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Fev
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World Press Photo 2011 (actualização)

Não é meu hábito responder a comentários fora do artigo original mas desta vez vou abrir uma excepção e explico porquê. Quando publiquei o meu artigo sobre o prémio WPP 2011 não imaginava que iria receber um comentário tão brilhante e cuja capacidade de reflexão é absolutamente extraordinária, não é um comentário, é um texto à parte. Agradeço ao Ricardo Vasconcelos o comentário que merece aqui um destaque e uma nova reflexão e resposta da minha parte.

Mário, parece-me que o fotojornalismo é hoje o que sempre foi: a visão imediata, o olhar, a intenção de divulgar e mostrar a uma parte do mundo o que se passa na outra parte.
Na guerra mostra-se a parte bélica à parte pacífica; na sociedade contemporânea mostra-se a parte pobre à parte rica; numa visão geográfica, mostra-se a Ásia e a África à América do Norte e à Europa.
Existe a necessidade de ver como está o “outro” ou a “outra parte”, ficando para segundo plano em que circunstâncias foi essa parte alvo de uma amputação que a separa do todo e a evidencia como a parte mais fraca. Se olharmos para os jornais à procura de notícias (excluindo como é obvio as de desporto e de economia) reparamos em duas medidas: 98/2, onde 98 são notícias sobre os fracos, os pobres, os oprimidos; é aqui que o fotojornalismo é igual ao que sempre foi: uma ferramenta ao serviço da humanidade.

A fotografia da fotógrafa Sul-Africana Jodi Bieber é forte, tem presença e é uma boa fotografia fotojornalística, isto porque em conjunto com o texto nos dá a visão total do que nos quer transmitir: a falta de ética dos julgamentos (se é que se podem chamar julgamentos), a mentalidade retrógrada da própria justiça, a desigualdade entre homens e mulheres e uma enorme falta de respeito pelos direitos humanos. É assim uma imagem em consonância com o texto que a acompanha.

Convêm esclarecer o que é o fotojornalismo para não confundirmos e misturarmos os diversos tipos/conceitos de fotografia.
O fotojornalismo nasceu do jornalismo. Este vai beber no seu código ético e deontológico. O fotojornalismo não vive sem texto, sem a palavra, nem sem o valor da escrita. A fotografia não é o ponto fulcral do fotojornalismo, é sim uma “ilustração” do texto, serve como argumento visual da palavra. Desde o seu nascimento que a fotografia foi encarada como o registo visual da verdade e foi nesta condição que foi adoptada pela imprensa e mais tarde pelos média.
De uma forma simples, digamos que o fotojornalismo é filho do jornalismo e enteado da fotografia documental: o fotojornalismo, como processo fotográfico, serve mais o propósito da informação do que da documentação (como é obvio o fotojornalismo também documenta, no entanto não é esse o seu objectivo primordial).
O fotojornalismo é imediato e cru, guia-se por uma linha editorial, uma intenção defendida a priori pelo editor; a fotografia documental é captada durante um médio/longo prazo de tempo, tem um enorme peso estético, não tem que responder a uma linha editorial e muitas vezes nem tem uma intenção clara a priori, mas sim uma construção ao longo do percurso que vai trilhando.
Penso que é fundamental – do meu ponto de vista – definir o que é uma e o que é outra. Nada invalida que um fotojornalista de profissão faça fotografia documental (prática o que hoje em dia é bem comum) ou vice-versa, no entanto ambas servem propósitos diferentes no meio fotográfico.
A fotografia é incapaz de fornecer determinadas informações vitais para a compreensão do que retrata (este é um desses casos) por isso mesmo o fotojornalismo baseia-se na relação texto-imagem para transmitir em pleno a informação.

Relativamente à fotografia vencedora, a minha definição é: uma imagem abrupta onde o olhar transmite presença, a força da imagem vem da conjugação destes dois factores.
Vendo de um outro ponto de vista, a semelhança com a Afegã assustada mas colorida de Steve McCurry é intensa, no entanto na fotografia da fotógrafa Sul-Africana, a cor não fala, falam as sombras, os olhos (como falavam o da afegã de S. M.) e o seu rosto desfigurado.

Relativamente à imagem da tua eleição, confesso que é forte, muito forte mesmo, e a tua leitura é excelente, no entanto como fotografia fotojornalística falha no texto que a iria contextualizar, assim não sei do que se trata (ao contrário da que ganhou) nem qual a reivindicação dos jovens, portanto esta fotografia podia ter sido tirada na Amadora, em Brooklyn, em São Paulo ou em muitos outros locais do mundo.

Existe no entanto um pormenor fabuloso, na minha opinião, na fotografia de fotojornalismo e que tu acabas por referir na última parte do teu texto.
As grandes fotografias de fotojornalismo acabam por deixar para trás o texto que a elas estava associado sobrevivendo sem essa informação que numa primeira leitura era vital para a compreensão e contextualização da fotografia. Ao ser reconhecida ela tornou-se num símbolo da matéria que aborda, sendo reconhecido o seu significado sem necessidade de o aprofundar; por outro lado, se ela ganhar, por exemplo, contornos de um movimento libertador dos direitos das mulheres afegãs, passa a ser reconhecido como um ícone.

