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Nov
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Um país à espera de falir

Não tenho escrito muito mas hoje apetece-me escrever e muito.
É um facto que a palavra crise está na ordem do dia mas admira-me a surpresa de alguns comentários/comentadores sobre o estado do nosso país. Mas para explicar isso tenho que regressar a 1997…

Se analisarmos o percurso português há um antes e um depois de 1997/1998, se pesquisarem bem verificam que foi a partir desses anos que os bancos nacionais começaram a indexar os empréstimos de crédito à habitação à euribor que por volta desse período rondariam os dois ou três por cento; depois de décadas a pagar crédito a taxas de 18 a 25 por cento (e acreditem que sou desse tempo…), com um consumo refreado exactamente por essas taxas o boom de aquisição de casa começou. Até aqui a história parece cor de rosa e de facto até era. Dinheiro barato, possibilidade de mudar de estilo de vida, ser proprietário, era um Eldorado à portuguesa mas que tinha inevitavelmente os dias contados…
Primeiro por uma fatalidade do destino: tudo o que desce acaba por subir e em 1999 as taxas euribor começaram a subir com consequências para quem se endividou. Segundo porque se esqueceram de explicar que com o nível de poupança dos portugueses a dimunuir drasticamente o dinheiro que os bancos emprestavam tinha que vir de algum lado. Terceiro porque também se esqueceram de avisar que um país a endividar-se ao ritmo que o estava a fazer precisa de ter um crescimento económico que permita gerar riqueza para as pessoas cumprirem as suas dívidas. A conjugação destes três factores – sobreendividamento, taxas a subir e crescimento económico débil – foi pura e simplesmente o que nos trouxe até onde estamos hoje: um país à espera de falir.
A explicação até parece simples: taxas baixas levam a um maior consumo, menos produção leva a mais importação que por sua vez leva a um desiquilíbrio da nossa balança comercial. Consome-se cá com dinheiro emprestado por bancos mas esse financiamento veio do exterior e consumimos bens produzidos maioritariamente no exterior, isto soa a desastre à espera de acontecer ou sou o único a pensar assim? É que nós já nem produzimos grande parte do que comemos o que para mim é uma pequena tragédia, basta ir a uma qualquer aldeia do interior para ficar com a ideia que temos 10 milhões de portugueses sentados à beira-mar. Isso também não é sustentável quer do ponto de vista urbanístico quer do ponto de vista social e em termos produtivos é o que se vê: campos agrícolas abandonados, pomares com fruta a cair pelo chão porque ninguém a apanha, matas a arder no verão porque ninguém as limpa, etc. Mas com uma política como a nossa quem pode culpar as pessoas de querer um pouco do Eldorado? Na hora de passar o cheque todos – estado, autarquias, segurança social – se esqueceram de inquirir quem o ia pagar. Bem a resposta está aí, à vista de todos…

