Posts Tagged ‘fotojornalismo

16
Fev
11

Anna Maria Barry-Jester

© Anna Maria Barry-Jester

Continuo no tópico fotojornalismo depois de nos últimos dias andar às voltas com o World Press Photo. Anna Maria Barry-Jester é uma fotojornalista especializada em reportagens que abordam as questões de saúde em populações de países em desenvolvimento. É fotografia marcadamente documental, de autor e com uma linguagem actual.

© Anna Maria Barry-Jester

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14
Fev
11

World Press Photo 2011 (actualização)

Não é meu hábito responder a comentários fora do artigo original mas desta vez vou abrir uma excepção e explico porquê. Quando publiquei o meu artigo sobre o prémio WPP 2011 não imaginava que iria receber um comentário tão brilhante e cuja capacidade de reflexão é absolutamente extraordinária, não é um comentário, é um texto à parte. Agradeço ao Ricardo Vasconcelos o comentário que merece aqui um destaque e uma nova reflexão e resposta da minha parte.

Mário, parece-me que o fotojornalismo é hoje o que sempre foi: a visão imediata, o olhar, a intenção de divulgar e mostrar a uma parte do mundo o que se passa na outra parte.
Na guerra mostra-se a parte bélica à parte pacífica; na sociedade contemporânea mostra-se a parte pobre à parte rica; numa visão geográfica, mostra-se a Ásia e a África à América do Norte e à Europa.
Existe a necessidade de ver como está o “outro” ou a “outra parte”, ficando para segundo plano em que circunstâncias foi essa parte alvo de uma amputação que a separa do todo e a evidencia como a parte mais fraca. Se olharmos para os jornais à procura de notícias (excluindo como é obvio as de desporto e de economia) reparamos em duas medidas: 98/2, onde 98 são notícias sobre os fracos, os pobres, os oprimidos; é aqui que o fotojornalismo é igual ao que sempre foi: uma ferramenta ao serviço da humanidade.

A fotografia da fotógrafa Sul-Africana Jodi Bieber é forte, tem presença e é uma boa fotografia fotojornalística, isto porque em conjunto com o texto nos dá a visão total do que nos quer transmitir: a falta de ética dos julgamentos (se é que se podem chamar julgamentos), a mentalidade retrógrada da própria justiça, a desigualdade entre homens e mulheres e uma enorme falta de respeito pelos direitos humanos. É assim uma imagem em consonância com o texto que a acompanha.

Convêm esclarecer o que é o fotojornalismo para não confundirmos e misturarmos os diversos tipos/conceitos de fotografia.
O fotojornalismo nasceu do jornalismo. Este vai beber no seu código ético e deontológico. O fotojornalismo não vive sem texto, sem a palavra, nem sem o valor da escrita. A fotografia não é o ponto fulcral do fotojornalismo, é sim uma “ilustração” do texto, serve como argumento visual da palavra. Desde o seu nascimento que a fotografia foi encarada como o registo visual da verdade e foi nesta condição que foi adoptada pela imprensa e mais tarde pelos média.
De uma forma simples, digamos que o fotojornalismo é filho do jornalismo e enteado da fotografia documental: o fotojornalismo, como processo fotográfico, serve mais o propósito da informação do que da documentação (como é obvio o fotojornalismo também documenta, no entanto não é esse o seu objectivo primordial).
O fotojornalismo é imediato e cru, guia-se por uma linha editorial, uma intenção defendida a priori pelo editor; a fotografia documental é captada durante um médio/longo prazo de tempo, tem um enorme peso estético, não tem que responder a uma linha editorial e muitas vezes nem tem uma intenção clara a priori, mas sim uma construção ao longo do percurso que vai trilhando.
Penso que é fundamental – do meu ponto de vista – definir o que é uma e o que é outra. Nada invalida que um fotojornalista de profissão faça fotografia documental (prática o que hoje em dia é bem comum) ou vice-versa, no entanto ambas servem propósitos diferentes no meio fotográfico.
A fotografia é incapaz de fornecer determinadas informações vitais para a compreensão do que retrata (este é um desses casos) por isso mesmo o fotojornalismo baseia-se na relação texto-imagem para transmitir em pleno a informação.

Relativamente à fotografia vencedora, a minha definição é: uma imagem abrupta onde o olhar transmite presença, a força da imagem vem da conjugação destes dois factores.
Vendo de um outro ponto de vista, a semelhança com a Afegã assustada mas colorida de Steve McCurry é intensa, no entanto na fotografia da fotógrafa Sul-Africana, a cor não fala, falam as sombras, os olhos (como falavam o da afegã de S. M.) e o seu rosto desfigurado.