Abraço,

RV

Ricardo, começo talvez por esclarecer algo importante: o meu ponto de vista sobre o fotojornalismo é o de alguém de fora, talvez aí se perceba algum do meu problema em aceitar o prémio entregue a Jodi Bibier. O meu principal argumento contra o WPP passa pelo facto de premiar fotos isoladas e não portfolios, para mim talvez seja esta a falha mais grave na sua atribuição, premiar fotografias “soltas”. Porque não premiar, como já faz noutros galardões, séries/histórias?

Pessoalmente acho o fotojornalismo “ilustrativo” – no sentido em que serve de apoio a um texto e que só consegue explicar-se em face deste – secundário face ao fotojornalismo de história, ao conjunto de imagens que juntas retratam uma situação e onde as legendas servem para contextualizar as imagens. Outra questão que será fulcral é que não falo de fotojornalismo tal e qual como nasceu, mas numa caracterização da reportagem fotográfica em todas as suas expressões actuais, falo de um fotojornalismo de cariz fundamentalmente documental, cuja expressão é a afirmação de uma visão pessoal (do fotógrafo) sobre determinado tema cuja actualidade o coloca na ordem do dia. Estou longe da ilustração de jornais e/ou revistas, talvez consiga assim explicar melhor o meu ponto de vista. Parece-me legítimo que uma foto que não tem suporte de outras necessite de um texto ou que sirva apenas de “ilustração” ao texto mas na minha opinião assim perde-se a força das imagens, do portfolio. O fotojornalismo não é tão diferente do resto da fotografia quanto se imagina, no fotojornalismo conta-se um história com imagens que através de uma selecção se organizam de molde a tornar a história perceptível aos leitores. Se precisa de texto? Talvez, até percebo que sim, que o fotojornalismo necessite de uma explicação mas tenho algumas dúvidas sobre a tua visão de que a “A fotografia não é o ponto fulcral do fotojornalismo, é sim uma “ilustração” do texto, serve como argumento visual da palavra”, não concordo (mas tenho um tremendo respeito por ele) com esse ponto de vista, embora perceba a sua validade do ponto de vista puramente académico.

Não considero que um de nós está correcto em detrimento do outro e respectiva opinião, o que realmente penso é que existem várias correntes de reflexão sobre o papel do fotojornalismo nos dias que correm e não considero que o seu papel de ilustração em relação à palavra – que secundariza a imagem em detrimento do texto – esteja a prevalecer sobre o fotojornalismo de cariz documental, forte e independente do texto. Ou seja acho que cada vez mais temos um fotojornalismo de autor, com recurso a linguagens actuais e cuja dependência do texto já não é total. Há lugar para o fotojornalismo de ilustração, não vejo os jornais a viver sem ele, mas isso não quer dizer que o quero ver como primeiro prémio do WPP.

A fotografia que ganhou tem o seu lado icónico e não lho retiro, tem força, tem carácter e coragem de ambas as intervenientes – rapariga afegã e fotógrafa – é um acto de revolta e de alerta. Isso parece-me indiscutível e nunca o coloquei em causa, no entanto a dependência em relação ao texto – a dependência que tu defendes e eu critico – é para mim o seu ponto fraco e que a torna ilustrativa e não afirmativa.
Irá ser um ícone incontestável? Não sei mas o tempo o dirá. Se a glorificação do horror me choca? Talvez… A Biebir falta-lhe o plano de longo prazo, a agenda de divulgação, fez uma boa fotografia para ilustrar um texto e ganhou o WPP, parece-me curto até em face do trabalho que tem vindo a desenvolver noutros projectos, basta navegar no seu site para perceber que é a todos os níveis uma fotógrafa admirável. E o mais interessante da questão é que a própria Bieber não usa qualquer tipo de texto – nem sequer legendas – para explicar as suas fotos.

Termino a minha reflexão com outro exemplo do que é, na minha opinião, o novo fotojornalismo documental: Nina Berman? Não há ali uma única palavra mas no entanto as imagens explicam-se a elas próprias, podia escolher vários exemplos onde não existe texto mas escolhi Nina Berman porque em 2005 ganhou um World Press Photo.

Não queria fechar este artigo sem agradecer ao Ricardo a sua reflexão, num blogue como este que pretende reflectir sobre o estado actual da fotografia é para mim fundamental poder contar com opiniões como a do Ricardo.


2 Responses to “World Press Photo 2011 (actualização)”


  1. 1 Ricardo Vasconcelos
    Fevereiro 14, 2011 às 11:01 pm

    Mário,
    Era imperativo uma resposta tua para complementar o que escrevi, muito obrigado.