Fast forward para 2007…
Portugal continua com crescimento débil – é inclusivé um dos países com menos crescimento na OCDE – está endividado até à raíz dos cabelos e precisa de refinanciar a sua dívida a cada dia que passa, em dez anos a dívida pública passa de 60% do PIB para cerca de 80% e eis que do outro lado do Atlântico uns malandros andaram a emprestar dinheiro que não tinham a pessoas que não podiam pagar, resultado: um dos maiores desastres financeiros da nossa história. E como desapareceram uns biliões em jogatinas de bolsa que mais pareciam de casino de repente a banca internacional percebeu que estava com um problema nas mãos: precisava de pagar as suas dívidas e por outro lado tinha nas mãos carteiras de investimentos a valer quase zero (e nalguns casos a valer mesmo zero), quando foram buscar os seus investimentos aos malandros perceberam que os seus milhões estavam nas mãos de pessoas sem rendimentos que compraram casas que hoje valiam muito menos do que tinham custado e que o mercado estava inundado de casas para vender devido ao incumprimento de quem as comprou. Isto teve dois resultados: uma redução drástica no dinheiro a circular e um aumento brutal das taxas de juro porque havia menos dinheiro a circular e mais bancos a precisar de dinheiro. Em Setembro de 2008 a euribor (seis meses) chega aos 5,178%… de repente os bancos deixaram de confiar uns nos outros. Só nesta altura a coisa começa a parecer suspeita e eis que chega ao mundo a crise do subprime, com bancos a perceberem que hedge funds e especuladores andaram a construir produtos para esses mesmos bancos com base em activos subprime e que ao mesmo tempo andavam a apostar na descida desses produtos. Enganados e à beira do colapso começou a debandada dos mercados, em Portugal a coisa estava a piorar mas o nosso governo assobiava para o ar dizendo que a crise iria passar ao nosso lado. Entretanto alguns não percebiam como seria isso possível sobretudo à luz das imensas restrições de crédito e das nossas necessidades de financiamento.
Bancos começam a sentir-se desconfortáveis com as restrições de crédito e os spreads começam a subir, depois de anos a emprestar dinheiro com spreads absolutamente insustentáveis, a banca começa a entender (finalmente!) que tem que ser mais criteriosa e cobrar mais. É pena que não o tenha feito durante toda a década de 2000 a 2010, tinha-nos poupado alguns dissabores. No meio disto os primeiros sinais de alarme: BPN e BPP. O primeiro alvo de um resgate in extremis verdadeiramente desastroso e com consequências pesadas para os contribuintes e o segundo com uma dança de empurra a ver quem ficava com a batata quente até que o estado lhe prestou um aval de 450 milhões que no final não serviu para nada a não ser desbaratar essa quantia aos contribuintes. Mais uma vez o governo assobia para o lado e fala em risco sistémico para impedir a falência do BPN quando se sabia que o problema do BPN não era bem esse mas sim uma gestão ruinosa e danosa. Mas o contribuinte pagou e a crise estava longe, a um oceano de distância.

