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Jan
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Uma história lomográfica…(uma resposta a Nanã Sousa Dias)

A internet tem destas coisas, alguém acaba um dia por desenterrar o que anda em arquivo em blogues, fóruns, etc. Isto a propósito de um link que alguém no Facebook desenterrou no arquivo do blogue de Nanã Sousa Dias (o blogue foi entretanto apagado…), com uma historinha – a todos os niveis – com laivos de ressabiamento que de facto não se percebe (o Google ainda tem o texto em cache para poderem ler, quando o mesmo desaparecer eu tenho os screenshots do texto na íntegra e actualizo este artigo).

Vamos por partes, nada me move contra Nanã Sousa Dias. Mas é um facto de que o seu texto, sobretudo partindo do príncipio de quem o escreve tem algum peso na fotografia em Portugal e é um organizador de workshops, tem um tom bastante ressentido e estranho.
Mas sobretudo o texto mostra um preconceito sobre determinado equipamento que é um verdadeiro nonsense, se há alguém que não gosta da filosofia da Lomo parece-me normal dado que é impossível agradar a todos, que de repente se ataque as pessoas que fazem fotografia com esse equipamento parece-me esticar o argumento demasiado longe. Se iniciarmos um ataque cerrado às marcas que têm uma filosofia diferente e cujos clientes têm uma atitude também diferente em relação à fotografia podemos começar na Lomo mas já agora porque não à Leica, à Alpa, à Zero Image pinholes, etc.? Porque o essencial do texto do NSD é mesmo esse, são equipamentos “diferentes” com clientes que os compram para se sentirem especiais ou fora do comum, certo?
E como ponto de reflexão podemos argumentar desde quando é que determinado equipamento faz ou deixa fazer uma boa fotografia apenas porque é standard ou normal? Quantas pessoas têm equipamentos de milhares de euros e que nem uma fotografia sabem fazer? – não digo tirar porque isso basta carregar no disparador… Quantas Leicas andam ao peito de gente que apenas quer mostrar o status?…
E o que impede um projecto realizado com uma Lomo de ganhar um prémio BESPhoto (prémio que aliás não faz parte das minhas preferências)? No regulamento impede o uso de uma Lomo? Ou seja eu faço uma exposição numa galeria com fotografia feita com uma Lomo e depois não posso ser seleccionado para o prémio BES? Portanto para ganhar um prémio eu tenho que ter uma boa máquina.

NSD reduz as Lomos a fenómeno de moda, de trend sem nenhum uso além de acessório fashion. Pior, NSD reduz o utilizador Lomo a um bando de freaks, a uma pobre tribo urbana e ainda por cima goza os mesmos; mais uma vez parece-me argumento pobre para início de conversa. Mas que tal valorizar as pessoas que fazem bons trabalhos com Lomos? Que tal ver o trabalho A&J de José Júpiter? E o trabalho Thrills & Chills de Isa Leshko?

I create these images with a Holga camera to provide them with a vernacular feel and a sense of immediacy. The camera’s plastic lens distorts the scale of these rides, particularly when they are photographed against an open sky. I also find working with such an imprecise and flawed camera to be a frightening and liberating experience, akin to being on a roller coaster.

Isa Leshko

Não é esta a essência da boa fotografia? Ter um projecto, adequar o equipamento ao mesmo e construir esse mesmo projecto?
E o exemplo de Wallace Billingham com uma Lomo e filme infra-vermelho? E como catalogar o trabalho de Steph Parke? É boa ou má fotografia? E é classificada de boa ou má por ser feita com uma Lomo ou por critérios de validade e qualidade estética?

Se vamos valorizar o trabalho artístico pelo uso do equipamento “correcto” como classificar o trabalho do pintor Jackson Pollock?

In the process of making paintings in this way, he moved away from figurative representation, and challenged the Western tradition of using easel and brush. He also moved away from the use of only the hand and wrist, since he used his whole body to paint. In 1956, Time magazine dubbed Pollock “Jack the Dripper” as a result of his unique painting style.

Wikipédia

O uso de ferramentas “fora do comum” não será uma forma de o artista enfrentar os cânones estabelecidos? E não são esses confrontos ensaiados por um conjunto de artistas que fazem um meio evoluir? Estará a fotografia tão petrificada que não permite que alguém use um equipamento não regulamentar como suporte de expressão fotográfica? Esse é de facto o problema do texto de NSD, depreende-se do mesmo que para fazer boa fotografia:
a) é necessário bom equipamento;
b) não ser um “tipo diferente” ou seja alguém que não agite as águas;
c) não pode fotografar o dia-a-dia;
d) não pode obedecer a certos dress-codes.

Portanto eu proponho que se deitem fora as Lomos, as Polaroids, as Dianas e que se use o iPhone apenas para telefonar dado que é impossível fazer boa fotografia com esse equipamento como Chase Jarvis prova nas suas mui fraquinhas fotografias…

Rules are mostly made to be broken and are too often for the lazy to hide behind

General MacArthur

Talvez o melhor e mais correcto seja não agitar muito as águas e seguir o que está estabelecido, até porque o estabelecido está provado e deus nos livre de querer seguir caminhos não trilhados, corremos sempre o risco de nos perdermos e isso nunca é bom. Portanto tirem as câmaras de grande-formato da prateleira, peguem nas folhas de filme e deitem fora as máquinas digitais, os scanners, as Lomo porque foi assim que os grandes mestres trabalharam com sucesso.

