existem imagens jornalísticas editadas, e de forma ostensiva, e o jornal publica-as sem sequer verificar o que publica de forma crítica e objectiva. E, talvez o pior na minha opinião, é que apenas reage de forma reactiva e não proactiva, no fundo se ninguém descobrir e/ou denunciar uma imagem editada está tudo bem para o New York Times; o que me leva à pergunta seguinte: como se faz a edição de imagem no jornal?

Suspeito que isto ainda vai fazer correr muita tinta…


4 Responses to “A suprema ironia… (follow-up na história de Edgar Martins).”


  1. 1 ff
    Julho 14, 2009 às 4:22 pm

    desculpe mas não creio que venha a correr tinta nenhuma. Já foi falado e até comentado pelo editor do NYT http://wecanshoottoo.blogspot.com/2009/06/excessive-photojournalism-photoshopping.html.
    Acho manfestamente exagerado concluir que existem imagens editadas por todo o NYT mas decerto será mais conhecedor que eu …
    De qualquer modo, são duas questões distintas e convém não as meter no mesmo saco.
    Samans (que é um experiente fotojornalista) pondo as coisas de forma simples, manipulou um ficheiro em termos de relação de contraste entre sombra e luz utilizando um filtro que acho detestável (isso é cá comigo) e que estraga a maior parte das fotografias (quase ninguém o sabe utilizar e exagera o seu efeito) tal como poderia ter feito a partir de um filme. O que nos diz, no limite, é que ele é mau a trabalhar no photoshop tal como se fosse em filme nos dizia que era melhor deixar o trabalho de impressão para um profissional. As pessoas estão lá, o espaço é aquele, a relação entre os objectos aquela etc…
    Edgar Martins não; ele fabrica uma realidade que tem na cabeça e que não existia fora dela até ao momento de aparecer em imagem. É uma realidade não fotografável no sentido em que não pode ser registada por nenhuma câmara.
    Salvo melhor opinião são duas questões que ocorrem em planos distintos (até ao nível ético que, neste caso, como em quase todos os casos, é fundamental).
    São duas formas de manipulação é verdade mas isso não basta para tornar os casos iguais; nem vagamente semelhantes.

  2. Julho 14, 2009 às 7:57 pm

    Caro ff,
    sabe qual é o problema fundamental aqui? É que já vamos em vários casos neste jornal. Muito recentemente tivemos o caso do trabalho ‘Obama Staff’ do Nadav Kander onde a suspeita de que algumas sombras foram adicionadas à posteriori, suponho que enquadra essa situação no mesmo plano que as manipulação do Edgar, tratam-se obviamente de adições de elementos que não estavam lá.
    Mas concordo consigo em um ou dois pontos, aliás num comentário inteligente, mas aqui nem é puxar a questão para o lado do fotógrafo, é talvez perceber qual o limite que o NYT traça para a edição de imagem efectuada digitalmente. Partindo do princípio que as imagens do Edgar espelham uma realidade que não é fotografável, acho que podemos assumir que a foto que indico do Samans espelha uma gama dinâmica que tudo capta desde o branco até ao preto com a mesma capacidade, sem altas-luzes queimadas ou sombras enterradas (que significa que ambas os extremos têm informação numa cena de alto contraste onde tal seria impossível captar num sensor) tmabém não é fotografável.

    O problema com que lidamos hoje é pura e simplesmente o de tentar traçar um limite onde a edição digital passa a ser manipulação, a partir de quando o contraste deixa de ser um ajuste para ser um exagero, a partir de quantos pontos traça esse limite? E porque as imagens de Kander puderam ser manipuldas e as do Edgar não? Percebe qual o meu dilema neste momento, não é de certeza ‘queimar’ em praça pública o Kander nem desculpar o Edgar mas a nível ético por exemplo puxar o contraste pode servir para passar uma mensagem completamente diferente, com outro impacto – torna a imagem mais dramática, mais suja, com mais tensão entre os elementos (lembra-se da fotografia de OJ Simpson?) da que foi fotografada, alterando totalmente a mensagem da imagem. Como vê ainda existe discussão suficiente neste tema.

  3. 3 ff
    Julho 16, 2009 às 1:19 am

    Caro Mário,

    vou começar por uma declaração de interesse: nada tenho, a favor ou contra o NYT (o mesmo se passa em relação ao Edgar Martins).
    Habituei-me a lê-lo há muitos anos como uma das vozes mais independentes da América (o que quer que isso queira dizer). Tenho consciência do poder da imprensa, sobretudo da americana e do papel que os detentores dos meios de produção têm no processo. Contudo, se alguns laivos de independência existem, o NYT será seguramente um deles.

    Se sempre a fotografia esteve sujeita a manipulações de carácter técnico,e se alguma vez acompanhoou o processo de publicação de fotografias nos jornais sabe do que estou a falar, na era digital o assunto torna-se mais premente uma vez que todas as imagens de natureza digital não existem sem a fase de pós-processamento; faz parte da sua condição técnica e negá-lo só nos traz dissabores.

    Os limites de que fala estão traçados, individualmente, por cada meio de difusão. Fazem parte do contrato ético que liga leitor/ jornal e os do NYT estão referidos em parte no link que referi e completos no site do jornal ou na publicação que o NYT fez de resposta a perguntas reais de leitores sobre estes assuntos e que pode ser encontrada em http://www.nytimes.com/2009/06/22/business/media/22askthetimes.html?_r=3&scp=7&sq=mcnally&st=cse leitura que aconselho só para tentar entender alguns dos problemas que se poêm aos editores de fotografia e que, estou certo, conhecerá.

