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World Press Photo 2011

O que é hoje o fotojornalismo? O que “vale” uma imagem para ganhar o World Press Photo?
Esta fotografia ganhou o World Press Photo 2011, sem legenda adicional dificilmente percebemos o que aqui se retrata, poderia ser um ferido de guerra ou uma vítima de um ataque de um animal selvagem mas pela leitura do texto que a acompanha conhecemos o drama por trás da imagem. A visualização da imagem não me permite de imediato contextualizar a imagem no espaço/tempo de forma a que a mesma faça sentido. E não será esse o último destino de uma fotografia de fotojornalismo? Ou seja uma boa fotografia de jornalismo não deveria contextualizar de forma a informar?

Agora coloco outra questão: a força desta fotografia vem da história que (não) conta ou do horror que desperta?
Sem desvalorizar o contexto (uma sociedade arcaica e sem sentido que permite a desfiguração das suas mulheres por respeito a regras completamente desumanas) ou o drama que desconhecemos, acho que esta fotografia falha nos aspectos que referi; é no entanto um forte retrato cuja força transcende um pouco a fotografia e que atira para o público uma realidade que urge denunciar, nesse aspecto este retrato e este prémio podem ser factores importantes no combate a estas práticas bárbaras. É um facto que visualizar a imagem na web em tamanhos diminutos pode não ajudar a avaliar correctamente a fotografia em causa mas na minha opinião existem trabalhos de grande fôlego para ganhar este prémio. Além do primeiro prémio esta fotografia ainda ganhou o prémio de retrato (esse bem atribuído na minha opinião), por exemplo na secção Contemporary Issues o trabalho de Sarah Elliot é uma excelente reportagem a todos os níveis, ficou-se pelo terceiro lugar…

Se eu fosse júri a minha escolha era esta:
© Corentin Fohlen/WPP

A diferença de atitudes entre o primeiro plano, onde se sente a tensão e raiva, e a segundo plano onde se descontrai em plena barricada; a raiva latente no olhar, o David contra um Golias que não se vê mas que se sente, a fisga enquanto arma de arremesso que nada irá mudar, a atitude, o cenário de guerra civil…
Sou altamente suspeito porque desde que vi esta fotografia nunca a consegui esquecer. Talvez seja esse o mérito das grandes fotografias de jornalismo/reportagem, criar imagens inesquecíveis. Suspeito que a fotografia que ganhou irá ser mais um ícone inconsequente, se conseguir pelo menos atrair a atenção do público para as atrocidades cometidas em nome de uma sociedade arcaica e fechada já terá cumprido a sua função. Eu duvido um pouco da sua eficácia estética e de reportagem a ponto de ganhar o World Press Photo, mas isso sou eu. Dêem os leitores a sua opinião.


1 Response to “World Press Photo 2011”


  1. 1 R. Vasconcelos
    Fevereiro 12, 2011 às 8:25 pm

    Mário, parece-me que o fotojornalismo é hoje o que sempre foi: a visão imediata, o olhar, a intenção de divulgar e mostrar a uma parte do mundo o que se passa na outra parte.
    Na guerra mostra-se a parte bélica à parte pacífica; na sociedade contemporânea mostra-se a parte pobre à parte rica; numa visão geográfica, mostra-se a Ásia e a África à América do Norte e à Europa.
    Existe a necessidade de ver como está o “outro” ou a “outra parte”, ficando para segundo plano em que circunstâncias foi essa parte alvo de uma amputação que a separa do todo e a evidencia como a parte mais fraca. Se olharmos para os jornais à procura de notícias (excluindo como é obvio as de desporto e de economia) reparamos em duas medidas: 98/2, onde 98 são notícias sobre os fracos, os pobres, os oprimidos; é aqui que o fotojornalismo é igual ao que sempre foi: uma ferramenta ao serviço da humanidade.

    A fotografia da fotógrafa Sul-Africana Jodi Bieber é forte, tem presença e é uma boa fotografia fotojornalística, isto porque em conjunto com o texto nos dá a visão total do que nos quer transmitir: a falta de ética dos julgamentos (se é que se podem chamar julgamentos), a mentalidade retrógrada da própria justiça, a desigualdade entre homens e mulheres e uma enorme falta de respeito pelos direitos humanos. É assim uma imagem em consonância com o texto que a acompanha.

    Convêm esclarecer o que é o fotojornalismo para não confundirmos e misturarmos os diversos tipos/conceitos de fotografia.
    O fotojornalismo nasceu do jornalismo. Este vai beber no seu código ético e deontológico. O fotojornalismo não vive sem texto, sem a palavra, nem sem o valor da escrita. A fotografia não é o ponto fulcral do fotojornalismo, é sim uma “ilustração” do texto, serve como argumento visual da palavra. Desde o seu nascimento que a fotografia foi encarada como o registo visual da verdade e foi nesta condição que foi adoptada pela imprensa e mais tarde pelos média.
    De uma forma simples, digamos que o fotojornalismo é filho do jornalismo e enteado da fotografia documental: o fotojornalismo, como processo fotográfico, serve mais o propósito da informação do que da documentação (como é obvio o fotojornalismo também documenta, no entanto não é esse o seu objectivo primordial).
    O fotojornalismo é imediato e cru, guia-se por uma linha editorial, uma intenção defendida a priori pelo editor; a fotografia documental é captada durante um médio/longo prazo de tempo, tem um enorme peso estético, não tem que responder a uma linha editorial e muitas vezes nem tem uma intenção clara a priori, mas sim uma construção ao longo do percurso que vai trilhando.
    Penso que é fundamental – do meu ponto de vista – definir o que é uma e o que é outra. Nada invalida que um fotojornalista de profissão faça fotografia documental (prática o que hoje em dia é bem comum) ou vice-versa, no entanto ambas servem propósitos diferentes no meio fotográfico.
    A fotografia é incapaz de fornecer determinadas informações vitais para a compreensão do que retrata (este é um desses caos) por isso mesmo o fotojornalismo baseia-se na relação texto-imagem para transmitir em pleno a informação.

    Relativamente à fotografia vencedora, a minha definição é: uma imagem abrupta onde o olhar transmite presença, a força da imagem vem da conjugação destes dois factores.
    Vendo de um outro ponto de vista, a semelhança com a Afegã assustada mas colorida de Steve McCurry é intensa, no entanto na fotografia da fotógrafa Sul-Africana, a cor não fala, falam as sombras, os olhos (como falavam o da afegã de S. M.) e o seu rosto desfigurado.

    Relativamente à imagem da tua eleição, confesso que é forte, muito forte mesmo, e a tua leitura é excelente, no entanto como fotografia fotojornalística falha no texto que a iria contextualizar, assim não sei do que se trata (ao contrário da que ganhou) nem qual a reivindicação dos jovens, portanto esta fotografia podia ter sido tirada na Amadora, em Brooklyn, em São Paulo ou em muitos outros locais do mundo.

    Existe no entanto um pormenor fabuloso, na minha opinião, na fotografia de fotojornalismo e que tu acabas por referir na última parte do teu texto.
    As grandes fotografias de fotojornalismo acabam por deixar para trás o texto que a elas estava associado sobrevivendo sem essa informação que numa primeira leitura era vital para a compreensão e contextualização da fotografia. Ao ser reconhecida ela tornou-se num símbolo da matéria que aborda, sendo reconhecido o seu significado sem necessidade de o aprofundar; por outro lado, se ela ganhar, por exemplo, contornos de um movimento libertador dos direitos das mulheres afegãs, passa a ser reconhecido como um ícone.

    Abraço,

    RV


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