Posts Tagged ‘2011

11
Maio
11

Fazer + em 2011

Existem claramente dois projectos que eu gostaria de iniciar em 2011, é algo que anda aqui dentro da minha cabeça e que não me larga, são projectos virados para fora ou seja não são projectos pessoais.
Um deles tem como destino os leitores, e não só, deste blogue, o outro seria virado para um conjunto de fotógrafos em particular. Acho que existe uma altura nas nossas vidas em que perder tempo deixa de ser opção e que é nesse momento certo que decidimos passar à acção, acho que estou claramente num desses momentos. Interessa-me especialmente consituir aqui neste blogue uma plataforma alargada de apoio à produção independente e amadora de fotografia de bom nível. Isso não se faz de um dia para o outro e claramente precisa de ser equacionado o “como” mas os traços largos estão mais ou menos definidos na minha cabeça. O outro projecto é uma plataforma mais específica de conjugação de esforços de vários fotógrafos em torno de objectivos comuns. Mas o melhor é passar directamente para a descrição de cada um deles para que se entenda bem o que desejo.

Selecção de portfólios

O meu projecto é iniciar uma selecção de portfolios em duas etapas ao longo de um ano e depois atribuir um prémio ao melhor portfolio que eventualmente seria atribuído em vales de compras de material fotográfico. No projecto haverá lugar a uma exposição colectiva dos melhores trabalhos (em local a seleccionar) e os custos de imprerssão seriam assumidos por mim ou através de patrocínio, isso ainda não está cem por cento claro. Isto não seria de certeza um concurso, seria uma selecção a meu gosto, dos projectos que eu considere que trazem algo de novo à fotografia amadora e idealmente seria comissariado por mim e por outro convidado. Isto claro no pressuposto que consigo colocar isto fora do papel e a andar, tenho o regulamento quase pronto e isto esteve quase a avançar no meu novo projecto mas que pelas razões que conhecem está em stand-by
Mas é algo em que me vou ter que aplicar a cem por cento nos próximos meses para colocar esta minha ideia a finalmente a dar frutos.

Colectivo
Este projecto é mais específico e dirigido a um target também específico: gostaria de formar um colectivo com fotógrafos amadores para em conjunto criar uma plataforma que nos permitisse a todos apoio mútuo. Procuro gente criativa, que vê a fotografia de forma original, que não tem medo de trabalhar em suportes low-fi (smartphones, Lomo, Polaroid, filme, máquinas antigas e filmes expirados) mas que não dispensa a mais recente tecnologia digital, que gosta de trabalhar em conjunto e que trabalha em projectos e/ou séries. Parece impossível juntar sete ou oito pessoas deste calibre porque em Portugal cada um gosta de se agarrar ao seu “cantinho” com medo de partilhar ideias e conceitos. Eu gostaria de ver nesse grupo fotógrafos a fazer paisagem e tipologias urbanas, a expor em conjunto, a apoiar-se mutuamente na selecção de portfolios, na impressão e na montagem de exposições. Fotógrafos sem medo da web mas com vontade de fugir aos Flickrs e similares, com vontade de comunicar e sair do marasmo.
Parece-me francamente uma utopia mas sem sonhar e sem colocar a fasquia lá em cima acabamos por ficar estagnados, por trás da minha ideia está a certeza de que em conjunto a troca de ideias e opiniões acaba por ser extremamente enriquecedora. Com o Skype e ferramentas online a distância não é problema e seria interessante reunir um leque alargado de fotógrafos interessantes e interessados. Penso que conseguiria arranjar uma sala onde o colectivo se juntasse de vez em quando aqui no Porto mas de resto até com umas duas horas por semana a coisa se faz online. Se alguém estiver desse lado e achar que isto faz sentido pode contactar-me via os contactos que estão aqui ao lado…

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14
Mar
11

E depois da terra tremer…

Depois do terramoto e subsequente tsunami que arrasou o Japão, agora começamos a conhecer através de fotografias o dia seguinte.

We’re shaken but fine
Em Tóquio os donos da loja Japan Exposure relatam o dia seguinte e um dos sócios publicou no seu flickr as fotos do pós terramoto no seu apartamento.

1 hour photo shop window in Tokyo
como o nome indica, é a montra de uma loja de fotografia em Tóquio logo após o terramoto de 11 de Março.