Leap foward para 2010…
Começamos 2010 a financiar a dívida pública a cerca de 4,4% a dez anos e estamos a acabar o ano a financiarmo-nos a 6,8% ou seja estamos a pagar cerca de mais 50%, o que passou para chegarmos aqui?
Entra-se em 2010 depois de 2009 ter sido um ano de eleições, onde promessas que a crise já tinha passado e que Portugal tinha sido o país que melhor lhe tinha resisitido, 2009 foi assim um ano onde o governo deu largas à imaginação orçamental, baixou o iva para 20% e aumentou os salários em cerca de três por cento, tudo boas notícias, certo? Talvez não…
A meio deste ano estourou a “bomba grega” e de repente a europa percebe que tem no seu seio problemas maiores do que o subprime, a Alemanha começa a ter grande contestação interna aos bailouts sucessivos de países que se têm furtado a um controlo orçamental com rigor, na Irlanda o estado intervém sucessivamente em bancos para evitar a sua falência, em Espanha rebenta a bolha imobiliária, em Inglaterra não há dinheiro…e em Portugal o défice é brutal. É o resultado natural de estarmos constantemente a consumir mais dez por cento do que produzimos, bottom line: estamos a viver acima das nossas posses. A europa está na fossa excepto uma pequena aldeia que resiste a tudo: a Alemanha que finaliza 2010 a crescer 3,7%.
O mundo está numa encruzilhada, os EUA continuam a injectar biliões na economia que continua sem criar emprego mas que está a crescer muito devido ao consumo interno mas que está a aumentar as importações, o Japão não sai do vermelho e desceu para o terceiro lugar das maiores economias mundiais, os países emergentes estão a crescer a taxas fenomenais, a europa afunda. A tensão cresce à medida que os vários interesses entram em conflito – e que afirmo pode chocar algumas pessoas mas não deixa de ser menos real – sobretudo a situação da europa e os interesses da Alemanha, o euro está numa situação insustentável para as exportações alemãs e uma descida da moeda em face das dificuldades de alguns países até pode ser boa para esse objectivo, os EUA querem desvalorizar o dólar para tornar as exportações atraentes e os chineses não querem valorizar a sua moeda pela mesma razão; o problema é que para uma moeda descer uma outra precisa de subir, é inevitável. Mas ainda existe outra questão nos EUA, é que continuam a emitir papel como se o mundo acabasse amanhã na secreta esperança de que isso desvalorize ainda mais o dólar mas isso tem o lado preverso para quem compra dívida pública que de repente podem ver as suas carteiras de activos desvalorizar 15 ou 20% e isso pode ter um impacto forte na economia chinesa, principal comprador da dívida pública dos EUA e nos bancos que a compram.
Portugal está só e abandonado no meio desta batalha de gigantes, a braços com uma dívida gigantesca, um défice brutal e a ameaça permanente de falta de financiamento. A europa hesita num novo bailout à Irlanda e a Portugal, sobretudo porque a opinião pública alemã – onde o dinheiro está – não o vai permitir facilmente. O orçamento passou mas os mercados não acalmaram e uma nova recessão está à porta com perda de poder de compra de grande parte da população, um desemprego galopante, uma economia frágil e um sistema político que não se entende entre pares. Os mercados não acreditam que Portugal consiga cumprir os objectivos a que se propõe e daí o massacre nas taxas, os bancos não se conseguem financiar excepto junto do BCE que lhes está a emprestar e o recente ajuste no rating dos bancos reflecte o que acabo de dizer. Esse ajuste não significa que os bancos estejam em má situção mas em face da conjuntura actual e prevísel para o curto prazo o risco é de facto maior; com uma economia em recessão, famílias com rendimentos inferiores o risco de default de empresas e particulares sobe e os bancos podem não ter estrutura para aguentar um aumento do incumprimento sem se financiarem fortemente mas como os mercados não estão abertos a isso e com o BCE a não poder aguentar para sempre esta situação de emprestar apenas com o colateral de dívida pública portuguesa como está a acontecer o aumento do risco é inevitável. Acresce a este factor de risco o facto de os bancos portugueses estarem muito expostos à dívida portuguesa…
A isto acresce o facto da Alemanha quer impôr aos mercados a co-responsabilização em caso de default de algum país da zona euro ou seja se o bailout de um país falhar a europa não quer pagar e transfere essa responsabilidade para os credores, basicamente aí o risco tem que se aproximar do real em face do possível alheamento da europa em caso de incumprimento de um país.

De facto os próximos tempos serão de grandes dificuldades, empresas – sobretudo de bens não essenciais – irão falir, empregos vão continuar a ser destruídos mas no final de contas apenas nos podemos culpar a nós próprios e na nossa incapacidade de resistir ao consumo acima das nossas posses. Podemos e temos capacidade de ultrapassar esta situação? Mais uma vez dependemos de nós, é preciso mudar mentalidades, investir em capacidade produtiva e não em infraestruturas que não geram exportação, é preciso que se investa em tecnologia, em desenvolvimento, em produtos de qualidade como o têxtil e calçado de topo e começarmos a pensar nos emergentes como mercados com grande apetência para o luxo. Abandonar hábitos de crédito e regressar ao hábito de poupar e sobretudo poupar para depois poder consumir. Temos um país fantástico com uma excelente capacidade de receber e que pode ser um destino de turismo de excelência, investir no ecoturismo num país como Portugal será uma aposta inteligente.
Mas temos que estar preparados para pegar numa enxada e ir produzir os nossos alimentos porque caso se falhe a execução orçamental como falharam os PECs sucessivos estamos no bom caminho para nos deixarem cair, sobretudo se a Alemanha se recusar a financiar países que não cumprem as metas orçamentais impostas pela EU. O FMI não será grande solução porque as medidas que iria tomar não serão muito difertentes das que já estão anunciadas, excepto talvez o não pagamento do 13º mês e o corte generalizado de cerca de 15% em todos os salários.

Portugal está como um doente que poderá morrer da doença – défice brutal – ou da cura – orçamento 2011. Entre uma e outra morte a falência poderá estar já aí…ou talvez não, a nossa resposta será crucial para a definição do nosso futuro.


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