08
Set
09

America – Zoe Strauss.

americaAmerica de Zoe Strauss
Hardcover, 304 pg
AMMO Books LLC (2008)
ISBN: 9781934429136

Depois de ‘The Americans’ e ‘América furtivamente’, de Robert Frank e Henri Cartier-Bresson respectivamente, ainda é possível captar o intímo da América?
Desde sempre a América enquanto sonho colectivo foi tema de várias monografias, desde Frank a Soth, a fotografia sempre gostou do american way of life mas fora das luzes da ribalta existe uma zona de território rural e interior para quem o american dream se tornou num pesadelo. E nos dias de hoje nem precisa de ser rural e pode muito bem uma periferia urbana, longe do centro da cidade, com uma população pobre, sem educação e excluída.
É esta a America de Zoe Strauss, a antítese do sonho americano, que nos é apresentada neste trabalho.

Técnicamente é um trabalho low-tech, efectuado ao sabor de um road map aleatório, com máquinas baratas e de baixo orçamento. A qualidade do livro está de acordo com o método de captação de imagem, longe portanto das impressões luxuosas mas mesmo assim não deixa de ser um livro com uma impressão razoável e dimensão adequada não muito longe do A4, maior teria sido impossível dadas as limitações de captura com câmaras compactas e SLR digitais de gama baixa (Nikon D70 por exemplo).

Mas onde o livro nos agarra é nas imagens sobretudo pela relação que Zoe Strauss consegue construír em breves instantes com os retratados; é precisamente por aí que as ‘defesas’ que cada um tem ao ser abordado para ser fotografado caem, deixando assim livre o caminho para uma fotografia que consegue transmitir algo tão intangível como o profundo sentimento por trás de um olhar. E de facto o retrato que Zoe Strauss capta da américa é o retrato do desalento e abandono, miséria e resistência de uma faixa populacional que vive nas franjas da sociedade. Não é um livro fácil portanto porque é crú o suficiente para ser directo e sem rodeios nem tentativas de embelezar nem julgar; o livro acaba por ser um despertar para a realidade através de um balde de água fria e um murro no estômago.

zs© Zoe Strauss
É difícil ver numa imagem deste tamanho mas a cara de desespero da jovem e o quase total alheamento da mãe fazem desta foto uma das minhas favoritas, a mãe provavelmente já desistiu de sonhar e limita-se a viver o que a vida lhe dá, a filha por outro ainda não desistiu de lutar mas talvez tenha percebido que o destino da mãe lhe está igualmente traçado. A mãe magra, com sinais de uma dependência qualquer, luta para se manter viva, a filha assiste a tudo como se fosse um filme e que depressa sairá da sala para viver o sonho que lhe está destinado. Que não irá acontecer por certo…

zs2© Zoe Strauss
Outra das minhas favoritas que cresce a cada passagem no livro. O olhar do jovem da esquerda um misto de força e de resignação ainda lhe imprime um certo alento, uma vontade de resistir mas o homem da direita olha desanimado para um boletim de lotaria como se a última esperança de vencer acabasse de se desvanecer nas suas mãos e à frente dos seus olhos.

O livro em grande parte está organizado nestes pares de fotografias onde uma complementa a outra, num dialogo de intenções que nos obriga a ler as ‘entrelinhas’ das imagens, a estar atentos mas sobretudo que nos desarma completamente face à sua brutal frontalidade com que nos apresenta essas imagens. Zoe Strauss consegue o feito de fazer dos seus retratados pequenos heróis numa demanda por um sonho que teima em lhes fugir. É talvez a relação que Strauss constroi com os seus retratados que torna este trabalho tão singular, essa relação fugaz mas intensa que permite a Strauss conviver com essas pessoas, viver os seus dramas e contar as suas histórias.
Strauss permeia os seus retratos com o registo de um conjunto de sinais, reais e subentendidos, em estado de degradação visível onde o que resta são apenas as marcas da passagem do tempo. Vestígios de frases, sinais destruídos, tudo é aproveitado para manter o tom geral do livro em complemento, bem conseguido por sinal, às histórias que as personagens vão desfilando nos seus retratos.

Este conjunto poderia ser apenas mais uma reportagem, assim é um livro comprometido, politicamente incisivo e incorrecto, verdadeiro e genial. Com as suas fotografias de excelente composição mas sobretudo pelo contexto da sua obra, em plena administração Bush, America é um grito de alerta por um país que se desintegrava perante os olhos incrédulos dos próprios americanos. America é a crise antes da crise, uma ode negra e poética à falência do sonho americano.

Loja
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