The world front pages
No Foto8 um slideshow com as primeiras páginas de jornais que relatam a tragédia.

OMV scarf
Um lenço de seda (com duas versões, uma a cores outra a preto&branco) cuja venda servirá para ajudar as vítimas, através da Cruz Vermelha. (via Quinta do Sargaçal)

Japan – vast devastation
Numa palavra: devastador. Boston Big Picture

14
Fev
11

World Press Photo 2011 (actualização)

Não é meu hábito responder a comentários fora do artigo original mas desta vez vou abrir uma excepção e explico porquê. Quando publiquei o meu artigo sobre o prémio WPP 2011 não imaginava que iria receber um comentário tão brilhante e cuja capacidade de reflexão é absolutamente extraordinária, não é um comentário, é um texto à parte. Agradeço ao Ricardo Vasconcelos o comentário que merece aqui um destaque e uma nova reflexão e resposta da minha parte.

Mário, parece-me que o fotojornalismo é hoje o que sempre foi: a visão imediata, o olhar, a intenção de divulgar e mostrar a uma parte do mundo o que se passa na outra parte.
Na guerra mostra-se a parte bélica à parte pacífica; na sociedade contemporânea mostra-se a parte pobre à parte rica; numa visão geográfica, mostra-se a Ásia e a África à América do Norte e à Europa.
Existe a necessidade de ver como está o “outro” ou a “outra parte”, ficando para segundo plano em que circunstâncias foi essa parte alvo de uma amputação que a separa do todo e a evidencia como a parte mais fraca. Se olharmos para os jornais à procura de notícias (excluindo como é obvio as de desporto e de economia) reparamos em duas medidas: 98/2, onde 98 são notícias sobre os fracos, os pobres, os oprimidos; é aqui que o fotojornalismo é igual ao que sempre foi: uma ferramenta ao serviço da humanidade.

A fotografia da fotógrafa Sul-Africana Jodi Bieber é forte, tem presença e é uma boa fotografia fotojornalística, isto porque em conjunto com o texto nos dá a visão total do que nos quer transmitir: a falta de ética dos julgamentos (se é que se podem chamar julgamentos), a mentalidade retrógrada da própria justiça, a desigualdade entre homens e mulheres e uma enorme falta de respeito pelos direitos humanos. É assim uma imagem em consonância com o texto que a acompanha.

Convêm esclarecer o que é o fotojornalismo para não confundirmos e misturarmos os diversos tipos/conceitos de fotografia.
O fotojornalismo nasceu do jornalismo. Este vai beber no seu código ético e deontológico. O fotojornalismo não vive sem texto, sem a palavra, nem sem o valor da escrita. A fotografia não é o ponto fulcral do fotojornalismo, é sim uma “ilustração” do texto, serve como argumento visual da palavra. Desde o seu nascimento que a fotografia foi encarada como o registo visual da verdade e foi nesta condição que foi adoptada pela imprensa e mais tarde pelos média.
De uma forma simples, digamos que o fotojornalismo é filho do jornalismo e enteado da fotografia documental: o fotojornalismo, como processo fotográfico, serve mais o propósito da informação do que da documentação (como é obvio o fotojornalismo também documenta, no entanto não é esse o seu objectivo primordial).
O fotojornalismo é imediato e cru, guia-se por uma linha editorial, uma intenção defendida a priori pelo editor; a fotografia documental é captada durante um médio/longo prazo de tempo, tem um enorme peso estético, não tem que responder a uma linha editorial e muitas vezes nem tem uma intenção clara a priori, mas sim uma construção ao longo do percurso que vai trilhando.
Penso que é fundamental – do meu ponto de vista – definir o que é uma e o que é outra. Nada invalida que um fotojornalista de profissão faça fotografia documental (prática o que hoje em dia é bem comum) ou vice-versa, no entanto ambas servem propósitos diferentes no meio fotográfico.
A fotografia é incapaz de fornecer determinadas informações vitais para a compreensão do que retrata (este é um desses casos) por isso mesmo o fotojornalismo baseia-se na relação texto-imagem para transmitir em pleno a informação.