Relativamente à imagem da tua eleição, confesso que é forte, muito forte mesmo, e a tua leitura é excelente, no entanto como fotografia fotojornalística falha no texto que a iria contextualizar, assim não sei do que se trata (ao contrário da que ganhou) nem qual a reivindicação dos jovens, portanto esta fotografia podia ter sido tirada na Amadora, em Brooklyn, em São Paulo ou em muitos outros locais do mundo.

Existe no entanto um pormenor fabuloso, na minha opinião, na fotografia de fotojornalismo e que tu acabas por referir na última parte do teu texto.
As grandes fotografias de fotojornalismo acabam por deixar para trás o texto que a elas estava associado sobrevivendo sem essa informação que numa primeira leitura era vital para a compreensão e contextualização da fotografia. Ao ser reconhecida ela tornou-se num símbolo da matéria que aborda, sendo reconhecido o seu significado sem necessidade de o aprofundar; por outro lado, se ela ganhar, por exemplo, contornos de um movimento libertador dos direitos das mulheres afegãs, passa a ser reconhecido como um ícone.

Abraço,

RV

Ricardo, começo talvez por esclarecer algo importante: o meu ponto de vista sobre o fotojornalismo é o de alguém de fora, talvez aí se perceba algum do meu problema em aceitar o prémio entregue a Jodi Bibier. O meu principal argumento contra o WPP passa pelo facto de premiar fotos isoladas e não portfolios, para mim talvez seja esta a falha mais grave na sua atribuição, premiar fotografias “soltas”. Porque não premiar, como já faz noutros galardões, séries/histórias?

Pessoalmente acho o fotojornalismo “ilustrativo” – no sentido em que serve de apoio a um texto e que só consegue explicar-se em face deste – secundário face ao fotojornalismo de história, ao conjunto de imagens que juntas retratam uma situação e onde as legendas servem para contextualizar as imagens. Outra questão que será fulcral é que não falo de fotojornalismo tal e qual como nasceu, mas numa caracterização da reportagem fotográfica em todas as suas expressões actuais, falo de um fotojornalismo de cariz fundamentalmente documental, cuja expressão é a afirmação de uma visão pessoal (do fotógrafo) sobre determinado tema cuja actualidade o coloca na ordem do dia. Estou longe da ilustração de jornais e/ou revistas, talvez consiga assim explicar melhor o meu ponto de vista. Parece-me legítimo que uma foto que não tem suporte de outras necessite de um texto ou que sirva apenas de “ilustração” ao texto mas na minha opinião assim perde-se a força das imagens, do portfolio. O fotojornalismo não é tão diferente do resto da fotografia quanto se imagina, no fotojornalismo conta-se um história com imagens que através de uma selecção se organizam de molde a tornar a história perceptível aos leitores. Se precisa de texto? Talvez, até percebo que sim, que o fotojornalismo necessite de uma explicação mas tenho algumas dúvidas sobre a tua visão de que a “A fotografia não é o ponto fulcral do fotojornalismo, é sim uma “ilustração” do texto, serve como argumento visual da palavra”, não concordo (mas tenho um tremendo respeito por ele) com esse ponto de vista, embora perceba a sua validade do ponto de vista puramente académico.

Não considero que um de nós está correcto em detrimento do outro e respectiva opinião, o que realmente penso é que existem várias correntes de reflexão sobre o papel do fotojornalismo nos dias que correm e não considero que o seu papel de ilustração em relação à palavra – que secundariza a imagem em detrimento do texto – esteja a prevalecer sobre o fotojornalismo de cariz documental, forte e independente do texto. Ou seja acho que cada vez mais temos um fotojornalismo de autor, com recurso a linguagens actuais e cuja dependência do texto já não é total. Há lugar para o fotojornalismo de ilustração, não vejo os jornais a viver sem ele, mas isso não quer dizer que o quero ver como primeiro prémio do WPP.

A fotografia que ganhou tem o seu lado icónico e não lho retiro, tem força, tem carácter e coragem de ambas as intervenientes – rapariga afegã e fotógrafa – é um acto de revolta e de alerta. Isso parece-me indiscutível e nunca o coloquei em causa, no entanto a dependência em relação ao texto – a dependência que tu defendes e eu critico – é para mim o seu ponto fraco e que a torna ilustrativa e não afirmativa.
Irá ser um ícone incontestável? Não sei mas o tempo o dirá. Se a glorificação do horror me choca? Talvez… A Biebir falta-lhe o plano de longo prazo, a agenda de divulgação, fez uma boa fotografia para ilustrar um texto e ganhou o WPP, parece-me curto até em face do trabalho que tem vindo a desenvolver noutros projectos, basta navegar no seu site para perceber que é a todos os níveis uma fotógrafa admirável. E o mais interessante da questão é que a própria Bieber não usa qualquer tipo de texto – nem sequer legendas – para explicar as suas fotos.