    Eu não tenho problemas em aceitar o prémio exactamente pelo motivo que referiste: ele premeia uma fotografia e o seu fotógrafo. Se, por outro lado, fosse um prémio com base em portfólio ou num ensaio, já era outra a forma de “ver” a fotografia e também era outra a forma de abordar o próprio prémio e a forma como foi premiada a fotógrafa.

    Relativamente aos prémios, seja em que áreas forem, eu defendo que não são inócuos nem tão pouco unívocos. Muitas vezes existe uma “intenção”, um significado, regra geral forçado, para a atribuição do prémio. Dou só e apenas o exemplo do Presidente Norte-Americano Barack Obama com o prémio Nobel da Paz; no fundo, uma forma de pressionar o líder de uma superpotência a renunciar à guerra.
    Aqui parece-me que a intenção é semelhante; alertar e sensibilizar para um trauma de um povo, de uma nação que está há muito perdida. A diferença, do ponto de vista ético, relativamente ao Prémio Nobel da Paz, é que esta fotografia tem provas dadas, seja através da sua qualidade, seja através do seu alcance; a fotógrafa mostrou também integridade e respeito pela fotografada e o resultado é uma fotografia que pode vir a tornar-se um ícone. (Aqui, podíamos entrar na questão: para quem seria ela – a afegã – um ícone, para nós ocidentais ou para eles, nativos do médio oriente? «esta daria pano para mangas Mário»)

    Relativamente ao fotojornalismo, vejo-o como ilustrativo e dependente da palavra. O que me parece é que os média se apoderaram e cruzaram os conceitos de fotojornalismo e fotografia documental. Tudo o que aparece num jornal passa a ser imediatamente apelidado de fotojornalismo, tal não é verdade, temos de ver, aprofundar e contextualizar os contornos do ensaio e perceber o que está entrelinhas. Um exemplo: a National Geographic tem ensaios que duram semanas (alguns chegam mesmo a ser meses), dá total liberdade aos seus fotógrafos na forma e na estética das fotografias (não tem editor a priori, o fotógrafo tem total liberdade para se exprimir no seu meio; o editor aparece apenas na fase final de escolha para definir quais são as fotografias que entram na revista, as que entram no site e as que simplesmente não entram), no entanto os ensaios aparecem com um (grande/extenso) texto associado. Uns dizem que a National Geographic faz é fotojornalismo, outros fotojornalismo documental, outros fotografia documental. Para mim, independente de ter texto ou não, interessa-me de que forma foi executado e desenvolvido determinado corpo de trabalho, a partir daí é que o caracterizo para melhor entender o seu alcance e assim desfrutar, estudar, comentar e ponderar o seu resultado.
    No fundo é tudo fotografia, mudam as entrelinhas. Essa é a parte que nos compete a nós “ler”.

    Agradeço o teu comentário, mais do que isso, agradeço a troca de ideias e de pontos de vista. Certamente que irão elucidar e ajudar a formar a consciência visual de quem lê e acompanha.
    Espero que mantenhas esta linha que havias preconizado no post “ espaço para reflectir…” de 11 de Janeiro de 2011, de forma a dinamizar não só o blog, mas também a levar à reflexão, à ponderação e à repercussão de ideias e opiniões, de forma a reforçar os ideais da cultura visual, em geral, e da fotografia, em particular.

    Abraço,
    RV

  2. Fevereiro 15, 2011 às 10:25 pm

    Ricardo, mais um bom comentário.

    Repara que o que escrevo é a minha visão e opinião sobre determinado tópico, nada mais. Pessoalmente sempre me inclinei para o fotojornalismo documental, lembro-me de ver em Sevilha (1992) o WPP desse ano onde uma reportagem de Salgado sobre o trabalho dos bombeiros no Iraque para apagar os fogos nos poços de petróleo me deixou uma impressão duradoura.

    É evidente que a minha opinião sobre a fotografia (em geral) está “contaminada” pelo meu papel de comissário na galeria Colorfoto (aí está um bom tema…) e nesse aspecto a minha perspectiva sobre este meio pode ser (é de certeza) diferente do que uma exclusivamente fotojornalistíca e/ou comercial.

    Já trabalhei com alguns fotojornalistas na galeria que estão um pouco distantes da foto ilustrativa, estando mais próximos do documental do que do suporte puro de texto. Estou obviamente mais interessado no ensaio fotográfico, na história mas como disse essa é a minha visão que não é necessariamente melhor do que qualquer outra. Finalmente temos o exemplo de um bom prémio de fotojornalismo: o prémio Estação de imagem|Mora, para mim uma verdadeira surpresa onde os fotógrafos apresentam a concurso um conjunto de fotografias (nove o ano passado, doze a partir deste ano), é uma exposição a não perder no CPF no Porto.

    Mas concordo contigo quando dizes que o prémio atribuído a Bieber tem uma “agenda” por trás, e sim talvez ela venha a ser maior ícone para nós ocidentais do que para o seu próprio povo…

    Abraço e obrigado!

    mário


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