Relativamente à fotografia vencedora, a minha definição é: uma imagem abrupta onde o olhar transmite presença, a força da imagem vem da conjugação destes dois factores.
Vendo de um outro ponto de vista, a semelhança com a Afegã assustada mas colorida de Steve McCurry é intensa, no entanto na fotografia da fotógrafa Sul-Africana, a cor não fala, falam as sombras, os olhos (como falavam o da afegã de S. M.) e o seu rosto desfigurado.

Relativamente à imagem da tua eleição, confesso que é forte, muito forte mesmo, e a tua leitura é excelente, no entanto como fotografia fotojornalística falha no texto que a iria contextualizar, assim não sei do que se trata (ao contrário da que ganhou) nem qual a reivindicação dos jovens, portanto esta fotografia podia ter sido tirada na Amadora, em Brooklyn, em São Paulo ou em muitos outros locais do mundo.

Existe no entanto um pormenor fabuloso, na minha opinião, na fotografia de fotojornalismo e que tu acabas por referir na última parte do teu texto.
As grandes fotografias de fotojornalismo acabam por deixar para trás o texto que a elas estava associado sobrevivendo sem essa informação que numa primeira leitura era vital para a compreensão e contextualização da fotografia. Ao ser reconhecida ela tornou-se num símbolo da matéria que aborda, sendo reconhecido o seu significado sem necessidade de o aprofundar; por outro lado, se ela ganhar, por exemplo, contornos de um movimento libertador dos direitos das mulheres afegãs, passa a ser reconhecido como um ícone.

Abraço,

RV

Ricardo, começo talvez por esclarecer algo importante: o meu ponto de vista sobre o fotojornalismo é o de alguém de fora, talvez aí se perceba algum do meu problema em aceitar o prémio entregue a Jodi Bibier. O meu principal argumento contra o WPP passa pelo facto de premiar fotos isoladas e não portfolios, para mim talvez seja esta a falha mais grave na sua atribuição, premiar fotografias “soltas”. Porque não premiar, como já faz noutros galardões, séries/histórias?

Pessoalmente acho o fotojornalismo “ilustrativo” – no sentido em que serve de apoio a um texto e que só consegue explicar-se em face deste – secundário face ao fotojornalismo de história, ao conjunto de imagens que juntas retratam uma situação e onde as legendas servem para contextualizar as imagens. Outra questão que será fulcral é que não falo de fotojornalismo tal e qual como nasceu, mas numa caracterização da reportagem fotográfica em todas as suas expressões actuais, falo de um fotojornalismo de cariz fundamentalmente documental, cuja expressão é a afirmação de uma visão pessoal (do fotógrafo) sobre determinado tema cuja actualidade o coloca na ordem do dia. Estou longe da ilustração de jornais e/ou revistas, talvez consiga assim explicar melhor o meu ponto de vista. Parece-me legítimo que uma foto que não tem suporte de outras necessite de um texto ou que sirva apenas de “ilustração” ao texto mas na minha opinião assim perde-se a força das imagens, do portfolio. O fotojornalismo não é tão diferente do resto da fotografia quanto se imagina, no fotojornalismo conta-se um história com imagens que através de uma selecção se organizam de molde a tornar a história perceptível aos leitores. Se precisa de texto? Talvez, até percebo que sim, que o fotojornalismo necessite de uma explicação mas tenho algumas dúvidas sobre a tua visão de que a “A fotografia não é o ponto fulcral do fotojornalismo, é sim uma “ilustração” do texto, serve como argumento visual da palavra”, não concordo (mas tenho um tremendo respeito por ele) com esse ponto de vista, embora perceba a sua validade do ponto de vista puramente académico.

Não considero que um de nós está correcto em detrimento do outro e respectiva opinião, o que realmente penso é que existem várias correntes de reflexão sobre o papel do fotojornalismo nos dias que correm e não considero que o seu papel de ilustração em relação à palavra – que secundariza a imagem em detrimento do texto – esteja a prevalecer sobre o fotojornalismo de cariz documental, forte e independente do texto. Ou seja acho que cada vez mais temos um fotojornalismo de autor, com recurso a linguagens actuais e cuja dependência do texto já não é total. Há lugar para o fotojornalismo de ilustração, não vejo os jornais a viver sem ele, mas isso não quer dizer que o quero ver como primeiro prémio do WPP.