Termino a minha reflexão com outro exemplo do que é, na minha opinião, o novo fotojornalismo documental: Nina Berman? Não há ali uma única palavra mas no entanto as imagens explicam-se a elas próprias, podia escolher vários exemplos onde não existe texto mas escolhi Nina Berman porque em 2005 ganhou um World Press Photo.

Não queria fechar este artigo sem agradecer ao Ricardo a sua reflexão, num blogue como este que pretende reflectir sobre o estado actual da fotografia é para mim fundamental poder contar com opiniões como a do Ricardo.

01
Maio
10

Joakim Eskildsen

Nordic signs© Joakim Eskildsen

Nordic Signs works é um dos meus portfolios favoritos de Joakim Eskildsen mas no seu site é possível encontrar outros trabalhos interessantes.
Destaco este pela ambiência e pela solidão, agrada-me deveras. De todos os outros portfolios “Edges” tem outra minha clara preferência mas sou um apaixonado por panorâmicas por isso aceitem isto como uma sugestão.

Nordic signs© Joakim Eskildsen

Mas no final é impossível escapar à beleza do nosso país e não ver o trabalho “Bluetides” fotografado na nossa praia da Apúlia na costa de Viana do Castelo.

No geral muito boa fotografia, de bom nível e despida de artifícios, não será isso que faz de facto um bom portfólio?…

06
Nov
09

Georgian Spring: a Magnum Journal.

Imagem 1

É um daqueles projectos fotográficos que só a Magnum seria capaz de concretizar: Georgian Spring. Captado durante a primavera de 2009, este projecto conta com a colaboração dos melhores repórteres da Magnum e cuja exposição itenerante anda já pela europa fora. O livro com o mesmo título já está editado e pode ser comprado na amazon UK com um preço muito interessante.

O projecto iniciou-se após um convite do ministro da cultura da Georgia para que a Magnum retratasse o renascimento deste país e nada melhor do que a primavera, essa época do ano em que a natureza se renova e renasce, para executar este projecto.
Cada fotógrafo tem a abordagem única que o seu olhar impõe sobre o tema e temos a abordagem descomprometida de Parr e ao mesmo tempo as imagens enigmáticas e sombrias de Antoine D’Agata, num registo onde está o melhor do fotojornalismo actual. Se a linha editorial da Magnum é do vosso agrado (certamente é do meu) então isto é do melhor que a casa tem feito nos últimos tempos, se não o é então aqui está um boa oportunidade de se reconciliarem com a mesma.

(Agradeço ao Miguel Coelho o facto de me ter enviado este link, a ele o meu obrigado)

11
Set
09

Kevin Bubriski – Looking at Ground Zero.

Imagem 1© Kevin Bubriski

Captada logo a seguir ao 11 de Setembro de 2001 esta série centra-se na reacção das pessoas aos atentados ao WTC. As torres ou o ground zero não são visíveis mas estão marcados e espelhados nos rostos dos transeuntes que com espanto, tristeza e raiva olham para o local onde a América foi ferida no seu orgulho; um dos simbolos do seu poder económico situado no centro do coração financeiro do mundo (Wall Street) tinha pura e simplesmente desaparecido. A América parava estarrecida e sobressaltada e a lente de Kevin Bubriski captou a face dessa América enquanto olhava para dentro da ferida aberta no seu coração.

16
Jul
09

Nuri Bilge Ceylan.

nbc© Nuri Bilge Ceylan

nbc2© Nuri Bilge Ceylan

Um retrato da Turquia. A pesquisa para um filme tornou estas fotografias numa série que vale por sí só, o filme Climates acabaria por ser lançado com sucesso em Cannes em 2006 mas as imagens de pesquisa ficaram.
A série acaba por ser um retrato poderoso sobre a relação das pessoas com a natureza e o formato panorâmico acaba por reforçar essa relação, alarga horizontes de uma forma intencional de modo a transformar as pessoas em pequenos pontos perdidos no meio do ambiente natural que as rodeia. A fragilidade do humano em relação ao natural é aqui retratada mas ao mesmo tempo a forma desafiadora com que os retratados nos olham – olham-nos através do fotógrafo – mostra a sua força, a vontade de vencer em ambientes hostis, fustigados pelo vento, em ambientes adversos. A rebeldia própria da juventude também sobressai nos inúmeros retratos ao mesmo tempo carregados de uma responsabilidade que lhes é entregue através de uma tarefa demasiado pesada para a sua idade.

É o retrato de um país envelhecido, rostos que transportam uma vida sobrecarregada com trabalho árduo em luta permanente com os elementos. Um retrato de um país onde os sonhos morrem cedo, esmagados pelo peso da realidade. Fascinante.

18
Maio
09

Andrew Kornylak.

Imagem 1© Andrew Kornylak

Uma boa série de retratos, alguns desportos radicais e um excelente portfolio c/ fotografia de comida.




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