Acho que a criatividade e originalidade têm que andar lado a lado e se isso significa para determinado fotógrafo usar um equipamento fora do comum assim seja. Que o equipamento não sirva de escudo para resultados maus mas também não seja o principal responsável pelo sucesso de determinado projecto.
Um bom fotógrafo é um hábil mestre de combinar visão e equipamento e alinhar “olhar” e câmara para um resultado final fora do comum. E isso consegue-se com uma Nikon D3x ou com uma Lomo, se por trás de cada uma destas máquinas não estiver alguém criativo e original o resultado final é o mesmo: um falhanço rotundo. Conseguir realizar um projecto com uma máquina de 70€ num mundo que tem à disposição equipamentos na ordem dos 20.000€ é a prova de que a fotografia é um meio democrático onde um artista com visão a pode realizar sem grandes meios. Que isto incomode algumas pessoas é algo que me transcende…


3 Responses to “Uma história lomográfica…(uma resposta a Nanã Sousa Dias)”


  1. Janeiro 24, 2011 às 11:27 pm

    Estou completamente de acordo com a tua visão do preconceito de NSD. Eu ando a fotografar com o telemóvel, para um projecto a que chamei Projecto Polandroid. O resultado pode não ter qualquer interesse para outras pessoas, mas a mim está-me a ensinar algumas coisas.

    • Janeiro 25, 2011 às 6:40 pm

      infelizmente este tipo de situação onde alguém acha que o equipamento faz a foto é habitual. para mim o importante é usar a ferramenta própria para cada situação, ninguém faz fotografia de acção com uma Lomo mas para um projecto pessoal pode fazer todo o sentido…
      abraço

  2. 3 Nanã Sousa Dias
    Janeiro 24, 2014 às 4:25 am

    Caro amigo, talvez você não tenha entendido o que pretendi dizer…ou, admito, talvez eu não me tenha explicado bem. Esta história da “Lomografia” não passa de uma estratégia de marketing,à qual aderem apenas os que se sentem por ela atraídos. A Lomografia, custe o que custar, não existe! Existe a Fotografia, não existe Lomografia, assim como não existe Hasselbladografia, Canongrafia, Nikongrafia, Linhofografia, etc. Embaixada Lomográfica, também não passa duma estratégia de marketing, não é nada mais do que isso. Fui “alertado”, por um amigo, desta sua resposta ao texto “humorístico” que publiquei no meu blog, há cerca de 4 anos. Preferia tê-lo feito no meu blogue que, contrariamente ao que o meu caro amigo diz, não foi apagado, como este link pode comprovar: http://www.nanasousadias.blogspot.pt/search?updated-max=2010-02-27T05:11:00-08:00&max-results=7&start=28&by-date=false.

    Tal como o meu caro amigo diz e que, desde já, muito agradeço, que não tem nada contra mim, eu também não tenho nada contra as Lomo, elas existem, eu existo, e tá-se bem…

    Já quanto à sua comparação das Lomo com as Leica e Alpa, alto lá, meu caro amigo, se você não sabe ver as diferenças entre estes 3 equipamentos, terei todo o prazer em elucidá-lo sem que, para isso, tenha de se inscrever num dos meus workshops, asseguro-lhe , desde já que estamos perante os extremos da tecnologia fotográfica, seria a mesma coisa que comparar o Zé Castelo Branco com o Dalai Lama, Lili Caneças com Marilyn Monroe, ou coisa semelhante.

    Quanto ao resto, meu caro, pode ter a certeza de que eu não sou do género de me enfeitar com peças de joalheria fotográfica, todas a minhas máquinas analógicas são mesmo velhas e foram compradas em não sei quantas-mãos, não tenho nenhuma Leica nem nunca quis ter uma e não vou nunca ter uma, pois prefiro uma velha Rolleiflex ou Hasselblad, muito mais baratas, no mercado de usados e com MUITO melhores resultados, devido às dimensões do negativo.

    Voltando à Lomografia e ao meu texto…tal como os representantes da Lomo se acham no direito de inventar termos como “Lomografia” ou “Embaixada Lomográfica”, eu reservo-me o direito de achar que tudo isso não passa de uma grotesca forma de publicitar um produto que é de baixa qualidade, na minha opinião.

    Para terminar, eu não tenho nada contra fotógrafos que utilizam Lomo. Um bom fotógrafo, consegue bons resultados com qualquer máquina, como foi comprovado nos anos 70, através duma reportagem realizada com uma Kodak Instamatic com lente de plástico, que foi publicada na Photo, na época uma das mais importantes revistas de fotografia do mundo. O que eu pretendia satirizar, no meu artigo, era o facto de alguns “artistas” acharem que, a sua “cruzada”, para se tornarem “diferentes”, passaria por fotografar com uma Lomo, ou seja, uma máquina diferente, que os torna diferentes e que isso os transforma, automaticamente, em “artistas”. Ora, como todos sabemos…bom, se calhar, nem todos mas, muitos de nós sabem, isso não corresponde à verdade.

    Quanto a esta história do “ser diferente”, só tenho a dizer o seguinte, é MUITO bom ser diferente, no entanto, ser APENAS diferente, não chega, caro amigo, é preciso ser diferente, porém, MUITO BOM!!!! Ora, isso não se consegue apenas por usar uma Lomo, Leica, Hasselblad, Alpa, Silvestri, ou mais uma data de marcas “gourmet” que muita gente nem seque desconfia que existem…é preciso ter “olho”.


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