    O NYT recebe cerca de 5000 imagens por dia, só em news feeds, para além do trabalho dos seus fotógrafos e das encomendas. Isto nao os desculpa mas dá uma imagem da dimensão a que se reporta a questão. Sempre houve fotógrafos com pouco escrúpulos e hoje existem também agendas corporativas muito fortes que casam bem com essas práticas. Gostava de saber os números referente às imagens que são completamente rejeitadas e que nunca conheceremos.

    Há uma questão em que não há limites e que é a da mentira. Por incrível que pareça, a América é pouco tolerante na mentira num acto que a psicanálise decerto explicará e que poderia explorar mas não é o caso para não nos desviarmos da questão. Eles pura e simplesmente toleram mal a mentira. E raramente perdoam.

    Estou convencido (e posso estar completamente errado) que se o Edgar Martins nunca tivesse mentido acerca da natureza das suas imagens, que o NYT poderia eventualmente ter convidado o fotógrafo a produzir este trabalho para a revista. E que o apresentaria na verdadeira dimensão do seu trabalho e todos teríamos a ganhar. Acontece que não foi o caso e o desfecho é o que sabemos.

    A ética que refere em relação à manipulação do contraste e da gama dinâmica, continuo a crer que é de nível diferente. Terá limites, é certo, e por vezes poderá induzir o espectador em leituras precisas mas não alterarão a realidade da coisa mostrada (e no campo documental esta é a questão). Preocupa-me muito mais a questão das legendas que essas sim induzem uma leitura no espectador que pode não ter nada a ver com a realidade.

    Estive a ver o trabalho de que falou sobre o staff do Obama, que não conhecia, e devo dizer que fiquei espantado. Por razões que não vêm ao caso tenho trabalhado sobre a questão do retrato e da representação e percebo a razão porque foi apresentado. É um trabalho bastante interessante e no campo específico do retrato as regras não se passam exactamente da mesma maneira que noutras áreas, como por exemplo no registo da realidade quotidiana de Falluja. Faz parte da sua natureza representacional e a riqueza da fotografia é essa mesmo. Não se espera da fotografia de estúdio em ambiente controlado o mesmo que de uma manhã no decorrer dos dias no médio oriente. Há práticas establizadas que são aceites em estúdio e totalmente repudiadas no caso de Falluja. Os intervenientes no processo sabem-no muito bem e tentam respeitar esses princípios. É o que nos salva.

    • Julho 16, 2009 às 6:53 pm

      Caro ff,

      A fotografia é sempre uma manipulação, as imagens do Ansel Adams são uma manipulação, primeiro porque são a preto&branco e depopis porque o trabalho em câmara escura do Adams era uma arte em si. A linha que traço é apenas a assunção por parte do fotógrafo que a faz, apenas isso; não me interessa se usa o software X ou Y, apenas que seja frontal e assuma a manipulação como um acto de expressão artística e integrante do seu trabalho.

      Aceito perfeitamente o pós tratamento digital dado que muito bem diz isso é um dado inerente à tecnologia. E parece-me que nas suas ‘guidelines’ o NYT também o aceita. Mas como diz num jornal como este os editores de fotografia não têm mãos a medir, é necessário triar um lote considerável de imagens que se destinam à edição em papel e online. Considerando que os jornais hoje estão num ciclo complicado, onde a sua sobrevivência é questiona todos os dias face à concorrência da internet e à adequação daqueles a este novo meio de divulgação, é de imaginar que mesmo o NYT esteja debaixo de uma pressão para publicar conteúdos que surpreendam os leitores e cujos autores sejam nomes sonantes. Sendo impossível conferir tudo o que vai para publicação o NYT confia que os fotógrafos cumpram as tais ‘guidelines’ e talvez assim se explique parte desta trapalhada. Dado que o Edgar Martins sempre afirmou que não editava digitalmente as suas imagens não foi difícil ao NYT acreditar nele sobretudo porque o fotógrafo já tinha provas várias no mercado de arte: livro publicado pela Aperture, vencedor do BESPhoto, cobertura de vários blogues de renome na rede e o aval de galerias. E não tenho dúvidas que se a edição fosse assumida desde o princípio que o slideshow não seria retirado da forma como foi. A sua teoria de que suportam mal a mentira é certamente suportada pela enorme vaga de reacções na blogosfera norte-americana, praticamente nenhum blogue de fotografia de relevo deixou passar isto em branco, num cenário muito pouco favorável ao Edgar Martins.

      Apresentei apenas o caso do Kander apenas para se entender a pressão exercida sobre o NYT sempre que a ‘supeita’ de manipulação surge, repare que eu não efectuei nenhum juízo de valor sobre obra em questão – nem era isso que pretendia – mas apenas saber se considera os dois exemplos (Kander e Martins) pela mesma perspectiva, vejo que não. Em abstracto ambas as situações são manipulações no sentido em que ambas têm elementos que não estavam lá no momento da captura mas reconheço que a envolvente de cada um dos ensaios é diferente e não comparável.
      Se pergunta a minha opinião posso adiantar que o trabalho do Kander é bastante ‘fresco’ e original, aquelas pessoas foram convidadas a despir o fato de membros do staff de Obama e apresentarem-se como são na (quase) intimidade, é talvez uma das formas mais inteligentes que vi nos últimos tempos de mostrar como por trás do cargo político está uma pessoa. É um ensaio inteligente e como vê sempre vale a pena passar por aqui de vez em quando (perdoar-me-á a publicidade…)

      O que nos salva é que ainda há pessoas interessantes e interessadas a discutir este tópico e enquanto houver a verdade jornalística vai estando a salvo de fotógrafos que não estão interessados em princípios e muito menos em os cumprir.

      É um bom tema de nova conversa.


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