A fotografia que ganhou tem o seu lado icónico e não lho retiro, tem força, tem carácter e coragem de ambas as intervenientes – rapariga afegã e fotógrafa – é um acto de revolta e de alerta. Isso parece-me indiscutível e nunca o coloquei em causa, no entanto a dependência em relação ao texto – a dependência que tu defendes e eu critico – é para mim o seu ponto fraco e que a torna ilustrativa e não afirmativa.
Irá ser um ícone incontestável? Não sei mas o tempo o dirá. Se a glorificação do horror me choca? Talvez… A Biebir falta-lhe o plano de longo prazo, a agenda de divulgação, fez uma boa fotografia para ilustrar um texto e ganhou o WPP, parece-me curto até em face do trabalho que tem vindo a desenvolver noutros projectos, basta navegar no seu site para perceber que é a todos os níveis uma fotógrafa admirável. E o mais interessante da questão é que a própria Bieber não usa qualquer tipo de texto – nem sequer legendas – para explicar as suas fotos.

Termino a minha reflexão com outro exemplo do que é, na minha opinião, o novo fotojornalismo documental: Nina Berman? Não há ali uma única palavra mas no entanto as imagens explicam-se a elas próprias, podia escolher vários exemplos onde não existe texto mas escolhi Nina Berman porque em 2005 ganhou um World Press Photo.

Não queria fechar este artigo sem agradecer ao Ricardo a sua reflexão, num blogue como este que pretende reflectir sobre o estado actual da fotografia é para mim fundamental poder contar com opiniões como a do Ricardo.

11
Fev
11

World Press Photo 2011

O que é hoje o fotojornalismo? O que “vale” uma imagem para ganhar o World Press Photo?
Esta fotografia ganhou o World Press Photo 2011, sem legenda adicional dificilmente percebemos o que aqui se retrata, poderia ser um ferido de guerra ou uma vítima de um ataque de um animal selvagem mas pela leitura do texto que a acompanha conhecemos o drama por trás da imagem. A visualização da imagem não me permite de imediato contextualizar a imagem no espaço/tempo de forma a que a mesma faça sentido. E não será esse o último destino de uma fotografia de fotojornalismo? Ou seja uma boa fotografia de jornalismo não deveria contextualizar de forma a informar?

Agora coloco outra questão: a força desta fotografia vem da história que (não) conta ou do horror que desperta?
Sem desvalorizar o contexto (uma sociedade arcaica e sem sentido que permite a desfiguração das suas mulheres por respeito a regras completamente desumanas) ou o drama que desconhecemos, acho que esta fotografia falha nos aspectos que referi; é no entanto um forte retrato cuja força transcende um pouco a fotografia e que atira para o público uma realidade que urge denunciar, nesse aspecto este retrato e este prémio podem ser factores importantes no combate a estas práticas bárbaras. É um facto que visualizar a imagem na web em tamanhos diminutos pode não ajudar a avaliar correctamente a fotografia em causa mas na minha opinião existem trabalhos de grande fôlego para ganhar este prémio. Além do primeiro prémio esta fotografia ainda ganhou o prémio de retrato (esse bem atribuído na minha opinião), por exemplo na secção Contemporary Issues o trabalho de Sarah Elliot é uma excelente reportagem a todos os níveis, ficou-se pelo terceiro lugar…

Se eu fosse júri a minha escolha era esta:
© Corentin Fohlen/WPP

A diferença de atitudes entre o primeiro plano, onde se sente a tensão e raiva, e a segundo plano onde se descontrai em plena barricada; a raiva latente no olhar, o David contra um Golias que não se vê mas que se sente, a fisga enquanto arma de arremesso que nada irá mudar, a atitude, o cenário de guerra civil…
Sou altamente suspeito porque desde que vi esta fotografia nunca a consegui esquecer. Talvez seja esse o mérito das grandes fotografias de jornalismo/reportagem, criar imagens inesquecíveis. Suspeito que a fotografia que ganhou irá ser mais um ícone inconsequente, se conseguir pelo menos atrair a atenção do público para as atrocidades cometidas em nome de uma sociedade arcaica e fechada já terá cumprido a sua função. Eu duvido um pouco da sua eficácia estética e de reportagem a ponto de ganhar o World Press Photo, mas isso sou eu. Dêem os leitores a sua opinião.




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